A influência imagética oriunda das artes, figura ao longo do tempo fatos históricos importantes, tornando-se ícone na memória de determinado acontecimento. Assim como a identidade nacional, estabelecida por meios plásticos pode, com facilidade, consolidar uma ideia de nação. Construída com base em representações imaginárias, fazem com que um grupo de indivíduos se identifiquem como membros de uma organização social específica, influenciando seu comportamento.

Partindo do pressuposto de que todas as identidades são inventadas, por meio de valores simbólicos e culturais é possível avaliar a ideia de nação por meio dos costumes e das artes que a expressam. Deste modo, as imagens formam um importante meio de elaboração de uma memória coletiva, capaz de criar uma imaginário social. A ideia de nação no Brasil, por exemplo, foi construída no imaginário coletivo com a vinda da família real e a necessidade em estabelecer hábitos distintos da dos colonizadores. Muitas imagens pictóricas e iconográficas contribuíram diretamente para moldar a ideia de nação brasileira.

No século XIX a produção artística local era mantida e disseminada em grande parte por estrangeiros, que buscavam materializar e firmar no imaginário social a  características de exotismo e tropicalidade da nova nação. A Primeira missa no Brasil (1861), de Vitor Meirelles, exemplifica como os artistas se empenharam em moldar a visão dos brasileiros sobre sua própria história, presumindo a representação plástica destes acontecimentos.

A Primeira missa no Brasil (1861), de Vitor Meirelles

Existem muitas contestações às representações deste período, pois demonstram a ideia de nação brasileira fundada a partir da ação civilizatória, onde a hierarquia social expõe os brancos em primeiro plano, e os negros e índios em planos mais afastados, como um ato pacífico e glorioso. 

O passado colonial brasileiro pode ser revisto com o fim do império, assim como a visualidade da nacionalidade local. O regime republicano, instalado sem a participação daqueles que deveriam ver-se como cidadãos exigia símbolos que os unificasse em torno de um projeto nacional. Neste período, indivíduos como Tiradentes perderam o caráter subversivo e ganharam conotação de herói nacional.

Tiradentes esquartejado (1893), de Pedro Américo

A fisionomia e a identidade nacional foram redefinidas com base nos interesses dos intelectuais das primeiras décadas republicanas e suas referências estrangeiras. O movimento modernista resultou das mudanças sócio-econômicas derivadas da expansão cafeeira, da industrialização e urbanização das cidades brasileiras. 

Os artistas passaram então a representar plasticamente as novas experiências sociais, mesmo mantendo a influência dos estilos europeus, as imagens ganharam novos conteúdos, visando figurar as marcas mais eloquentes do jeito brasileiro. Apresentada na emblemática Semana de Arte Moderna de 1922, a arte desta época não só restabeleceu a representação local, como também, efetivou parâmetros não contestados de identidade propriamente nacionais.

Na década de sessenta a série “Bichos” de Lygia Clark, apontam inúmeros impasses que os artistas eram obrigados a driblar para atuar efetivamente na construção e renovação do indivíduo e consequentemente da sociedade. Problematizando diretamente a noção de subjetividade e desta forma a concepção do sujeito e sua identificação enquanto pertencente a uma coletividade.

Bicho em sí (1964), de Lygia Clarck

Atualmente a ideia de nação traz pouca identificação, mesmo com a grande demanda de ações simbólicas que buscam nos unificar em algo maior. Porém, se os atos são facilmente convertidos em símbolos e partilhados, esperar que os limites nacionalistas nos conduzam ou representem enquanto sujeitos livres, abre margem para identificações que verdadeiramente não nos dizem respeito.

Deixe uma resposta