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Resenha: FlipaClipe

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O FlipaClipe é um Aplicativo destinado a criação de animações quadro-a-quadro estilo bloco de papel, com interface limpa e ferramentas intuitivas, onde você cria animações rapidamente sem complicações. O que chama atenção neste aplicativo é realmente a facilidade com que você se adapta a ele, em alguns minutos é possível ver suas formas e traços ganharem movimento. Ao iniciar um projeto você deverá nomeá-lo, escolher o tamanho da sua tela podendo optar entre os formatos para YouTube, Instagram, vimeo, facebook e tumblr, assim como o número de quadros por segundo, que vão de 1 à 30 quadros, para auxiliar a visualizar a velocidade que a quantidade de quadros representa por segundo, a animação de uma bola quicando é exibida.


Quanto ao fundo você pode optar pelos cenários prontos, folhas que simulam vários papéis, padronagem, cores sólidas, tirar uma foto instantaneamente ou importar uma imagem de sua galeria.

 

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Para compor suas ilustrações você terá à disposição os seguintes recursos, lápis, pincel, caneta nanquim, marca texto e borracha, podendo alterar espessura e intensidade.

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A ferramenta laço é fundamental na seleção de elementos, pois possibilita a alteração da dimensão, a posição, e copiar / colar seu esboço nos próximos quadros, que inclusive dispõe da função ‘casca de cebola’ permitindo que você veja o quadro anterior como imagem fantasma, igual a uma animação em papel, essencial para a continuidade e movimento de seus objetos. Camadas também podem ser adicionadas em cada quadro, facilitando na organização de seus elementos.

 


A possibilidade de importar áudio e vídeos em seu projeto também é muito interessante pois você pode usar como parte da narrativa ou como cenário para seus personagens. Para formas básicas e linhas temos a régua, e a ferramenta texto para o caso da utilização de diálogos ou informações. Na escolha das cores é possível criar suas paletas ou optar entre as 8 paletas prontas.

 

Apesar do FlipaClipe não oferecer muitas ferramentas de desenho e nem opções avançadas para as mesmas, é possível criar tranquilamente suas animações mesmo na versão gratuita, que conta com algumas restrições como por exemplo, limite de 3 camadas por quadro, anúncios esporádicos, marca d’água no canto inferior esquerdo, configurações limitadas de ‘casca de cebola’ e o limite de 6 segundos para vídeos importados, que enfim podem ser desbloqueados com a compra do pacote premium no valor de R$19,99 o que convenhamos é bem barato pelos recursos que o aplicativo oferece. De qualquer forma independente da versão, vale muito a pena experimentar este eficaz aplicativo.

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Entrevista BlinDJ

BlinDJ é um projeto de música eletrônica e está presente na lida_004. Anderson Farias, seu idealizador, fala sobre a carreira e influências.


Conte-nos um pouco sobre você e sua carreira:

Nasci com deficiência visual em 1978, tive baixa visão até mais ou menos uns 8 anos. Meu ensino fundamental (primeiro grau) foi realizado em uma escola exclusiva para cegos, e lá, entre outras habilidades, comecei a me interessar por música. Já em 1995 participei pela primeira vez de um campeonato para DJs.


Quais são as suas principais referências/influências em seu trabalho:

Minhas referências são todas das antigas quando falarmos exclusivamente em relação aos DJs: Ricardo Guedes, DJ Marky, Memê, Deep-Lick… Do novo cenário eu citaria KVSH, Make U Sweat, Bruno Martini…


Conte-nos sobre o “Clipe Deficiências” e o motivo de ter inscrito este trabalho na lida:

O clip tem realmente a intenção de evidenciar o potencial das pessoas com deficiências. Quando conheci, o poema “deficiências”, há mais de 15 anos, gostei muito e fiquei com a certeza que ali tinha algo diferente pra passar para os outros. De 2014 para cá minha esposa e eu começamos a pensar em produzir nossas próprias músicas. Em 2017, fui atrás da autora do texto, consegui a autorização pra musicá-lo e aí está. Pensamos em vários formatos pra colocar a ideia em prática, mas a falta de patrocínio nos permitiu ter uma produção bem simples, mas a essência foi mostrada: pessoas correndo atrás do sonho de produzir seu próprio som.

Quando li sobre a LIDA em um grupo de Facebook, achei que poderia ser uma ótima oportunidade pra mostrar o trabalho pra mais gente.


Como surgiu a idéia e o que motivou o início do projeto BlinDJ?

BlinDJ é uma brincadeira com as palavras Blind (cego em inglês) e DJ. Hoje todos os DJs possuem nomes artísticos bem fortes, a profissão está muito popular, não dá pra ficar só com o seu nome / sobrenome de batismo, então, juntamos as palavras e ficou bacana.


Quais foram as principais dificuldades em viabilizar o projeto?

Para produzir o clip a dificuldade foi conseguir financiamento e portanto ele está bem longe da ideia inicial passada no diálogo que Camilla e eu temos no início dele.


Como vocês observam o mercado atual dos djs no brasil?

Não só no Brasil mas no mundo o conceito de DJ mudou; hoje em dia se você não produzir seu próprio material (músicas), fica complicado atingir uma grande massa. O DJ é muito mais do que um simples tocador de músicas previamente selecionadas, ele realmente produz outros artistas, cantores, bandas e é nesse mercado que desejamos estar um dia.

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Confira mais sobre o projeto e assista o clipe Deficiências na quarta edição da lidaAssine  agora, é gratuito!

Entrevista Lucas Gervilla

Lucas Gervilla  participa da lida_004 com dois trabalhos, Postais Soviéticos (individual) e Ruínas|Ruídos – De Detroit a Moscou (em parceria com Mônica Toledo), confira abaixo a entrevista em que o artista fala sobre as propostas apresentadas e sua trajetória.


Conte-nos um pouco sobre você e sua carreira:

Comecei a trabalhar com audiovisual ainda em 2005, quando ainda estava no curso de Comunicação em Multimeios, na PUC-SP. De lá pra cá, nunca parei. Trabalhei em diversas áreas, desde a criação de vídeos para cenários de shows musicais, institucionais, ficção, documentários sobre os mais variados temas, vídeo performance, live cinema, enfim, um pouco de tudo. Mas sempre com imagens em movimento, seja nos meus próprios trabalhos ou colaborando com outros artistas. Atualmente, sou mestrando no Instituto de Artes da UNESP.


Em 2017 você  participou de uma residência em moscou, conte- nos como foi essa experiência e os trabalhos que nasceram desta viagem:

A ideia de ir para Moscou já era antiga, mas só se concretizou no ano passado. A residência só foi possível graças ao Prince Claus Fund, da Holanda, que patrocinou os custos da viagem. O principal objetivo foi realizar as gravações e intervenções para um trabalho meu chamado “Abandonamento”, uma série de intervenções temporárias realizadas através de projeções de vídeo em lugares abandonados. Esse trabalho surgiu originalmente em 2013, estou desenvolvendo uma nova etapa dele para o mestrado, onde combino intervenções em lugares abandonados na Rússia e no Brasil.

A experiência lá foi única! A Rússia é muita coisa para um país só. Mesmo tendo feito um curso de alfabetização em cirílico e aprendido algumas expressões básica, me senti como um analfabeto em várias situações. Mas isso não impediu o bom andamento das coisas, o tempo todo tinha que fazer adaptações no que tinha planejado, o que, na maioria das vezes, trouxe resultados bem interessantes. A residência aconteceu junto ao CCI Fabrika, um centro cultural de Moscou. Toda a equipe foi solícita e ajudou bastante na realização do trabalho.

Fiquei lá um mês. Nesse período produzi muito material em vídeo e fotos, não só para o “Abandonamento”. Uma parte desse material foi o que deu origem aos meus trabalhos apresentados nessa edição da Lida. Ainda tenho muitas outras coisas que deverão ser incorporadas a trabalhos futuros.


Nesta edição da LIDA podemos encontrar dois trabalhos seus, o Cartões-postais | Monumentos Soviéticos, e o Ruínas|Ruídos – De Detroit a Moscou, que é uma parceria com Mônica Toledo. Conte-nos sobre ambos, nos postais quem são os personagens que foram retratados?  e no Ruínas, como foi a busca por estes locais abandonados ?

Andando por Moscou é muito fácil se deparar com grandes monumentos e estátuas: nas estações de metrô, praças, parques, avenidas…em todo canto tem um. Em geral, eles tem um ar de imponência e são feitos para serem admirados de baixo para cima. Uma boa parte desses monumentos retratam conquistas  da União Soviética e também valores importantes à filosofia socialista.

Um dos monumentos retratos nos postais é o monumento “Operário e Mulher Kolkhoz” (ou kolkosiana, dependendo da tradução para o português), uma obra colossal criada em 1937 pela artista Vera Mukhina. O trabalho mostra um homem segurando um martelo – representando os operários urbanos – e uma mulher com uma foice – representando os camponeses. Juntos, os dois formam o símbolo do socialismo além de representarem a igualdade de gênero. A importância dessa obra transcende as questões políticas. Trata-se da primeira estátua do mundo a ser feita em metal soldado. Esse trabalho também definiu o padrão do Realismo Socialista na arte monumental, retratando pessoas comuns com um caráter heróico.  

O fato da URSS ter enviado para o espaço o primeiro satélite artificial – o Sputnik, em 1957 – e o primeiro ser humano – Yuri Gagarin, em 1961- são lembrados com orgulho até hoje. Em um dos postais retrato o “Monumento aos Conquistadores do Cosmos”, construído em 1964, em homenagem aos avanços do programa espacial soviético. Outro postal mostra uma estátua chamada “Sputnik”: um operário segurando imponentemente uma réplica do satélite homônimo, representando que a conquista não foi apenas dos cientistas, mas de todo o povo; mais um ótimo exemplo do Realismo Socialista nas artes.

O quarto postal mostra uma das muitas estátuas de Vladimir Lennin que ainda estão em Moscou. Muito pode se discutir sobre a política comunista, mas a importância histórica de Lennin é inquestionável, ele foi um os responsáveis por uma das maiores revoluções da história.

Por conta da realização e “Abandonamento”, visitei vários lugares abandonados na região de Moscou e em Nizhny Novgorod. A Monica Toledo tem um trabalho muito bacana sobre o resgate de memórias através de ruínas e vestígios e, já há algum tempo, vínhamos conversando sobre criarmos um trabalho juntando nossas pesquisas. No ano passado, ela foi para Detroit, daí tivemos a seguinte ideia: juntar em um trabalho Detroit – a cidade que foi símbolo do capitalismo industrial estadunidense e hoje está em decadência) e Moscou – a antiga capital da União Soviética e que até hoje parece estar em transição – para mostrar que ninguém está imune ao abandono e esquecimento.


Coincidentemente nesta edição da LIDA temos um trabalho que dialoga com seu documentário Orquestra do som cego. Conte-nos sobre o projeto, como foi a estadia na Alemanha:

Foi uma experiência inesquecível. Na época (2008) eu trabalhava junto com o músico Livio Tragtenberg nesse projeto musical “Orquestra do Som Cego” e o grupo foi convidado para se apresentar em Berlim. O Livio viajou antes e, quando percebi, estava fazendo minha primeira viagem para fora do Brasil e sendo responsável por acompanhar dois músicos cegos. Então acabou sendo uma experiência nova para todos nós, cada um foi percebendo as coisas do seu jeito.

Eu já vinha gravando os ensaios e apresentações do grupo aqui no Brasil e gravei também todas as etapas da viagem à  Alemanha. Esse processo resultou no documentário “Orquestra do Som Cego”.


No mês de setembro, você estará estreando o filme Edmur e o Caminhão  onde você e seu pai, caminhoneiro aposentado, viajam em busca de um dos primeiros caminhões dele. Conte-nos sobre o projeto, quanto tempo durou a viagem:

Essa viagem parece ter durado a vida toda rsrs. Eu tinha a ideia de fazer esse filme há quase dez anos. Comecei a gravar algumas coisas mas sem previsão de ter o filme pronto. No inicio do ano, o projeto foi comissionado pelo Canal Futura para fazer parte do Doc Futura, uma série de documentários curta-metragem. Logo depois começamos as filmagens pra valer.

No filme, acontecem duas buscas em paralelo: uma pelo caminhão e outra por memórias. Ao mesmo tempo que procuramos outros proprietários do caminhão também fomos atrás de lembranças familiares que envolviam o caminhão e o universo rodoviário. A filme ainda está no primeiro corte, mas estou bem satisfeito com o resultado. Envolver a própria família em um filme não é tão simples quanto parece.

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O acesso a lida é gratuito. Assine e confira na quarta edição a a série Postais Soviéticos e os vídeos Ruínas|Ruídos – De Detroit a Moscou.

Resenha: Autodesk Sketchbook

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Desenvolvido pela experiente em software de design 3D a Autodesk, este Aplicativo é de longe a mais completa opção para você que deseja criar desenhos e pinturas digitais, com interface limpa, intuitiva e organizada, oferece uma ampla coleção de ferramentas e recursos que auxiliam no processo criativo e de adaptação ao formato digital. No seu “estojo” você irá dispor de uma variedade de 190 ferramentas que simulam com naturalidade, pincéis, lápis, marcadores, canetas, aerógrafo, pastel, carvão, borrachas, texturas, borrão e brilhos. Podendo criar imagens de até 10.000 x 10.000.

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Todas estas ferramentas apresentam funções avançadas para que você possa modificar por exemplo a pressão, o formato, rigidez, escolher a textura, ponta, espaçamento, rotação.

Há também as ferramentas:

  • Seleção laço magnético, varinha mágica, retângulo e seleção livre;
  • Transformar podendo distorcer, deslocar, inverter vertical e horizontal;
  • Preenchimento sólido, linear e gradiente;
  • Régua, elipse;
  • Simetria X, Y e radial com até 16 setores, replicando o seu traço então por 16 vezes.
  • Formas básicas;
  • Traço preditivo, para suavizar as linhas e ajudar a melhorar a qualidade do traço ao desenhar com o dedo.
  • Texto podendo distorcer, rotacionar e inverter.
  • E Timelapse, onde é possível gravar todo seu processo criativo, recurso este que vem se mostrando um vantajoso formato para que você divulgue seu trabalho em sites, blogs e redes sociais por exemplo.

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Tocando duas vezes em cima de uma camada temos os recursos de copiar, recortar, colar, duplicar, apagar, mesclar uma ou todas as camadas unindo sempre a camada abaixo da selecionada, ajuste de HSL, equilíbrio de cor e opacidade.

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No departamento de cores o SketchBook traz uma exclusividade, a biblioteca de cores dos famosos marcadores Copic original, sendo o único App a disponibilizar tais paletas. Para ajudar na harmonia de sua composição, após selecionar uma cor copic na parte inferior da janela você encontrará a sua complementar, sendo possível também criar suas próprias tonalidades.

Enfim, o Autodesk Sketchbook é sem dúvidas um aplicativo que merece sua atenção pelos excelentes resultados que proporciona, seja para criar pinturas, gravuras, esboços ou edições em imagens. E vale ressaltar que para extrair o máximo dos recursos citados, a utilização de uma caneta se faz necessária, podendo porém utilizar sem problemas apenas os dedos. Disponível para Android, iOS e Windows phone,  foi anunciado em abril deste ano a gratuidade da versão pro para todos os usuários, basta baixar, se cadastrar e começar a rabiscar!

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Arte e publicação

O século XX foi o período em que as instituições artísticas consolidaram sua hegemonia, estipulando modelos expositivos pautados pelo distanciamento do espectador em relação à obra – o que conhecemos como cubo branco. Esta institucionalização também foi responsável pela definição dos papéis dos agentes do circuito de arte (críticos, curadores, colecionadores) e pela forma como a arte é entendia, ou seja, as narrativas oficiais da história da Arte. Em um sentido oposto, foi nesse período que artistas do mundo todo dedicaram-se a questionar essas diretrizes, criticando ao mesmo tempo as maneiras de se fazer e de distribuir Arte: a partir daí, a pop arte, o minimalismo, o conceitualismo (para citar apenas alguns movimentos) investiram em questionar os limites do objeto e das instituições artísticas.

A arte em forma de publicação nasce a partir de um diálogo com esses movimentos da arte contemporânea. Dentro de uma visão moderna, o catálogo (e a publicação no geral) é visto como secundário em relação a exposição oficial, com um apêndice que está ali para ilustrar e contextualizar determinada mostra. Nessa lógica, os registros de uma determinada obra tem um caráter ilustrativo e não podem ser comparadas à originalidade dos objetos. A medida que artistas passam a desenvolver trabalhos capazes de colocar esses valores em crise – a originalidade, a autoria, a legitimação institucional -, as publicações passam a ser vistas como meios de popularizar a arte, aproximando-a de um público mais amplo.

Poderíamos citar o pioneiro trabalho “Twenty-Six Gasoline Stations de Edward Ruscha, feito em 1963. O livro contém uma série de fotografia de postos de gasolina espalhados pelos Estados Unidos, onde o artista explora a reprodução técnica proporcionada pela fotografia, questionando em termos práticos a aura da unicidade da obra de arte e chamando a atenção para a popularização proporcionada pelo formato do livro. Nas palavras de Cristina Freire, “a estratégia que Rusha utiliza e as novas formas de distribuição […] são anunciadas por esse trabalho que rompe, inapelavelmente, com as categorias definidas pelas belas-artes para obra de arte.”

Um outro exemplo desse tipo de postura em procedimentos curatoriais pode ser visto na exposição “The Xerox book” de 1968 (acesse a publicação no final do artigo) realizada pelo curador Seth Siegelaub com a participação dos artistas Carl Andre, Robert Barry, Douglas Huebler, Joseph Kosuth, Sol LeWitt, Robert Morris, and Lawrence Weiner. A proposta era que cada artista criasse 25 páginas em formato de fotocópia, enfatizando que o espaço expositivo seria o da publicação. A exposição de Siegelaub trouxe questões importantes em relação a materialidade (e a imaterialidade) que constituem uma obra de arte, assim como o circuito em que esses trabalhos eram distribuídos, e como aponta Regina Melim, utiliza e enfatiza “o meio de reprodução como estratégia crítica à unicidade e autenticidade de uma obra-de-arte”.

Em um contexto latino americano, onde as instituições artististicas são historicamente mais frágeis, a arte em forma de publicação teve papel fundamental não só no fomento de novas formas de distribuição de obras, mas sim nos desvios estratégicos necessários à sobrevivência em um regime ditatorial. Surgiram vários movimentos que lançaram mão de livros, jornais, revistas, cartas e postais na tentativa de ao mesmo tempo criticar os circuitos convencionais (e a falta de) e criar novos circuitos. Podemos citar artistas como o mexicano Ulises Carrión e o Uruguaio Clemente Padín.

No Brasil, especificamente, foram muitos os artistas que se envolveram em práticas nesses formatos, como Cildo Meireles em suas conhecidas inserções em circuitos ideológicos, Júlio Plaza e Regina Silveira com a série on-off, Artur Barrio com seu Livro de Carne, entre outros. Em todos esses casos o interesse estava, segundo Cristina Freire, na “facilidade para a circulação de informações, a possibilidade – pelo menos em tese – de acesso a todos, a fuga do mercado, e –  para os latino americanos – a chance para subverter a repressão política e participar do debate artístico mais amplo […]”. Para isso vários recursos foram usados, como, por exemplo, a distribuição via correios.

Incerções em circuitos
Inserções em circuitos ideológicos, de Cildo Meireles.

A veiculação de arte a partir de meios reprodutivos questiona a um só tempo os modos de fazer, circular e pensar a arte em um contexto midiatizado. Essa posição é fundamental para entendermos a dimensão política desses procedimentos, pois mais do que um conteúdo a ser comunicado, esses trabalho tinham como objetivo interferir no próprio processo comunicacional, transformando esses meios na materialidade constitutiva da obra. Em outra palavras, mais do que colocar um trabalho para circular em determinado circuito, fazer do próprio circuito o trabalho.

Com a digitalização dos meios de reprodução, novas diretrizes são abertas para as publicações de arte, entre elas a facilidade e o baixo custo de produção e circulação dos trabalhos, a criação de novos circuitos em rede (sites, fóruns, grupos) e a tendência multimídia, por onde fotos, vídeos, desenhos, sons e textos podem ser explorados na constituição de novas experiências artísticas. Esse processo complexifica a divisão convencional entre criação, crítica e curadoria de arte e permite que essas atividades sejam realizadas fora de instituições convencionais. Porém, essas facilidades devem serem vistas com cautela, já que em um capitalismo avançado, esses meios de trocas de informação passam por grande corporações sedentas por dados.

Um exemplo do uso dos meios digitais para a publicação artística vem aqui mesmo da Mandrana. Desde o ano passado estamos lançando periodicamente a Lida, uma plataforma que tem como objetivo a circulação de trabalhos de arte contemporânea em meios digitais, utilizando dos diferentes meios audiovisuais para levar a lugares remotos propostas artísticas de diferentes localidades. Os meios digitais nesse caso não estão presentes apenas na construção da publicação (um arquivo PDF), mas sim na maneira como os artistas enviam seus trabalhos para serem expostos, na distribuição para o público através do e-mail e no pensamento crítico dessas práticas por meio desse blog (artigos, entrevistas, etc).

Mais do que obras de arte digitais, nossa proposta é pensar toda a cadeia do sistema da arte dentro dessas tecnologias, levando em conta seu potencial criativo e crítico. Através da Lida, uma rede específica é formada, por onde circulam formas de fazer e de pensar essas práticas. As publicações de arte tem um vasto caminho a ser percorrido, uma infinita gama de possibilidades. Nosso papel deve ser o de revisitar as práticas do passado – como a da vanguarda brasileira, por exemplo – para ressiginificarmos esses procedimentos no presente, levando em consideração as questões que ainda são pertinentes e as que podem ser consideradas gastas. Atualmente, nossas instituições culturais demonstram novamente suas instabilidades. Nos parece um bom momento para explorarmos os meios digitais para burlando este sucateamento e trabalhando na direção de uma arte ampla novamente.

Conheça as edições da Lida aqui.

Acesse a publicação/exposição The Xerox book, aqui.

Referências:
FREIRE, Cristina. Arte Conceitual. Rio de Janeiro: Jorge Zehar Editor, 2006. Obtenha aqui.
MELIM, Regina. Espaço portátil: Exposição – Publicação. Disponível aqui.

 

Entrevista Fernando Hermógenes

Fernando Hermógenes, participa da lida_004 com seu trabalho Selfólio e fala um pouco sobre sua pesquisa, prática e influências. Confira a entrevista abaixo.


Conte-nos um pouco sobre você e sua carreira:

Estou caminhando nessa vibe há 11 anos, começando com arte e educação e desembocando na bagunça geral. Estou interessadíssimo no modo de fazer precário, o tosco, o humor e exagero, além da reunião, afetos e diversão – meu trabalho sempre aliançado com estes tópicos, ideias e caminhos que permitem inter-ações diversas quando os acontecimentos acontecem. Gradecido sempre pelas parcerias estabelecidas ao longo desse negócio que a gente chama de carreira, como o La Plataformance-SP, Perpendicular-BH, Corpus Urbis-AP, Gira de Performance-RJ e a galera takadora de fogo em Bangladesh. Sigo apaixonado com a des-aula, a destruição desta escola como temos hoje e com cada aluni que colou comigo e eu com elis nessa jornada. Na escola eu me criei, na escola me arruinei. Falo da minha avó Sueli Saldanha, que desde o início das coisas tem me acompanhado, fotografado e apoiado incondicionalmente, com uma fidelidade irrepetível, uma encorajadora dos processos, uma escape quando a coisa tá difícil e uma vida enorme quando a coisa acontece.


Quais são as suas principais referências/influências em seu trabalho?

Eu sempre fui sou apaixonado pela infância, o Hélio e o Krasinski. Bebo constantemente nas fontes destes três experimentadores incansáveis, dando nisto: um desejo de fazer, inventar, criar, tentar, ver, poder que vai quebrando os ‘não’ tudo. A infância, especialmente, pq ali tudo é muito tranquilo, é só indo mesmo pra ver no que dá. Desde sempre na escola, primeiro como aluno e depois professor, lidar com a criança numa relação de respeito e escuta, trocas e muita ação, fortaleceu minha prática e também atravessou diversas vezes e em diferentes níveis.


Conte-nos sobre o “Selfólio” e o motivo de ter inscrito este trabalho na lida:

Inicialmente, criei o Selfólio pra brincar com a ideia de foto bonita e foto feia. Sempre me divertiu ver as pessoas fazendo muitas selfies, mesmas poses e lugares, repetindo até que uma fique bonita. Decidi postar todas as selfies que tenho – daquelas que se enquadram no feio, no bonito e também no indefinido. Pra tanto, criei (mais) um blog e passei a postar todas as selfies que eu tinha de determinado momento, como uma viagem ou evento ou comida ou bebida. Não encaro o Selfólio como uma novidade, uma proposta inédita; os Selfólios já existem, tá aí o Instagram, Facebook e uma chuva de outras plataformas nas quais as pessoas se divulgam, espalham e takam seus rostinhos pro mundo afora. Mas o meu Selfólio tá por fora (risos), por fora da regra geral e das normas. É selfie? Então bora! Quando acessei uma edição da Lida, pensei que o Selfólio seria incrível pra entrar ali, aquele monte de quadradinho na revista. Pensado e feito, tá bayfârsx!


Recentemente você participou da residência Laboratório Santista (LABxS) conte-nos um pouco sobre o projeto e como foi a sua experiência:

A experiência no Laboratório Santista foi fantástica! Ali realizei o Museu do Objeto Encontrado, entre julho e agosto, e o processo de levantar este museu esteve animado por muitas outras figuras inesquecíveis: os amigos da Colaboradora, dos GTs e outros pontos de ação no Instituto Procomum. Este museu é pra apontar a precariedade da ou na produção do artista, algo que abracei no meu modo de fazer as artes e existir no mundo. O recurso que está disponível: vamo que vamo. O projeto original compreendia a experimentação de alguns textos que escrevi em 2017, porém, os atravessamentos das pessoas conduziu o trabalho por um outro caminho: o museu como lugar de encontro, dança, festa, conversa, confissão, auê, convite. O ambiente do museu era decidido diariamente, pois as obras e as histórias nos mudavam de lugar, de assunto e interesses. Aproximadamente 90 pessoas passaram e/ou ficaram por horas no museu ao longo de 8 dias de Auê Aberto e outros dias ao longo do mês. Recebíamos doação de obras, de comidas e performances também, além da maior DJéia que este país já viu, Mariany Passos Nanne Bonny, ter tocado no museu 2 vezes. Aquele pequeno cômodo com várias instalações, cadeiras e poltronas, se tornou um ambiente de convivência, ficar, pausar, dormir, esvaziar – assim como elevar a energia a níveis incontroláveis, takar fogo literalmente, acender velas, berrar, cansar.


Você possui um extenso trabalho com gifs, fale um pouco sobre a escolha desse formato:

Os gifs surgiram a partir do Google Fotos e passei a colecionar alguns. Em seguida, abri o blog, achando divertido que eu poderia abrir uma página na web a qualquer momento e eu estaria ali me movendo all the time. Fernando Hermógenes Animado. O próximo passo foi começar a montar os assuntos e ideias pro gif, deixando que o Fotos fizesse o resto. A coleção continua. Os gifs hermogenianos foram expostos nas edições do GIFFORMANCE, organizado pela queridíssima bayfârsx artista Marcela Antunes, do Rio de Janeiro.

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Acesse Selfólio e outros trabalhos na lida_004. Basta fazer sua assinatura gratuita.

O digital e as formas de apresentação

Se os novos hábitos de consumo, movidos pelas possibilidades produtivas dessa época encontram-se cada vez mais aptos a conectarem ideais, pensar como ocorre a mediação entre as práticas artísticas e a propagação de materiais digitais, implica considerar suas formas de apresentação.¹

Observando que na arte há uma revalorização das capacidades, ligadas à noção de trabalho, em recompor a paisagem do que é visível e as relações gerais entre o fazer, o ser, o ver e o dizer. Representando e reconfigurando as partilhas dessas atividades em quaisquer que sejam os circuitos econômicos que pertençam.²

Entre recessões e crises, a ascensão da tecnologia digital e a consequente propagação de uma cultura global, podem ser evidenciadas uma infinidade de ocorrências com modos de gerar novos sentidos, além do aparecimento e a experiência dessa mudança e suas possibilidades de reconfiguração.

Redesenhando seu processo criativo, a prática artística se encaixa no que resta de seu campo específico, assim como em outros espaços de rede, ampliada por novas janelas econômicas (modos de produção e áreas de atuação), comunicacionais (formatos e veículos) e críticas (linhas de interpretação e modos de reativação).

Deste modo, quando pensamos em formas de apresentação podemos relacionar, desde as convencionais exposições de arte, instalações e site-specific, assim como essa diversidade de ações e dispositivos que não são veiculados em locais próprios da arte, mas que operam objetivamente sobre a visualidade enfatizando certo envolvimento como a vivência.

Neste sentido, a apresentação é uma consideração mais ampla que a  exposição, que articula modos possíveis de se fazer arte e suas formas de visibilidade em especificidades espaço-temporais.

Porém, a mudança da noção de lugar e ocorrência gerada pela produção e a circulação digital de imagens (sem deslegitimar os museus e galerias), traçam uma mudança nas teorias, críticas e políticas culturais, onde o espaço expositivo é indicado, sobretudo, pelas molduras culturais, sociais e econômicas que as envolvem.

Segundo Canclini, “A difusão digital e a distribuição em telas reduzem, embora não eliminem, a sacralização de lugares de exibição como os museus e as bienais e criam outros modos de acesso e socialização de experiências artísticas. Produzem também uma relativa homologação  da arte com outras zonas da cultura visual.” ³

Atuando no entrecruzamento dos movimentos orientados e dos fenômenos de indicar e fazer ver, artistas trabalham como mediadores de seus acervos, os espectadores podem montar seus próprios arquivos e modos de ver e a crítica opera sobre as obras, as imagens e os acontecimentos que ocorrem em sua circulação.

Assim, ao dispor de ferramentas digitais de produção e veiculação, se faz necessária a preocupação com os modos de apresentação, que consideram  as interações e reapropriações de públicos diversos, implicando no formato (material, midiático) em que essa relação se desencadeia, não delimitada pelo espaço expositivo, mas pelo modo de se fazer ver em seu contexto específico.

Se vivenciamos novas ações com novas formas de ver, se a arte existe porque vivemos na tensão entre o que desejamos e o que nos falta e a transformação da matéria sensível que lhe conduz, só é concretizada em partilha… Em potencial, a transformação sensível, é ativada pela conexão que é capaz de gerar, mas com o modo de representação discreto de formatos digitais, matéria sensível nunca foi tão fácil de se propagar.

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Referências:

¹ Termo designado em Formas de Apresentação: da exposição à autoapresentação como arte. Fervenza, Hélio. Revista Palíndromo 2.

² Definição apontada em A partilha do sensível. Rancière, Jacques. Editora 34, São Paulo. 2014. Obtenha o livro.

³ A Sociedade sem Relato. Canclini, Néstor García. EDUSP, São Paulo. 2012. Obtenha o livro.