Jaíne Muniz participa da Lida_005 com seu trabalho re vivências, uma performance. Confira abaixo  as ideias compartilhadas pela artista.

Seu trabalho re vivências se relaciona com a teoria das 5 peles de Friedensreich Hundertwasser, que pensa o corpo em diferentes níveis. Você relaciona diretamente a quinta pele (a ecológica) com a segunda pele (a vestimenta) para curar sobretudo a primeira (a epiderme). Esse procedimento estabelece uma conexão entre estas cinco peles. Você pode falar um pouco sobre como seu trabalho se relaciona com essas camadas da existência?

Eu acredito que a teoria das cinco peles de Hudertwasser é exatamente a essência do que nós somos, são as peles que andam conosco o tempo inteiro e que não podemos nos desvencilhar. Eu coloco essas três peles em evidência (ecologia, vestimenta e epiderme) porque elas transmitem bem o motivo e o objetivo da minha performance, mas isso não quer dizer que as outras duas foram esquecidas (casa e identidade). Justamente por ser uma performance, todas essas ações se relacionam e criam diálogos com o espaço ao redor. Escolhi um lugar dentro da minha universidade principalmente porque queria estar em um espaço que tivesse uma grande circulação de pessoas, e também por ser quase minha segunda casa. Esse lugar e o meu contato com as pessoas que por ali passam me define e me molda. A minha casa diz como eu sou. E nossa casa maior, que todos dividimos, é a própria Terra. Por isso apenas ela, e as coisas que vem dela serão capazes de me curar.


O trabalho é apresentado através de registros de uma performance e da construção da vestimenta. Você pode falar um pouco de como foi o processo performático e o contexto em que foi realizado?

Essa performance foi criada como projeto final da disciplina de Plástica do meu curso de Artes Visuais com a proposta de land art. Eu já vinha fazendo estudos sobre vestimenta e identidade social quando meu professor me apresentou a teoria das cinco peles. Não demorou muito e eu comecei a idealizar o projeto. Comecei fazendo moldes de partes do meu corpo com tule, recolhi várias folhas de árvores que encontrava pelo campus da universidade e as costurei nos meus moldes. A performance em si me retrata saindo do concreto qual eu piso para adentrar cada vez mais o espaço da natureza e ir de encontro com as folhas que me rodeavam. Ao final da performance eu já me sentia árvore. Os moldes de folhas me imobilizaram e eu já não conseguia ver nada além de verde e alguns raios de sol. Foi uma experiência reanimadora, que tocou lá dentro e expurgou para fora. Acho que todas as pessoas deveriam fazer sua própria roupa de folhas.


O processo de trabalho envolve a modelagem da vestimenta (construção da segunda pele) a partir de fragmentos da na natureza (da quinta pele). Você atualmente cursa artes visuais, mas tem uma formação em modelagem em vestuários. Quais as possíveis conexões entre sua prática artística e as técnicas e conceitos de modelagem?

Eu não sou uma pessoa que gosta de técnica e de padronagens. Acredito que linhas retas e planificações dos nossos corpos são bizarros e que apenas limitam nossa liberdade de expressão. Entrei no curso de modelagem simplesmente porque eu gostava de roupas, terminei o curso e hoje eu não me importo com uma tabela de medidas ou um passo a passo a risca do que fazer. Isso se traduz na maioria das coisas que eu faço. Depois que descobri que arte é o único caminho para mim eu tento incorporar tudo que eu aprendo aleatoriamente em minhas práticas artísticas. Eu vejo e faço arte de uma forma mais intuitiva e de sentidos. Desse modo eu me aproveito dos meus conhecimentos em modelagem para poder observar camadas, essas que colocamos no nosso corpo diariamente, as camadas da cidade e das pessoas que nos rodeiam.


A apresentação de re vivências é feita em formato de publicação digital com fotografias e design de Hugo Bello. Por que você escolheu esse formatode exposição? Quais potencialidades você enxerga nas publicações digitais?

Como a performance fazia parte de um projeto final, eu tive que apresentá-lo ao meu professor. O Hugo se dispôs a me ajudar e ele que criou esse formato para que eu fizesse minha apresentação. Continuei usando esse formato porque acredito que seja uma boa ferramenta para a apresentação deste trabalho e para enviá-lo a outras pessoas.

Acredito que as publicações digitais, como a Lida, têm um papel muito importante para a visibilidade e a propagação das produções artísticas porque elas viajam através de compartilhamentos e visualizações para milhares pessoas. Assim como nós artistas ganhamos com nosso trabalho sendo divulgado, as pessoas que acessam esses catálogos também ganham com a exposição de diversas linguagens artísticas diferentes.

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Para acessar o trabalho re vivências basta assinar a Lida gratuitamente e receber em seu e-mail.

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