Mateus Francisco participa da Lida 004 com seu trabalho “Rua dos bobos”, confira a entrevista feita com o artista:

Conte-nos um pouco sobre você e sua carreira.

Meu nome é Mateus, tenho 24 anos e sou estudante antes de qualquer coisa. Eu sou natural de Bragança Paulista onde ainda moro com a minha família, vivo no bairro da Vila Motta onde crescí jogando bola na rua Santo Antônio e pixando muros do “rio bosteiro” no Lavapés.

Entendendo a palavra carreira como caminho ao invés de entende-la como inserção num mercado específico eu acredito que meu interesse pela imagem, por arte ou algo nesse sentido começa com o Pixo propriamente. O mistério que envolvia aqueles nomes, lugares e os fantasmas de seus autores me encantava profundamente, portanto foi isso q fui fazer inicialmente, passando depois pros “bomb’s” e grapixos, sempre referenciando e acompanhado de um bando que começou a se unir em amizade na rua Santo Antônio e que entre o final da infância e fim da adolescência foi pra mim de grande importância e, no meio deles foi que decidi por estudar arte. Paralelo e depois disso trabalhei em oficina auto-elétrica, em fábrica do setor alimentício como terceirizado e até recentemente eu trabalhava como motoboy. Trabalhos que estranhamente também me influenciaram a estudar arte.  

Entrei na universidade pública, Unesp-Bauru, um tempinho curto na UFMG e atualmente to de volta a Unesp mas agora no instituto de artes de São Paulo, sempre no curso de Artes Visuais.

Também sou militante da Frente de Esquerda Bragantina e voluntário numa ONG que é a Comunidade Sorriso em reconstrução no bairro do Cruzeiro.

Quais são as suas principais referências/influências em seu trabalho?

Minha principal referência é do lugar mesmo onde eu vivo, da arquitetura bruta dos subúrbios, tijolo, concreto e massa corrida, essas construções feitas completamente por pedreiros e não por arquitetos. Acho que há uma potência aí, uma potência estética a ser explorada, resgatada e emergida da utilização prática do dia-a-dia.  

Conte-nos um pouco sobre o trabalho ‘Rua dos bobos’ e o motivo de ter inscrito este trabalho na lida:

Rua dos bobos é uma série de desenhos coloridos digitalmente onde eu exploro com o traço variações construtivas em perspectiva de linhas paralelas, essas construções tem sua raiz na observação de padrões, irregularidades e singularidades da construção civil suburbana. O título “Rua dos bobos” faz referência a música “A casa” de Vinícius de Moraes, que em primeira instância se relaciona com a própria série de construções isoladas que podem ser organizadas uma ao lado da outra ou uma depois da outra como numa rua de bairro, e segundo com a própria estrutura dos desenhos que não são mais do que linhas num espaço bidimensional. Também devo dizer que o paradoxo colocado nesta música foi de grande valor para o inicio dos desenhos que desembocaram nesta série. Outra coisa é q os 3 desenhos publicados na revista são uma seleção da série que tem mais de 20 desenhos. O motivo de querer pública-los é experimentar plataformas diversas de exposição que a série permite, além da Lida, esta série já foi organizada em zine e exposta na Galeria Alcindo do Instituto de Artes da Unesp.        

Estando cursando faculdade de Artes Visuais no momento, quais linguagens mais te surpreenderam e quais você não teve contato ainda, mas gostaria de poder ter acesso?

A pintura e o desenho se tornaram surpreendentemente importantes pra mim, o processo de me apropriar dessas duas linguagens foi um grande aprendizado e devo isso ao ambiente propício da minha escola, que apesar das dificuldades ainda é um ótimo lugar pra se estudar arte.

Eu pretendo me aproximar mais da construção civil, dos seus materiais básicos e sua técnicas, em geral do que trata o ofício do pedreiro e se possível entender ou desenvolver uma especie de linguagem artística que parta daí.      

Qual é a sua perspectiva profissional, considerando o cenário artístico atual brasileiro?

Me parece que hoje está em emergência o aspecto fetichista da mercadoria artística, que baseando-se num assentamento do desenvolvimento e rupturas estéticas da arte, tem ao seu dispor uma variedade infindável de produtos artísticos, todos eles considerados com valores intrínsecos de conquistas libertadoras, mesmo aqueles que reproduzem a operação duchampiana de questionamento do valor e estatuto do objeto artístico, pois esta operação não parece ter questionado ou rompido com este aspecto do mercado de arte, na real aparentemente o fortaleceu. Neste sentido parece haver duas vias possíveis de atuação: uma é tentar inserir o que eu faço neste cenário, no mercado de arte propriamente. A outra é inventar estratégias ou me inserir em projetos que visem a experiência artística não-mercadológica, e uma consciência de classe me faz desejar verdadeiramente esta última opção.

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