O que é cinema contemporâneo? Essa questão não é fácil de de responder: primeiro pela idade do cinema que é relativamente pequena se comparada com a história da arte, literatura ou música, que não nos permite classificar com exatidão os filmes através de uma divisão cronológica, já que muitos procedimentos distintos ocorreram simultaneamente; e segundo pelo próprio tempo em que vivemos se apresentar de forma conturbada.

Dessa forma, podemos recorrer a Giorgio Agamben e Tsai Ming-Liang para pensarmos uma prática contemporânea no cinema. Em seu livro O que é contemporâneo? e outros ensaios Agamben esclarece que a contemporaneidade pode ser definida como uma posição de distanciamento em relação ao próprio tempo, uma espécie de inadequação com o presente que permite vê-lo de forma mais clara. Para o filósofo, aqueles que estão em plena conformidade com seu tempo não podem, de fato, percebê-lo.

Esta dissociação com o tempo presente pode ser percebida nos filmes de Tsai Ming-Liang, sobretudo em Journey to the West, de 2014. Nesta pequena peça de pouco menos de uma hora presenciamos uma imagem conflitante, onde um monge (interpretado por Kang-sheng Lee – o ator de todos os filmes do cineasta) que se movimenta de forma extremamente lenta contrasta com o espaço ao seu redor.

Em meio à pessoas, imagens e objetos, encontramos Lee sequenciando um pequeno movimento por vez; como um ponto vermelho no horizonte, através de espelhos e janelas ou então contra o fluxo populacional, que por sua vez parece não entender as ações do monge.

Somos convidados, através da longa duração dos planos, enquadramento calculado e mise en scène perspicaz, a investigar uma imagem que se apresenta de forma bruta. O contraste entre os lentos movimentos de Lee e o frenético ritmo da cidade nos permite  perceber o nosso tempo, a nossa contemporaneidade, possibilitando uma leitura mais crítica das imagens que nos rodeiam e de nossas atitudes enquanto seres humanos.

Ao pensarmos em Journey to the West através das colocações de Agamben, veremos a presença de uma dupla contemporaneidade: a primeira reside no olhar do diretor, que demonstra uma postura lúcida em relação ao seu tempo, e a segunda no próprio personagem, que apresenta uma dissociação com o presente (através de suas ações) que nos permite, como espectadores, enxergar o nosso próprio tempo na medida que investigamos os contrastes presentes em cada plano.

Através desta breve relação entre o filme de Tsai Ming-Liang e as ideias propostas por Agamben, podemos especular que nem todos os filmes produzidos recentemente podem provocar esse tipo de percepção, justamente por se adequarem demais ao seu próprio tempo. Poderíamos considerar um filme contemporâneo aquele que leva em consideração não apenas o “tema”, mas também a forma.

Cinema contemporâneo não é apenas aquele que questiona seu próprio tempo, é aquele que leva o espectador a questioná-lo. Essa é uma característica do cinema de Tsai Ming-Liang desde seus primeiros trabalhos até suas produções mais recentes. Certamente um dos cineastas como o olhar mais aguçado de nosso tempo.

Assista o filme na íntegra!

REFERÊNCIAS

AGAMBEN, Giorgio. O que é contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009. Obter

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