O homem moderno, um indivíduo fechado em si mesmo, que conhece, domina, expande, o sujeito da história , surgiu no renascimento europeu, consolidou-se com o iluminismo e teve sua crise decretada com a globalização.

Podemos pontuar alguns fatores que contribuíram para o deslocamento ou crise desse modelo de subjetividade. Em seu livro, A identidade Cultural na pós modernidade, Stuart Hall aponta para cinco momentos em que as estruturas do sujeito moderno foi deslocada¹ :

  1. com o advento das pesquisas de Karl Marx (retomado por Louis Althusser), que passaram a considerar as interferências nas estruturas externas na modelagem dos sujeitos;
  2. O inconsciente formulado por Freud, sobretudo lido por Lacan, onde o indivíduo não é visto como nuclear, mas sim formado a partir de sua relação com o outro, e passa a ser marcado pela diferença sexual, social, cultural, linguística, econômica;
  3. As concepções linguísticas de Ferdinand de Saussure, que aponta para o fato de que quando nos comunicamos não temos o domínio total do sentido, pois a linguagem – que é anterior ao indivíduo – passa a ser vista como coletiva, possibilitando o entrecruzamento de significados baseados em experiências, tradições, contextos diferentes. Ou seja, o significado do texto não depende apenas de quem o emite, mas também de quem o recebe, e ambos jogam com todas as possibilidades de significados preexistentes e acessíveis no momento de emitir ou interpretar uma mensagem. Essa concepção também nos permite pensar que os significados não são fixos, mas estão passíveis de alterações, isso foi fundamental para a arte do século XX;
  4. Os estudos do filósofo Francês Michael Foucault, que analisaram as estruturas de poder individualizadoras e disciplinadoras, inclusive a construção do sujeito moderno;
  5. E de forma prática, os movimentos sociais diversos, que passam de lutas proletárias à resistências coloniais, sobretudo o movimento feminista, que leva a discussão política para níveis mais profundos, como o privado e o público, a divisão de tarefas e papéis, as divisões familiares, abrindo caminho para outros movimentos como LGBT, por exemplo, o estudantis, os raciais. Como diria Hall, “aquilo que começou como um movimento dirigido à contestação da posição social das mulheres expandiu-se para incluir a formação de identidades sexuais e de gênero”. (HALL, 2006 p. 45/46)

Tais processos e movimentos, somados às práticas artísticas e a intensificação da globalização fazem com que a noção de sujeito deixe de se pautar em uma essência fixa e passe a ser vista com em constante construção, a partir da modelagem de nossas condições de existência. Atualmente, estamos em uma constante construção de nós mesmos, que é reforçado pelas tecnologias de comunicação, onde discursos diversos se entrelaçam ao mesmo tempo em que não se podem se afirmar como verdadeiros e universais.

Na arte, os papéis do artista e do espectador sofrem transofrmações. O gênio criador artístico, aquele que a partir de uma interioridade pura, é capaz de conceber suas obras primas, foi questionado. Esse tipo de ideia, que valoriza a subjetividade individual (no caso o mundo interior e criador do artista) e quase sempre ignora as relações sociais, econômicas e culturais, abriu espaço para processos criativos inseridos diretamente na vida cotidiana.

Ampliando o nível de participação, transformando observadores em membros ativos do processo artístico, os trabalhos de arte passaram a ser mais abertos, solicitando que o sentido da obra se completasse na percepção do público². Esse descolamento do lugar de construção de sentido teve efeitos também nas ideias a respeito dos objetos artísticos. Das colagens de Picasso, passando pelos ready-mades de Duchamp e os experimentos construtivistas, até proposições como Caminhando de Lygia Clark – em que o sentido da obra se completa na ação de quem participa -, é de vital importância o diálogo com espaços e práticas que não correspondem ao campo artístico delimitado. Não para expandir as linguagens da arte, em uma espécie de fetiche do desenvolvimento infinito, mas sim para torná-la efetiva através de uma relação real com os contextos em que está sendo construída e utilizada.

caminhando

Caminhando, 1964. Lygia Clark

Através do uso de objetos, espaços e gestos, os critérios como artesania, beleza e obra prima foram abalados. Em uma reação aos chamados ilusionismo e academicismo ligados ao tradicionalismo, as obras passaram a experimentar novas estruturas e possibilidades de construção ao mesmo tempo evidenciar esses processos construtivos. Um exemplo simples pode ser observado na inclinação da pintura modernista a deixar visíveis as pinceladas e a materialidade do pigmento. Claro que esse gesto atualmente pode ser visto como conservador, mas é uma característica possível de ser identificada em muitos trabalhos do século XX. A escultura de Richard Serra, House of Cards. Quatro chapas se mantém em pé de forma interdependente.

house of cards

House of Cards, 1969, de Richard Serra.

E a medida que a obra de arte expande-se para as relações da vida cotidiana, a noção dos lugares da arte passam a ser questionados também. Os espaços ideológicos e físicos destinados às experiências artísticas entraram em crise em meados do século e deram lugar a obras que se utilizavam de forma peculiar esses espaços, ou trabalhos que buscavam outros lugares completamente diferentes. Logo a arte passou a tomar a ruas das grandes cidades, lugares inóspitos, parques, praças, escolas, sites, blogs e qualquer outro meio possível de ser explorado. E o circuito representados pelos museus e galerias teve que se reinventar.

Essas modificações no papel de quem faz e consome arte e nos materiais e práticas que correspondem ao fazer artístico nos deixam com certas tendências a serem investigadas e testadas. Essas tendências não são regras o caminhos claros, mas são campos abertos pela arte do século passado que estão disponíveis a serem colocados em prática³.

A primeira corresponde ao campo expandido da arte, ou seja, a relação do fazer artístico com outros campos do conhecimento e das práticas humanas. Uma vez que a arte já não se sustenta de forma isolada (assim como as várias definições que se pretendem fixas e isoladas) o contato com outras disciplinas é fundamental para a própria utilidade da arte na vida. Por isso encontramos artistas que cozinham, que se envolvem com esportes, manifestações, hortas, empreendedorismo. A arte de hoje busca relações complexas com a antropologia, biologia, informática, arquitetura, ecologia, só para citar algumas conexões.

Outra tendênciama ser considerada é a especificidade do contexto, ou seja, como o trabalho pode ser desenvolvido ou apresentado em relação aos contextos políticos, econômicos, sociais, culturais, tecnológicos, etc. É importante, nesse sentido, o impacto e efeitos que a arte tem em relação aos espectadores em que é direcionada, evitando modelos abstratos de público (o espectador universal). Até mesmo as linguagens tradicionais da arte (pintura, escultura, gravura, desenho) podem ter suas utilidades renovadas em um contexto específico, o que permite um diálogo entre práticas tradicionais e modernas.

As tecnologias de comunicação digital também aparecem como possíveis meios de criação, veiculação e consumo de obras de arte, além de um contato que facilita a articulação entre artistas, produtores, públicos. Nessa perspectiva, a arte passa a se inserir nos meios de comunicação de massa, como previu Walter Benjamin em seu ensaio sobre a reprodutibilidade técnica, e dessa forma atuar para mudar relações de poder por dentro das estruturas de domínio, disputando espaço com todos os tipos experiências acionadas por esses conteúdos.

Se você quer saber mais sobre os processos artísticos na contemporaneidade, convidamos a participar do workshop que irá ocorrer durante a exposição Gestos Estratégicos. Para mais informações, acesse:

https://mandrana.com/mostras/gestos-estrategicos/

¹ Sobre as mudanças nas formas de pensar em viver as identidades, ver o livro A identidade Cultural na pós modernidade, de Stuart Hall.

²Em relação aos deslocamentos da arte do século XX e o papel das vanguardas nesse processo, ver o livro O retorno do real, de Hal Foster,

³Para uma reflexão do estado da arte nesse início de século, ver A sociedade sem relato – antropologia e estética da iminência de Néstor Gascía Canclini.

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