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Caio Brandão é poeta e participa da quinta edição da lida com A-MAR, leia a seguir a entrevista em que comenta sobre seu processo de escrita e motivações.

Você poderia falar um pouco sobre sua trajetória enquanto poeta independente?

Tudo se inicia com trocas de cartas entre um neto interessado por seu avô artista. Um sujeito sofrido com várias fabulações oriundas de uma língua mãe doce e romântica pela vida. O avô que logo não resistiu e caiu em desejos e admirações pelo seu então futuro aprendiz de escritor e neto…costumava dizer “Leiam sempre, sempre ou sempre!!!” nos sumários de livros que destinava. Quando faleceu em 2009, eu tinha meus 16 anos. Embora já trocava cartas e mostrava um pouco do meu anseio intrínseco de pertencer na família como ovelha estranha, quando se foi senti uma enorme responsabilidade como que um chamado a continuar seu legado de “escrevinhador de fim de semana”. Gosto demais de esquecer de mim mesmo, e escrever me alivia nisso. O avô? Um homem simples, curioso e sensível. Meu avô foi pai de minhas palavras, um grande mestre que quase não tive contato na vida, mas que viveu muito e vive ainda em minha imaginação. Escrevia para ele, depois escrevi para mim, e hoje simplesmente escrevo, apenas. Não devo questionar o fruto, apenas morder e partilhar. Essa é a minha missão: Repassar de maneira limpa para fins de sossego em dignidade pelo cumprimento do ofício confiado.

Como é o processo de construção de suas poesias? Exige muito tempo de cálculo e planejamento, ou é algo espontâneo?

Poesia não é ciência exata, embora hajam tantas tentativas frágeis de sistematizar a subjetividade humana. Creio (Fé, logo suponho) que o processo aqui é bem intuitivo. Não sei bem como ele funciona…Apenas tento ser o menos vaidoso possível e não me perder em mim mesmo. Gosto de inventar melodias, sonhar, transar, respirar, morrer, nas palavras. Isso desde pequeno, vai entender. Meu jeito de esquecer do mundo.

Podemos identificar um crescimento no número de poetas que utilizam a internet como meio de apresentação de seu trabalho, seja através da performance ou pela publicação de textos em diferentes plataformas. Como você entende o status da poesia atualmente?

Atualmente a poesia assim como qualquer outra manifestação humana está inserida no contexto da suposta “era da comunicação ampliada”, portanto isto aparentemente é um ganho no que diz a disseminação como especie de contágio abrangente. Mas, sinceramente, sinto que a palavra vive um momento de banalidade. Para tanto, eu prefiro até assistir filmes mudos. Entretanto, a vitrine é vasta não adianta mas o público não tem se mostrado participativo. Veja, brasileiro é um bicho que não gosta de ler, pensar, exercitar o ato político. Isso é um desmame anormal e burro. Vivemos na sombra de outros/outras e não valorizamos os artistas como representantes de uma revelação (revelar; pôr luz sobre algo) da identidade e do pertencimento. O escritor assim como qualquer artista é marginal, discriminado, não respeitado, mal pago, e ainda sofre de uma especie de capa de invisibilidade. Enquanto não somos vistos, não somos lembrados, mas somos vistos de maneira trágica pelos então “difusores” da cultura. Compreendeu? Meu ponto é: O artista está inserido em um contexto defasado – brasileiro. Escrever, assim como qualquer arte, é a expressão humana que visa a experimentação de um ponto de vista, uma percepção, que nem todos estão afim de exercitar. Assim existe o artista brasileiro, resiste, melhor dizendo. Ele depende de uma cadeia corrupta que em vez de difundir igualitariamente, apenas segmenta e edifica muros altos, conduz de forma a supervalorizar alguns, desvalorizando os demais. O escritor, por exemplo, depende de seres detentores de status social e político para ter sua obra como que posta em evidência, mas então você me diz, e a internet? Não é uma ferramenta democrática? Talvez, mas se eu criar um blog sem patrocínio vai me gerar renda? Vou conseguir pagar a conta de luz? não. Existe alguma política em minha região que incentive a produção literária? Qual a representatividade da literatura em meu entorno? Isso são perguntas básicas que todo artista deve fazer…para começar a agir com racionalidade! E perceber, claro, que isto é um hobby. Agora se der pra viver financeiramente com esse hobby, então isto é um milagre, falando de Brasil. A literatura vive em uma estrutura frágil portanto, e eu me pergunto sempre e estudo meios de compreender caminhos para a seguinte questão: Como atinjo não somente a parcela que aprecia simplesmente por prazer e conhecimento, o que é raro, e sim a plateia doravante e desapercebida que tanto anseio tocar?

Veja, o que eu quero é oferecer um caminho, e estou estudando o melhor jeito de isso acontecer de maneira universal. Não quero ganhar dinheiro com meus livros, quero fazer com que isso seja de domínio público, no mínimo. Se puder ganhar dinheiro, melhor pra mim não acha? Ou dá pra se viver nesse mundo sem dinheiro? Bom, eu não anseio coisas materiais, sou um homem simples e não tenho coragem de adotar a política do facão para conseguir as coisas…Mas como, como é que eu ser anônimo vou competir com um produto importado, posto como relevante, e acomodado/amparado financeiramente sabe Deus por quem? O problema é a competição desigual, e a competição por si só. Não tenho que competir com ninguém, muito menos com o(a) cara/ do tom de cinza, mas estar tão somente ao lado de maneira justa. Status? O status é aquilo que se adquiri quando evidenciado relevante. Quem evidencia tem poder, é visto como uma referência na sua escolha, e então o produto está qualificado. Mas bicho, me pergunto, literatura é pra vender ou pra morrer? Não tenho um puto pra imprimir meu livro. Chego na secretaria de Cultura, dedico a obra para o secretário da cultura, e faço um adendo: Me ajuda a publicar. Mas posso colocar de graça no facebook? posso e faço, parcialmente. Isto porque sou romântico e acho muito mais bonito a capa de um livro, o próprio livro, e a espécie leitor que lê o que se existe. Então, o livro está lá…Agora é torcer…

Você acredita que as novas mídias podem fazer com que exista um interesse mais amplo do público com a poesia?

Acredito que o poder de abrangência é facultativo, pois ainda que escravos das redes sociais, dependemos de veículos que empurrem o nosso trabalho, pois o que pretendo como poeta é atingir o maior número de pessoas, ou seja, colocar em evidência o que escrevo para despertar esse interesse de maneira mais contundente tanto no ato do apreço como do fazimento. O público que gostaria que tivesse acesso ao que escrevo é o mundo inteiro mesmo. Mas, isto pode ser feito em uma plataforma virtual ou terráquea. O marketing e os grandes veículos de comunicação, bem como o poder público são o oráculo principal, e o visto vetor capaz de evidenciar esta ou aquela obra para que se conquiste novos leitores ou não leitores. Com o produto em evidência (seja através da publicação e distribuição amparada por uma editora, ou mesmo tidos os honorários “selos de qualidade”), que, atribuem aquele ou este status, as prateleiras mais democráticas com as obras de autores até então anônimos, e o farol direcionado afim de difusão meramente do ato e não o vago pensamento comercial das vendas das obras, penso que desse modo talvez elas vão se encaixando na possibilidade de expansão. Mas para isto acontecer é preciso APOIO. Como o escritor apenas escreve, e não detêm de grandiosas ferramentas de impressão, muito menos espaços que difundam sua existência, dependemos de uma cadeia que funcione em generosa atenção e espírito de coletividade. E a internet? Isto é outro fator estranho, pois é ta aí né. Não consegui passar do meu círculo de amigos até agora, e do meu círculo de amigos que eu conheço 10% eu acho, enfim, não saiu daqui para o japonês, sacou? Os editores, as distribuidoras, o poder público, os festivais, a mídia, e tudo aquilo que puder alavancar e evidenciar o consumo consciente/crítico, ou a confecção de uma  LINGUAGEM LITERÁRIA regional, possui sua esfera de contribuição na cadeia de abrangência e expansão humana.

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