Se os novos hábitos de consumo, movidos pelas possibilidades produtivas dessa época encontram-se cada vez mais aptos a conectarem ideais, pensar como ocorre a mediação entre as práticas artísticas e a propagação de materiais digitais, implica considerar suas formas de apresentação.¹

Observando que na arte há uma revalorização das capacidades, ligadas à noção de trabalho, em recompor a paisagem do que é visível e as relações gerais entre o fazer, o ser, o ver e o dizer. Representando e reconfigurando as partilhas dessas atividades em quaisquer que sejam os circuitos econômicos que pertençam.²

Entre recessões e crises, a ascensão da tecnologia digital e a consequente propagação de uma cultura global, podem ser evidenciadas uma infinidade de ocorrências com modos de gerar novos sentidos, além do aparecimento e a experiência dessa mudança e suas possibilidades de reconfiguração.

Redesenhando seu processo criativo, a prática artística se encaixa no que resta de seu campo específico, assim como em outros espaços de rede, ampliada por novas janelas econômicas (modos de produção e áreas de atuação), comunicacionais (formatos e veículos) e críticas (linhas de interpretação e modos de reativação).

Deste modo, quando pensamos em formas de apresentação podemos relacionar, desde as convencionais exposições de arte, instalações e site-specific, assim como essa diversidade de ações e dispositivos que não são veiculados em locais próprios da arte, mas que operam objetivamente sobre a visualidade enfatizando certo envolvimento como a vivência.

Neste sentido, a apresentação é uma consideração mais ampla que a  exposição, que articula modos possíveis de se fazer arte e suas formas de visibilidade em especificidades espaço-temporais.

Porém, a mudança da noção de lugar e ocorrência gerada pela produção e a circulação digital de imagens (sem deslegitimar os museus e galerias), traçam uma mudança nas teorias, críticas e políticas culturais, onde o espaço expositivo é indicado, sobretudo, pelas molduras culturais, sociais e econômicas que as envolvem.

Segundo Canclini, “A difusão digital e a distribuição em telas reduzem, embora não eliminem, a sacralização de lugares de exibição como os museus e as bienais e criam outros modos de acesso e socialização de experiências artísticas. Produzem também uma relativa homologação  da arte com outras zonas da cultura visual.” ³

Atuando no entrecruzamento dos movimentos orientados e dos fenômenos de indicar e fazer ver, artistas trabalham como mediadores de seus acervos, os espectadores podem montar seus próprios arquivos e modos de ver e a crítica opera sobre as obras, as imagens e os acontecimentos que ocorrem em sua circulação.

Assim, ao dispor de ferramentas digitais de produção e veiculação, se faz necessária a preocupação com os modos de apresentação, que consideram  as interações e reapropriações de públicos diversos, implicando no formato (material, midiático) em que essa relação se desencadeia, não delimitada pelo espaço expositivo, mas pelo modo de se fazer ver em seu contexto específico.

Se vivenciamos novas ações com novas formas de ver, se a arte existe porque vivemos na tensão entre o que desejamos e o que nos falta e a transformação da matéria sensível que lhe conduz, só é concretizada em partilha… Em potencial, a transformação sensível, é ativada pela conexão que é capaz de gerar, mas com o modo de representação discreto de formatos digitais, matéria sensível nunca foi tão fácil de se propagar.

 

¹ Termo designado em Formas de Apresentação: da exposição à autoapresentação como arte. Fervenza, Hélio. Revista Palíndromo 2.

² Definição apontada em A partilha do sensível. Rancière, Jacques. Editora 34, São Paulo. 2014. Obtenha o livro.

³ A Sociedade sem Relato. Canclini, Néstor García. EDUSP, São Paulo. 2012. Obtenha o livro.

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