Existe a discussão a respeito da arte moderna ser de fato a representação de seu tempo, a manifestação natural de uma sociedade igualmente moderna, como um espelho da sociedade.  Não podemos negar que seus feitos possam dizer muito do contexto em que foram produzidos. 

Ao considerar a forma de representação usada por Gustave Courbet (1819-1877) e também o termo mise en scène (expressão que remete ao posicionamento dos elementos de uma cena), é notável como a realidade pode ser moldada nas imagens de um período, mesmo que este não configure um recurso propriamente moderno.

Integrante de uma família de camponeses em ascensão, Courbet transitava tanto em ambiente rural, quanto urbano e começou a pintar ainda jovem. Sua reputação boêmia e seu descontentamento com a sociedade burguesa eram vistos como forma de engajamento social, fazendo com que suas pinturas impulsionassem uma nova relação com as instituições artísticas e com o público. Por certo, percebia que a arte tinha um peso político bem estabelecido.

Em O homem desesperado (1845), autorretrato bastante enfático, a construção da cena enfatiza o domínio da imagem como linguagem, onde a realidade é denunciada em intenções. A expressão angustiante e o desespero atribuído ao título aparentam caracterizar a motivação em transpor sua visão mais do que seu estado de espírito momentâneo.

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COURBET, Gustave. O homem desesperado – Autorretrato, 1845. Óleo sobre tela, 45 x 55cm. Coleção Particular.


Mesmo apresentando uma verossimilhança com as formas reais, a disposição realça o domínio dos ideais a que se pretende, evidenciando a capacidade de compor por meio dos personagens, enquadramentos e cores. A personagem que cria de si também remete a forma caricata, atribuída às figuras de seus trabalhos posteriores.

Consciente do padrão maior e das formas individuais como qualidades dos objetos representados, buscava a melhor forma de uni-los em um único sentido. Ao retratar cenas da vida popular, Courbet passou a acentuar a rusticidade das figuras em seu modo de desenhá-las, tendo a representação de seu cotidiano como enredo dos processos mais amplos de mudança social.

Em suas telas, as personagens centrais não posavam pacificamente para um retrato, eram vistas de costas pelo espectador, como se a cena ocorresse diante de seus olhos. Este artifício os forçava a interpretar a imagem  reportando-se aos seus próprios conhecimentos, de modo que o proletariado era capaz de entendê-lo tão bem quanto à burguesia, conferindo-lhes uma posição aos quais não eram aceitos, subvertia o papel e o status da arte.

Em A História da Arte, Gombrich (2009, p.511) salienta que Courbet pretendia que seus quadros fossem um protesto contras as convenções de seu tempo, para isso suas imagens precisavam caracterizar a realidade de maneira única. Sem negar a importância dos grandes mestres do passado, buscava enfrentar a realidade e seus problemas com os meios exclusivos de seu tempo. Questionava efetivamente a sociedade em que produzia e a moderna ordem das coisas. 

Haviam poucas convenções para retratar qualquer aspecto da vida moderna e os recursos que usava moldavam-se meticulosamente a sua vivência. O problema que se colocava era enfrentar a realidade libertando a sensação visual de qualquer experiência ou noção adquirida e de qualquer postura previamente ordenada que pudesse prejudicar sua urgência, qualquer regra ou costume técnico que pudesse comprometer sua representação. 

O Ateliê ou Alegoria Real, Histórica, Moral e Física do meu Ateliê (1855), varia entre o realismo e seus pormenores fantasmagóricos, conferindo à obra uma irrealidade às atitudes aparentemente realistas dos personagens. Recusada na Exposição Universal de 1855, motivou Courbet a abrir o Pavilhão do Realismo, com 41 de seus quadros, configurando assim, a primeira exposição individual da história da arte.

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COURBET, Gustave. O Ateliê ou Alegoria Real, Histórica, Moral e Física do meu Ateliê, 1855. Óleo sobre tela, 359 x 598cm. Musée d’Orsay, Paris.


Curiosidades a parte, Courbet, que desde o início defendeu a diferença da sua pintura para a fotografia (técnica em ascensão na época), demonstra em
O Atelier, assim como em O homem desesperado, seu interesse em dispor os personagens a fim de inseri-los como artifício, ilustrando características da realidade em seu entorno, mas de modo que não possam ser tomados como um retrato fiel.

“Uma alegoria real” demonstra a mise en scène  como um elemento fundamental, deixando transparecer seu intenção que afirmava traduzir os costumes, as ideias e os aspectos gerais de sua época, segundo seu critério. Inegavelmente, a proximidade de seu trabalho e sua vida o motivava a suspender essa fronteira em meio às mudanças sociais do período.

Sendo assim, o Realismo que instaura, mostra de fato uma forma de representação fruto de seu tempo, mas longe de ser um espelho passivo da sociedade. Suas pinturas agregam todos os valores potenciais da imagem, cada elemento relaciona-se a características da modernidade, incluindo sua postura e o modo irreverente como conduziu seu trabalho.

 

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. Obter

FRASCINA, F; BLAKE, N. As práticas modernas da arte e da modernidade. In: Modernidade e Modernismo: A pintura francesa no século XIX. São Paulo: Cosac & Naify, 1998. p. 50 – 139.

GOMBRICH, Ernst H.
A história da arte. 16º ed. Rio de Janeiro: LTC, 2009. Obter

SCHAPIRO, Meyer.
Courbet e o Imaginário Popular: Um Ensaio sobre o Realismo e a Arte Ingênua (1941) In: A Arte Moderna: Séculos XIX e XX. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2010. Obter

STREMMEL, Kerstin.
Realismo. Köln: Taschen, 2005. Obter

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