João Zoccoli fala sobre o processo criativo de seu ensaio fotográfico O fazer sagrado Fulni-ô, apresentado na sexta edição da lida. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

1 – Como surgiu a ideia e a oportunidade de fazer um ensaio fotográfico com os Fulni-ô?

Bom, eu e minha família temos contato com os Fulni-ô há 18 anos e se construiu além do trabalho uma relação de família. Meu pai que foi professor sempre esteve ligado com essas questões sociais e em função disso acabamos conhecendo esse grupo na FEIARTE no ano de 2000, que era uma feira de artesanatos mundial que acontecia no Parque Barigui. A oportunidade surgiu quando eu aproveitei a vinda deles no mês de abril com o projeto que criamos de levar a cultura nas escolas e espaços culturais públicos e privados da cidade de Curitiba para a produção desse ensaio.

2 – Adentrar a um contexto cultural para realizar representações é uma responsabilidade e tanto. Você poderia contar um pouco sobre o processo de construção das fotografias e quais os cuidados tomados para, digamos assim, fazer um trabalho digno daquela comunidade?

Primeiro de tudo é chegar com respeito e sutileza depois de construir uma certa confiança, que isso vem com muito tempo de convivência ai se colocar num grau de humildade e pedir pra no caso fotografar ou produzir alguma ideia. Interessante também é saber que o tempo da nossa humanidade “branca” e muito diferente do tempo dos “indígenas” e temos que saber respeitar isso. Um acontecimento  que acho importante também é que um dia eu estava com meu pai na aldeia e era criança e eu era muito questionador, ai meu pai dizia índio não pergunta índio observa e isso sempre me acompanha até os dias de hoje quando chego em algum meio social diferente.

Ver também quais são as necessidades daquele meio social também e muito válido para se criar e se trabalhar com algo que aquela comunidade aceite e abrace como prática.

Bem o processo de construção das fotografias é bem livre e intuitivo, você tem que estar esperto para captar as sutilezas do cotidiano.

3 – Suas fotos retratam sobretudo objetos e mãos que trabalham, deixando de lado a feição das pessoas em questão. Você poderia falar um pouco sobre essa escolha e a relação com a composição das imagens?

Eu estava pensando como iria de um modo geral transmitir todo o cuidado, esmero e capricho que os povos indígenas tem com a produção de seus artefatos culturais que erroneamente muitos ainda chamam de artesanato. E ai comecei a clicar e construir dessa forma o ensaio pensando também no carácter de ritmo, musicalidade e equilíbrio de contrastes e na cor preto e branco mostrando a força da etnia.

4 – Qual a influência do trabalho sagrado Fulni-ô no seu trabalho? O que mudou em sua prática após essa experiência de campo?

Esse foi o primeiro ensaio oficial na fotografia, até entrou no evento CLIF de fotografia, através de uma convocatória nacional foi exposto na CINEMATECA  de Curitiba e na AIREZ galeria de artistas independentes. Acho q na minha prática o que mudou foi a questão de trabalhar mais livre e solto sem ficar muito preso as regras  e aquele método tradicional de organização de trabalho ou projeto.

5 – Como você vê a condição das culturas indígenas atualmente no Brasil e qual o papel da arte na manutenção e valorização dessas culturas?

 Hoje não somente hoje, a questão de qualquer sociedade marginalizada pela sociedade e por quem está no poder é uma situação de descaso e falta de conhecimento ainda se tem muito preconceito em relação aos indígenas, quilombolas, negros e LGBT’s. Não podemos negar que a nossa situação se tratando dos indígenas está crítica, é um momento delicado que como seres humanos não podemos deixar que haja qualquer retrocesso em termos culturais, ambientais, e de direitos que conquistamos com muito suor e sangue.

O papel da arte e dos artistas hoje acredito que seja mostrar, esclarecer e descobrir o que não está sendo visto pela população que ainda de certa forma é menos esclarecida em termos de informações reais e verdadeiras a respeito dos direitos humanos que temos e do que está acontecendo fora dos nossos olhos. Além de também sermos mais parceiros e trabalharmos juntos a essas comunidades se fortalecendo e trocando conhecimento.

6 – Você tem uma formação em design. Qual a influência do design na sua prática como artista visual?

Em termos de pensar sempre a cada obra realizada o equilíbrio, uma boa escolha de cores, uma boa composição  e uma mensagem clara.

7 – Você trabalha com fotografia e gravura. Poderia falar um pouco sobre a relação entre as duas técnicas no seu trabalho?

Acho que a gravura tem muito daquele lance do meu 1 ensaio fotográfico. O fazer a mão, do cuidado a cada impressão e cópia, da relação do outro tempo, do tempo do indígena. Acredito que a fotografia é mais uma linguagem e ferramenta onde vou poder explorar a temática do meu trabalho nas artes nessa mesma linha de sentir o outro tempo.

***

Quer conhecer este e outros trabalhos? Faça uma assinatura gratuita da lida e receba todas as edições diretamente em seu e-mail.

Deixe uma resposta