Douglas Souza participa da Lida_005 com Afundo, trabalho que mescla poesia, performance e vídeo. Confira abaixo algumas questões que permeiam o trabalho.

Poderíamos falar do desejo de uma volta a um estado anterior de existência enquanto  sujeito – extremamente próxima do real – em Afundo?

É sempre muito complicado explicar um poema porque ele é uma espécie de não-coisa, uma  espécie de mundo que se desdobra dentro e fora de si mesmo, porem dentro de algumas  leituras que podemos fazer desse poema, creio que ele surge de uma percepção a respeito da  superficialidade que vivemos, da necessidade de imersão naquilo que alimenta nossas  paixões e também do resgate (e porque não dizer contato) dos elementos fundamentais da nossa existência.

A velocidade da informação, a capitalização de tudo que nos cerca e algumas  outras agressões do cotidiano tem transformado nossas relações com o mundo, com as  pessoas, com a natureza e essa reflexão me parece vital e urgente, para assim -talvez-  entendermos sua importância, principalmente em relação a natureza, e a partir daí, agirmos.

Pra se ter uma ideia, o local onde foi filmado o poema Afundo no inverno de 2018 fica em  Ilhabela – SP, a cidade onde moro há alguns anos, hoje, janeiro de 2019, essa praia está  interditada por causa da poluição, então agora não seria possível fazer esse videopoema lá.  Portanto acredito que há uma certa urgência nesse resgate.


Afundo é um trabalho que relaciona várias linguagens distintas. Como poesia, performance, som e imagem se envolvem em seu processo criativo?

Percebo que há uma interação cada vez maior das linguagens na produção de arte, essa
interação sempre existiu, mas com o acesso as novas tecnologias isso vai ficando cada vez  mais evidente. Acho que no meu caso foi importante alguns contatos que tive com exposições de arte como por exemplo o FILE – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica – que pude  ir desde o começo e descobrir artistas e modos de expressão que eu não conhecia. O poeta  como antena da raça está sempre (ou deve estar) ligado no que está acontecendo e achar as  brechas para dizer o que precisa ser dito. A poesia concreta, que como o próprio Leminski dizia  “é uma espécie de alistamento militar dos poetas, todo poeta no brasil passa por ela” fez isso  com grandeza, a parceria entre Julio Plaza e Augusto de Campos nos Poemobiles, ou os poemas gifs são bons exemplos. Décio Pignatari no livro Comunicação Poética define bem quando diz que o poema é um ser de linguagem. O poeta faz linguagem fazendo poema, está  sempre criando e re-criando a linguagem, que é seu mundo. Minha curiosidade aliada a um  certo autodidatismo e inquietação me levam a procurar maneiras de expressar meu  “sentimento de mundo”, a partir daí produzo colagens digitais que relacionam problemas ambientais, videopoemas, poesia visual, faço trabalhos artesanais e de artes plásticas, mas sempre a poesia como eixo central, como disse Waly Salomão: a poesia é o axial. Inclusive usei essa frase como epigrafe de uma plaquete chamada Cisco Chave que lancei em 2015.

Como você acha que as novas tecnologias de comunicação impactam na produção de poesia contemporânea?

Eu acho que o grande barato do poeta é a vida, é se arriscar nela, é ir fundo e ter curiosidade pra sacar o que está acontecendo e acredito que a poesia surge a partir disso, de uma inquietude associada a paixão pela linguagem. Tem um lance de ação na poesia, poiesis  mesmo e qualquer tecnologia disponível vai ser uma ferramenta útil na mão de quem estiver  antenado. Como fizeram os poetas da geração mimeografo nos anos 70 ou o pessoal que espalha poesia lambe-lambe pelas ruas. As novas tecnologias de comunicação ajudam na produção, divulgação, horizontalidade dos trabalhos, são ferramentas que proporcionam vários modos de criação e acho fundamental usa-las para as manifestações. Em tempos de ascensão do fascismo, perseguição das minorias, ataques aos direitos da população, o risco de extermínio de espécies animais e vegetais e a degradação do meio ambiente é necessário ocupar todos esses espaços. A poesia é uma arma.

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Um comentário em “Entrevista | Douglas Souza

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