A artista Ivana Lima, a convite do Estúdio Mandrana escreve sobre sua carreira, a participação na Lida (publicação digital promovida pelo estúdio) e suas perspectivas quando ao uso das tecnologias digitais na arte contemporânea:

Comecei cedo, aos 14 anos. Meu primeiro professor de pintura foi o grande artista expressionista paranaense, Luiz Carlos de Andrade Lima (1933-1998), cuja obra marca o expectador de forma indelével, tanto pelas cores como pelas formas e temas. As aulas aconteciam em seu ateliê-escola que situava-se na Rua Emiliano Perneta, no Centro de Curitiba. Em seguida, fui aluna do pintor Ronald Simon, no Museu Alfredo Andersen, um artista que possui um estilo completamente diferente de minha primeira referência, um estilo abstrato e muito vivo. Um artista e amigo do qual carrego profunda admiração e gratidão. Nessa época, completei minha primeira formação acadêmica, no curso de magistério e em seguida me aventurei no universo do teatro. Creio que o teatro foi quem me abriu as portas para um outro modo de ver a arte. Não falo apenas das telas de pintura ou das cores do pincel. Pois além dos palcos, onde trabalhei em grupos amadores, viajando por pequenas cidades do Paraná e depois me profissionalizei, me apaixonei pela cenografia e por tudo o que envolve os bastidores. E a partir daí, trabalhei como assistente do Multiartista Paulinho Maia (diretor-ator-produtor-cenógrafo-figurinista, etc) em diversas montagens. Paralelamente, passei a frequentar os atelies livres do Solar do Barão, aprendendo técnicas de gravura com diversos artistas-orientadores, entre eles Nelson Hohman, Denise Roman, Ana Gonzales, Andrea Las entre outros. Fiz parte do Núcleo de Cenografia do ACT – Atelie de Criação Teatral, que era comandado pelo ator e cenógrafo Fernando Marés. Em 2005, em busca de um amadurecimento nessa área, prestei exame na EMBAP – Escola de Música e Belas Artes do Paraná, no Curso Superior de Gravura (uma das fases mais importantes, pelo convívio com professores e pela herança que carrego dessa época), pois foi quando conheci grandes artistas que tornaram-se amigos valiosos e que carregavam em si as mesmas buscas e objetivos. Tenho a felicidade de ver alguns deles florescendo em sua arte e a troca de experiências é algo imensurável.

Na Edição da Lida da qual me sinto bastante honrada pela participação, apresentei alguns trabalhos em formato digital, uma experiência bastante intensa, mas um tanto recente. Comecei em 2012, minhas primeiras gravuras digitais, experimentalmente e daí surgem as primeiras imagens da Série “Poema Sem Rosto”, que é baseada em fotos de infância do álbum de pessoas que vivem ao meu entorno. Surgiu de uma forma despretensiosa, mas que em cinco anos de pesquisa somavam mais de 25 gravuras. Tive o privilégio de ter um projeto aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura e com patrocínio da Caixa Cultural, foi viabilizado um catálogo em forma de caixa com 25 postais e em cada um deles, uma poesia, correspondente à imagem, criadas pela jornalista e produtora Darya Goerish, grande amiga e parceira nesse projeto. Além disso, uma exposição com 32 obras no Museu Alfredo Andersen, que permaneceu durante três meses e contou com textos críticos de nomes como Guido Viaro (escritor) Berenice Mendes (cineasta) e Emerson Persona (pintor).

“Paisagem Urbana” é uma série de gravuras digitais que está em processo. Tratam-se de imagens baseadas em fotografias minhas, casuais, sobre o cotidiano da cidade e o cenário que ela reflete. Tem uma característica que se assemelha ao HQ, pois tem as cores mais chapadas e minha referência de criação para essa série é o filme Waking Life – Despertando Para A Vida de 2001 dirigido por Richard Linklater. Um filme muito impactante, aliás.

De 2012 para cá, trabalhei em muitas produções, desenvolvendo projetos gráficos e ilustrações para peças e grupos de teatro (Humano Mundo – Jardim – Bicirqueiros, etc), grupos musicais, capas de discos e dvds lançados por artistas paranaenses. Entre eles: “Jump Jazz” , “Marcelo Oliveira” , “Klezmorin”, ” Grupo Rosa Armorial”, “De Golpe y Porrazo” de Gabriel Castro, lançados em Curitiba, “Coffe Gold Sugar Cane” de Flávio Lira, lançado em Boston em 2017. No forno está a produção gráfica do DVD ao vivo do Show – “Sopros, Tambores e Arlequins”, com participação especial de Carlos Malta e coordenado por Marcela Zanette, com lançamento previsto ainda para este ano.

Quanto ao uso das tecnologias o potencial é enorme. Mas ao mesmo tempo, muitas informações perdem-se na rede, perdem seu valor real, pois acredito que a falta de educação da população, ou mau uso da tecnologia, sendo pelas escolhas dos usuários em suas buscas, ações e prioridades, nos tornam um tanto atrasados nesse sentido. A internet é usada de forma ignorante, em grande parte. A comercialização de produtos artísticos e outros na internet está se tornando bastante procurada, mas ainda assim acredito na importância de espaços físicos de arte públicos, que são muitos desvalorizados, pouco incentivados e alguns com recursos mínimos. Muitos fecharam, e a abertura dada a muitos artistas em Galerias de Arte, no geral é restrita. Não creio na extinção da arte, nem dos pintores, nem da fotografia como já se pensou no início da era digital, pois até hoje por exemplo, gosto de poder revelar e pegar em uma foto impressa, de sentir o cheiro de uma tela à óleo recém pintada, ou espiar a lente de um monóculo. Mas convenhamos, tudo vai muito mal. Nesse sentido, ainda não descobri a importância real da tecnologia em meu trabalho, além da divulgação das obras que produzo e dos produtos finais para que tenham um acabamento com uma alta qualidade tecnológica (papéis, tecidos especiais).

 

A tecnologia avança cada vez mais…

Hoje temos até aplicativos que criam logomarcas por exemplo, quase instantâneas, com preços tão baixos que um designer não tem como competir, e hoje em dia as pessoas não querem pagar o preço e nem esperar o tempo de produção.

Todos tem pressa!! E essa crise, dizem… 

(no caso das artes, nem sei quando a crise se iniciou, acho que desde sempre, 

pois ainda nos dias de hoje é uma profissão banalizada e questionada) 

Penso que nesses dias de hoje quando uma máquina, tira o lugar de um profissional, seja qual for, ou quando algo surge como uma febre que viraliza e entorpece a todos, mas depois é esquecida, ou quando a tecnologia não tem o objetivo de fazer o bem, 

eu não creio que isso seja progresso.

***


Não deixe de conferir os trabalhos de Ivana Lima na segunda edição de nossa revista Lida 002 – Verão.

 

Se você possui algum trabalho nas áreas de Artes Visuais, Cinema e/ou Música e gostaria de vê-lo publicado em nossa revista, inscreva-se

Deixe uma resposta