Lucas Gervilla  participa da Lida 004 com dois trabalhos, Postais Soviéticos (individual) e Ruínas|Ruídos – De Detroit a Moscou (em parceria com Mônica Toledo), confira abaixo a entrevista em que o artista fala sobre as propostas apresentadas e sua trajetória.

Conte-nos um pouco sobre você e sua carreira.

Comecei a trabalhar com audiovisual ainda em 2005, quando ainda estava no curso de Comunicação em Multimeios, na PUC-SP. De lá pra cá, nunca parei. Trabalhei em diversas áreas, desde a criação de vídeos para cenários de shows musicais, institucionais, ficção, documentários sobre os mais variados temas, vídeo performance, live cinema, enfim, um pouco de tudo. Mas sempre com imagens em movimento, seja nos meus próprios trabalhos ou colaborando com outros artistas. Atualmente, sou mestrando no Instituto de Artes da UNESP.

Em 2017 você  participou de uma residência em moscou, conte- nos como foi essa experiência e os trabalhos que nasceram desta viagem.

A ideia de ir para Moscou já era antiga, mas só se concretizou no ano passado. A residência só foi possível graças ao Prince Claus Fund, da Holanda, que patrocinou os custos da viagem. O principal objetivo foi realizar as gravações e intervenções para um trabalho meu chamado “Abandonamento”, uma série de intervenções temporárias realizadas através de projeções de vídeo em lugares abandonados. Esse trabalho surgiu originalmente em 2013, estou desenvolvendo uma nova etapa dele para o mestrado, onde combino intervenções em lugares abandonados na Rússia e no Brasil.

A experiência lá foi única! A Rússia é muita coisa para um país só. Mesmo tendo feito um curso de alfabetização em cirílico e aprendido algumas expressões básica, me senti como um analfabeto em várias situações. Mas isso não impediu o bom andamento das coisas, o tempo todo tinha que fazer adaptações no que tinha planejado, o que, na maioria das vezes, trouxe resultados bem interessantes. A residência aconteceu junto ao CCI Fabrika, um centro cultural de Moscou. Toda a equipe foi solícita e ajudou bastante na realização do trabalho.

Fiquei lá um mês. Nesse período produzi muito material em vídeo e fotos, não só para o “Abandonamento”. Uma parte desse material foi o que deu origem aos meus trabalhos apresentados nessa edição da Lida. Ainda tenho muitas outras coisas que deverão ser incorporadas a trabalhos futuros.

Nesta edição da LIDA podemos encontrar dois trabalhos seus, o Cartões-postais | Monumentos Soviéticos, e o Ruínas|Ruídos – De Detroit a Moscou, que é uma parceria com Mônica Toledo. Conte-nos sobre ambos, nos postais quem são os personagens que foram retratados?  e no Ruínas, como foi a busca por estes locais abandonados ?

Andando por Moscou é muito fácil se deparar com grandes monumentos e estátuas: nas estações de metrô, praças, parques, avenidas…em todo canto tem um. Em geral, eles tem um ar de imponência e são feitos para serem admirados de baixo para cima. Uma boa parte desses monumentos retratam conquistas  da União Soviética e também valores importantes à filosofia socialista.

Um dos monumentos retratos nos postais é o monumento “Operário e Mulher Kolkhoz” (ou kolkosiana, dependendo da tradução para o português), uma obra colossal criada em 1937 pela artista Vera Mukhina. O trabalho mostra um homem segurando um martelo – representando os operários urbanos – e uma mulher com uma foice – representando os camponeses. Juntos, os dois formam o símbolo do socialismo além de representarem a igualdade de gênero. A importância dessa obra transcende as questões políticas. Trata-se da primeira estátua do mundo a ser feita em metal soldado. Esse trabalho também definiu o padrão do Realismo Socialista na arte monumental, retratando pessoas comuns com um caráter heróico.  

O fato da URSS ter enviado para o espaço o primeiro satélite artificial – o Sputnik, em 1957 – e o primeiro ser humano – Yuri Gagarin, em 1961- são lembrados com orgulho até hoje. Em um dos postais retrato o “Monumento aos Conquistadores do Cosmos”, construído em 1964, em homenagem aos avanços do programa espacial soviético. Outro postal mostra uma estátua chamada “Sputnik”: um operário segurando imponentemente uma réplica do satélite homônimo, representando que a conquista não foi apenas dos cientistas, mas de todo o povo; mais um ótimo exemplo do Realismo Socialista nas artes.

O quarto postal mostra uma das muitas estátuas de Vladimir Lennin que ainda estão em Moscou. Muito pode se discutir sobre a política comunista, mas a importância histórica de Lennin é inquestionável, ele foi um os responsáveis por uma das maiores revoluções da história.

Por conta da realização e “Abandonamento”, visitei vários lugares abandonados na região de Moscou e em Nizhny Novgorod. A Monica Toledo tem um trabalho muito bacana sobre o resgate de memórias através de ruínas e vestígios e, já há algum tempo, vínhamos conversando sobre criarmos um trabalho juntando nossas pesquisas. No ano passado, ela foi para Detroit, daí tivemos a seguinte ideia: juntar em um trabalho Detroit – a cidade que foi símbolo do capitalismo industrial estadunidense e hoje está em decadência) e Moscou – a antiga capital da União Soviética e que até hoje parece estar em transição – para mostrar que ninguém está imune ao abandono e esquecimento.

Coincidentemente nesta edição da LIDA temos um trabalho que dialoga com seu documentário ‘ orquestra do som cego’. Conte-nos sobre o projeto, como foi a estadia na Alemanha.  

Foi uma experiência inesquecível. Na época (2008) eu trabalhava junto com o músico Livio Tragtenberg nesse projeto musical “Orquestra do Som Cego” e o grupo foi convidado para se apresentar em Berlim. O Livio viajou antes e, quando percebi, estava fazendo minha primeira viagem para fora do Brasil e sendo responsável por acompanhar dois músicos cegos. Então acabou sendo uma experiência nova para todos nós, cada um foi percebendo as coisas do seu jeito.

Eu já vinha gravando os ensaios e apresentações do grupo aqui no Brasil e gravei também todas as etapas da viagem à  Alemanha. Esse processo resultou no documentário “Orquestra do Som Cego”.

No mês de setembro, você estará estreando o filme ‘Edmur e o caminhão ‘ onde você e seu pai, caminhoneiro aposentado, viajam em busca de um dos primeiros caminhões dele. Conte-nos sobre o projeto, quanto tempo durou a viagem.

Essa viagem parece ter durado a vida toda rsrs. Eu tinha a ideia de fazer esse filme há quase dez anos. Comecei a gravar algumas coisas mas sem previsão de ter o filme pronto. No inicio do ano, o projeto foi comissionado pelo Canal Futura para fazer parte do Doc Futura, uma série de documentários curta-metragem. Logo depois começamos as filmagens pra valer.

No filme, acontecem duas buscas em paralelo: uma pelo caminhão e outra por memórias. Ao mesmo tempo que procuramos outros proprietários do caminhão também fomos atrás de lembranças familiares que envolviam o caminhão e o universo rodoviário. A filme ainda está no primeiro corte, mas estou bem satisfeito com o resultado. Envolver a própria família em um filme não é tão simples quanto parece.

_____

O acesso a Lida é gratuito. Assine e confira na quarta edição a a série Postais Soviéticos e os vídeos Ruínas|Ruídos – De Detroit a Moscou.

Deixe uma resposta