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Entrevista Guilherme Bergamini

Guilherme Bergamini participa da lida_006 com seu trabalho Contrações.  O artista nos conta um pouco sobre seu processo criativo e algumas questões que permeiam seu trabalho. Confira a entrevista:

1- Como surgiu a ideia de Contrações? Você pode contar um pouco sobre o processo criativo da proposta?

Contrações surgiu em um momento particular de intensa emoção, a proximidade do nascimento de minha filha Malu. Em um período de expectativas e ansiedades comecei a organizar parte de meus arquivos e surgiu a ideia de construir um diálogo entre minha filha e eu. O formato de postais teve como objetivo oficializar sua identidade, pois antes mesmo de nascer, cartões postais foram enviados via correios em seu nome para o endereço de sua avó paterna. Malu nasceu em 29 de junho de 2015 e desde o dia 19 de junho ela já recebia seus postais com o carimbo oficial dos correios informando dia, mês e ano. Utilizei para fazer os postais recortes e colagens de fotografias de fachadas em Havana Velha, produzidas no ano de 2011 em Cuba, e fotografias de estradas que tirei em diversas cidades do Brasil nos últimos 10 anos.

2- Sua pesquisa artística envolve o trabalho com imagem em diferentes níveis, seja utilizando da fotografia direta ou da apropriação e recombinação de imagens. Como você vê a utilização das imagens pela arte em nosso contexto hipermidiático atual?

Acredito que produzir fotografias é externar, organizar e estruturar conceitos e ideais de forma a criarmos sentidos, que nos permitam refletir e agir direta ou indiretamente. Toda imagem é uma ação a partir de um suporte específico. A contemporaneidade cria um novo contexto de produção, divulgação e distribuição dessas imagens, em particular a fotografia. As redes sociais são os grandes mediadores dessa infindável produção imagética. Para cada publicação, um sentido que pode ser de cunho emocional e particular torna-se público nas redes. Ao mesmo tempo que milhões de fotografias são publicadas, sua “vida útil” torna-se imediata, “perecível” até que uma nova fotografia a substitua, o que às vezes acontece em questão de segundos. Nessa intensa produção e divulgação de imagens, em certo ponto cria-se um ruído de forma a “consumirmos” imagens de maneira pouco ou não reflexiva.

3- Seu trabalho Contrações vai além da fotografia e se apresenta como uma proposição artística. Qual seu interesse em propostas que ocorram ao longo do tempo?

Minha linha de trabalho está relacionada à construção de narrativas visuais, séries fotográficas onde uma temática é formulada e conceitualizada, possibilitando uma potência visual expressiva. Acredito que o tempo, nesse processo, permite pesquisa, erros e acertos, nos possibilita amadurecer e realizar um bom trabalho, que necessita passar por um processo de maturação. Consequentemente favorece a construção de uma narrativa consistente.

4- Qual sua expectativa para a conclusão da proposta? Você tem alguma ideia para quando esse dia chegar?

Os cartões postais foram concluídos no dia 10 de julho de 2015 quando postei o último da série. A intenção é torná-lo público, divulgá-lo a partir de oportunidade como essa na edição 6 da revista Mandrana. Ano passado a série foi exposta no Festival Obscura na Malásia. Quando Malu for alfabetizada, irei entregá-los dentro de uma caixa contendo jornais e revistas nacionais publicadas no dia 29 de junho de 2015, dia de seu nascimento em nossa casa às 8:35 da manhã. A força do trabalho é sintetizar um momento ímpar, a cena mais maravilhosa que pude presenciar em minha vida, que fora seu nascimento.

5- Sua pesquisa se relaciona com a política (relações de poder) de inúmeras formas. Você diria que essa é uma questão importante para você? Como?

A arte é uma ação política. Fazer arte é fazer política. Vejo a fotografia como suporte, força e expressão política. Meu trabalho é crítico mesmo quando realizo projetos mais ligados a questões emocionais e privadas, como o Contrações. Me deparo sempre com um denominador comum, que é essa força política expressiva.

6- Fale um pouco sobre suas influências artísticas em seu processo de trabalho.

Falar de influências artísticas é bem complexo pois posso enumerar diversos artistas ou movimentos que admiro e chegarei a muitos caracteres.

Pesquiso sobre a produção contemporânea, mas ainda não opino qual autor ou autora me agrada mais, pois são tantas possibilidades e representantes que em cada período me vejo direcionando para uma linha de trabalho que sofrera ou não influência de determinado(a) artista.

Tenho uma certa compulsão por livros e revistas e me vejo em um período lendo sobre a fotografia oitocentista e no outro analisando revistas estrangeiras, nacionais, sites contemporâneos etc.

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Entrevista Victor Honda

Victor Honda, artista que participa da lida_006 com o trabalho 47 minutos sobre a grama fala um pouco sobre seu processo criativo. Confira abaixo a entrevista:

1. Sua pesquisa parece fazer um percurso que vai da construção de imagens ao uso do corpo no espaço em proposições artísticas. Você pode comentar essa transição? O que levou a explorar essas possibilidades da performance?

Acredito que isso tenha acontecido de maneira muito natural. Estamos sempre criando imagens e expectativas sobre a realização de um trabalho e mesmo nos trabalhos onde a performance se apresenta como “produto final a ser entregue” a construção de imagens ocorre de outras formas, nos esboços e nos primeiros passos da construção até a forma com que os elementos escolhidos e o próprio corpo irão compor a situação e o ambiente, muitas vezes de forma totalmente imagética.

A utilização do corpo nas proposições não estanca a construção de imagens, mas a modifica, passamos a ter que trabalhar com a experiência da ação e do tempo de forma mais direta passando a ter que lidar com essas possibilidades, limitações e potências de maneira muito diferente.

2. Seus trabalho 47 minutos sobre grama utiliza do corpo e do espaço para se constituir. Você pode comentar sobre a importância desses elementos em sua pesquisa artística?

É muito difícil pensar na atuação de um corpo sem visualizar o espaço no qual isso ocorre, é sempre uma conversa entre as possibilidades que cada um apresenta, um local específico onde esses diálogos ocorrem nos mostra não apenas onde, mas com que elementos matéricos e espaciais estamos lidando. Os ambientes e os corpos podem convidar ou repelir nossa presentificação e atuação nos espaços, valorizando ou negligenciando o momento em que se dá essa comunicação. Cada corpo e cada espaço carrega consigo inúmeras informações e nos apresentam diversos símbolos, eles podem não ser as questões principais nos trabalhos, mas são elementos que não podem ser ignorados durante o fazer artístico.

3. 47 minutos sobre grama é um trabalho que ocorre no tempo, e embora possamos falar das questões que a proposta envolve, é na experiência que a coisa acontece. O mesmo vale para seu trabalho Os campos estão brancos para colheita. Qual a importância do tempo nessa proposta?

É possível observar o tempo como um dos principais elementos que permeiam a obra, seja no título “47 minutos sobre grama”, que faz referência ao tempo médio gasto diariamente com a proposta, seja no desenvolvimento das plantas ou nos próprios registros que contêm datas, horários, e a própria passagem do tempo muitas vezes sendo descrita.

De certa forma o que eu queria observar nesta proposição (47 minutos sobre grama) era como todos os outros elementos (corpo, mente, energia, o repouso, a repetição, o local, as plantas…) se manifestavam e interagiam, e para isso uma performance diária e de maior duração juntamente com os registros escritos e fotográficos foram mais que necessários para a experiência como um todo, e para a análise e reflexão posterior.

Não consigo ver isso sendo feito de outra forma, acredito que , poucas respostas aparecem de maneira rápida e prefiro não confiar muito nelas, apesar de sempre carregá-las e observar suas transformações e derivações, são em ações prolongadas que se garante o tempo para que o corpo se estabeleça com o ambiente para então se manter disposto as afetividades e para que seja melhor valorizado o momento em que essas conexões acontecem.

4. Em 47 minutos sobre grama, o que percebemos é a proposição de uma experiência corporal através do contato com elementos naturais. Ao seu ver, qual a importância deste contato em nossa sensibilidade?

A busca pela interação com elementos naturais foi a princípio em relação ao movimento da vida e de que forma ela se apresentava diante da situação proposta, de como esse movimento na experiência me afetava no cotidiano, e de como o movimento do cotidiano afetava minha experiência enquanto estivesse deitado na grama ou cuidando das plantas em volta.

No entanto trabalhar com a natureza requer uma escuta muito maior, as plantas em geral demonstram esse movimento de maneira muito sutil com mudanças que requerem uma atenção redobrada, e que não envolve a percepção através apenas do olhar, é preciso sentir a natureza de outras formas, e por isso o deitar na grama, que envolve o contato direto com ela, com a terra, com a água e a umidade que se acumula. A natureza se expressa de diferentes maneiras mas é preciso aprender a escutá-la, ela nos força a trabalhar nossa sensibilidade de modo muito simples e genuíno.

5. A energia vital parece ser uma preocupação em seus trabalhos, sobretudo em Os campos estão brancos para colheita e 47 minutos sobre grama. Você poderia comentar um pouco sobre essa questão e a relação dela com sua proposições/performances/instalações?

Cada um entende isso de uma maneira bem diferente e utiliza diferentes nomes mas talvez seja algo que se entenda através da prática e da repetição. Diria que essa preocupação não seria por uma energia exclusivamente vital, mas sobre uma energia que de modo mais amplo abriga toda e qualquer coisa seja ela material ou imaterial, e sobre os fluxos de informação que essas energias nos apresentam, e como ela afeta a forma de como habitamos e interagimos com o mundo, no entanto acredito que é através da vida que isso se manifeste de maneira mais clara para a nossa percepção, mas é algo que pode ser explorado de diferentes formas nos mais diversos elementos e situações.

7. Você pode comentar um pouco sobre suas influências Artísticas?

Não sei ao certo até que ponto os nomes que citarei aqui são grandes influências artísticas ou se apenas aprecio suas criações, mas gosto bastante das instalações e projetos do Mark Dion, Elmgreen & Dragset, Hector Zamora e Willian Forsythe, as performances, happenings e proposições do grupo Gutai, Francis Alys, Andrea Fraser, Allan Kaprow, Berna Reale, Grupo EmpreZa. Gosto também além das obras, da forma com que alguns artistas como: Joseph Beuys, Abramovic, Lygia Clark e Yoko Ono observam (ou observavam) a arte e o mundo.

8. Como funciona seu processo de trabalho?

Na maioria das vezes identifico muito bem os objetos de trabalhos com os quais pretendo lidar, observando a que resultados eles podem me levar a partir de alguns testes, mas não a ponto de esgotá-los de alguma forma,mesmo sempre pensando onde quero chegar não penso em reduzir imprevistos mas procuro saber como lidar com eles. Durante os processos os próprios materiais, os lugares e os outros elementos dizem muito sobre eles mesmos, e podem mudar completamente o resultado final almejado, sendo sempre um diálogo entre essas expectativas visualizadas e as possibilidades do momento.

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Entrevista João Zoccoli

João Zoccoli fala sobre o processo criativo de seu ensaio fotográfico O fazer sagrado Fulni-ô, apresentado na sexta edição da lida. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

1 – Como surgiu a ideia e a oportunidade de fazer um ensaio fotográfico com os Fulni-ô?

Bom, eu e minha família temos contato com os Fulni-ô há 18 anos e se construiu além do trabalho uma relação de família. Meu pai que foi professor sempre esteve ligado com essas questões sociais e em função disso acabamos conhecendo esse grupo na FEIARTE no ano de 2000, que era uma feira de artesanatos mundial que acontecia no Parque Barigui. A oportunidade surgiu quando eu aproveitei a vinda deles no mês de abril com o projeto que criamos de levar a cultura nas escolas e espaços culturais públicos e privados da cidade de Curitiba para a produção desse ensaio.

2 – Adentrar a um contexto cultural para realizar representações é uma responsabilidade e tanto. Você poderia contar um pouco sobre o processo de construção das fotografias e quais os cuidados tomados para, digamos assim, fazer um trabalho digno daquela comunidade?

Primeiro de tudo é chegar com respeito e sutileza depois de construir uma certa confiança, que isso vem com muito tempo de convivência ai se colocar num grau de humildade e pedir pra no caso fotografar ou produzir alguma ideia. Interessante também é saber que o tempo da nossa humanidade “branca” e muito diferente do tempo dos “indígenas” e temos que saber respeitar isso. Um acontecimento  que acho importante também é que um dia eu estava com meu pai na aldeia e era criança e eu era muito questionador, ai meu pai dizia índio não pergunta índio observa e isso sempre me acompanha até os dias de hoje quando chego em algum meio social diferente.

Ver também quais são as necessidades daquele meio social também e muito válido para se criar e se trabalhar com algo que aquela comunidade aceite e abrace como prática.

Bem o processo de construção das fotografias é bem livre e intuitivo, você tem que estar esperto para captar as sutilezas do cotidiano.

3 – Suas fotos retratam sobretudo objetos e mãos que trabalham, deixando de lado a feição das pessoas em questão. Você poderia falar um pouco sobre essa escolha e a relação com a composição das imagens?

Eu estava pensando como iria de um modo geral transmitir todo o cuidado, esmero e capricho que os povos indígenas tem com a produção de seus artefatos culturais que erroneamente muitos ainda chamam de artesanato. E ai comecei a clicar e construir dessa forma o ensaio pensando também no carácter de ritmo, musicalidade e equilíbrio de contrastes e na cor preto e branco mostrando a força da etnia.

4 – Qual a influência do trabalho sagrado Fulni-ô no seu trabalho? O que mudou em sua prática após essa experiência de campo?

Esse foi o primeiro ensaio oficial na fotografia, até entrou no evento CLIF de fotografia, através de uma convocatória nacional foi exposto na CINEMATECA  de Curitiba e na AIREZ galeria de artistas independentes. Acho q na minha prática o que mudou foi a questão de trabalhar mais livre e solto sem ficar muito preso as regras  e aquele método tradicional de organização de trabalho ou projeto.

5 – Como você vê a condição das culturas indígenas atualmente no Brasil e qual o papel da arte na manutenção e valorização dessas culturas?

 Hoje não somente hoje, a questão de qualquer sociedade marginalizada pela sociedade e por quem está no poder é uma situação de descaso e falta de conhecimento ainda se tem muito preconceito em relação aos indígenas, quilombolas, negros e LGBT’s. Não podemos negar que a nossa situação se tratando dos indígenas está crítica, é um momento delicado que como seres humanos não podemos deixar que haja qualquer retrocesso em termos culturais, ambientais, e de direitos que conquistamos com muito suor e sangue.

O papel da arte e dos artistas hoje acredito que seja mostrar, esclarecer e descobrir o que não está sendo visto pela população que ainda de certa forma é menos esclarecida em termos de informações reais e verdadeiras a respeito dos direitos humanos que temos e do que está acontecendo fora dos nossos olhos. Além de também sermos mais parceiros e trabalharmos juntos a essas comunidades se fortalecendo e trocando conhecimento.

6 – Você tem uma formação em design. Qual a influência do design na sua prática como artista visual?

Em termos de pensar sempre a cada obra realizada o equilíbrio, uma boa escolha de cores, uma boa composição  e uma mensagem clara.

7 – Você trabalha com fotografia e gravura. Poderia falar um pouco sobre a relação entre as duas técnicas no seu trabalho?

Acho que a gravura tem muito daquele lance do meu 1 ensaio fotográfico. O fazer a mão, do cuidado a cada impressão e cópia, da relação do outro tempo, do tempo do indígena. Acredito que a fotografia é mais uma linguagem e ferramenta onde vou poder explorar a temática do meu trabalho nas artes nessa mesma linha de sentir o outro tempo.

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Entrevista João Pereira

João Pereira fala sobre seu trabalho “Banco na Quelha”, um ensaio fotográfico com a participação do artista Jajá Rolim que faz parte da sexta edição da Lida. Confira a entrevista abaixo:

1 – O corpo e o espaço periférico são elementos integrantes de Banco na Quelha. Qual a importância desses elementos para a construção do trabalho?

 Ao ver os registros, esses são elementos que nos dão o retorno para a realidade. O visual estético que nos trás lados por muitas vezes não vistos e ignorados; esses que, no trabalho, se sobrepõe de uma forma performática que atravessa o sentido do olhar e percebe-se que se trata de algo além, o pertencer, em sua localidade como espaço e em sociedade quanto ao corpo, se auto revelando como arte e resistência.  

2 – O banco é um elemento que representa uma parte da cultura da periferia, utilizado para o bate papo da vizinhança, hábito comum em um ambiente com opções restritas de lazer (pelo menos de onde venho). Como surgiu a ideia da utilização desse elemento no ensaio?

O banco, banquinho, não veio de uma ideia específica e sim de uma mera utilização de adereços para os registros; digo que, o banco veio depois para a construção do trabalho de uma forma inusitada, em primeira ocasião como apoio ou até mesmo assento para o artista Jajá Rolim, onde ele se apropriando do objeto momentos depois nos revelou formas e ângulos novos, pensamentos e reflexões sobre sua performance. O banco no entanto agregou ao trabalho como fator de ocupação, de um lugar de fala, de estar presente.

3 – A frente das casas são lugares habitados constantemente nas periferias. A utilização desse espaço nos ensaios tem uma relação com essa rotina dos moradores? É possível fazer essa relação no trabalho?  

Essa relação vem a partir de quando pensamos que a frente da casa, ao olhar de dentro para fora, que ali existe movimento, algo para se ver. A ocupação desses espaços, seja a calçada ou a rua pelos moradores/transeuntes na periferia é mais constante, é algo que atrai olhares. No trabalho isso vem como a busca para esses olhares estranhos, olhares por muitas vezes conservadores,  que ao ver um corpo gay “bicha” pobre afeminado não-binário se sintam intrigados e que consigam perceber que ali é um espaço para todos, a rua como lugar de pluralidade.

4 – O trabalho nasce de uma conexão entre fotógrafo e performer. Fale um pouco sobre o processo de criação.

O processo veio de forma experimental, na minha perspectiva, pois a minha relação com a fotografia era muito nova e tinha desenvolvido apenas um outro trabalho (acadêmico) que não envolvia performance. Como amigos, morando juntos em um lugar totalmente novo para os dois, em Recife-PE, a busca em me desenvolver artisticamente me levou a conversas profundas com Jajá, despertando ideias novas com as quais nunca tinha trabalhado. Em uma tarde, estávamos em casa com outro amigo fotógrafo, Brunno Kawagoe, onde surgiu a ideia de um ensaio; descemos para a rua e começamos os registros e a refletir sobre o que estava acontecendo, dali veio olhares. Jajá em sua grande sabedoria corporal e intelectual me deu possibilidades de enxergar o corpo como eu nunca tinha visto ou apreciado pelas minhas lentes, me deu a oportunidade de fotografá-lo e de trazer/levar esse momento através dos meus trabalhos; ali me revelei artista com ajuda de grandes amigos.

5 – Banco na quelha é um trabalho que demonstra uma condição interessante da relação entre arte e periferia: um momento onde a representação da marginalidade pode ser feita por seus próprios integrantes, ou seja, não é mais necessário que terceiros se desloquem de uma posição central para as periferias para então gerar visibilidade. Ao meu ver isso é importante pelo fato que de a periferia pode então se representar de maneira legítima. Como você enxerga esse processo que foi facilitado pelas tecnologias de comunicação? É importante esse deslocamento?

Acredito que a periferia é um lugar independente, dali nos desenvolvemos e nos conectamos, surgem ideias, ali a gente se vira como pode. A tecnologia facilita os meios de comunicação e de distribuição, onde que, hoje encontramos vários projetos dentro de cidades periféricas aproximando os próprios moradores para questões vividas dentro da comunidade; seja por segurança, meio ambiente ou arte. Facilitar o acesso às informações através da tecnologia, algo que está em todo lugar, é dar visibilidade a quem não é visto pela sociedade, trazendo questões de reflexão e indagação. O deslocamento é interessante ao ponto em que se agrega e traz benefícios a localidade e as pessoas que ali moram, do centro a periferia, para ser algo visto e não esquecido.

 

6 – Quais as influências na concepção de seus trabalhos?

Bom, digo que essas influências vem de momentos e pessoas próximas, seja uma esquina ou um amigo. A maior parte vem de uma visão poética relacionada ao Turismo, curso que sou graduando na Universidade de Brasília. Em minhas viagens prezo pela descoberta, enxergar algo novo e registrar esse momento. Levo isso de uma forma íntima para que o público possa sentir talvez o que eu estava sentindo. Através da fotografia e vídeos, vou explorando novas técnicas e novas propostas; sou um artista novo ainda, acredito que seja difícil me encontrar de uma certa maneira, então sempre estou disposto a procurar novas formas de me desenvolver e de me expressar artisticamente.

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Entrevista Ina Gouveia

A artista Ina Gouveia, participante da lida_006 fala um pouco sobre seu trabalho “Permeio”, seu processo criativo e as materialidades que envolvem sua pesquisa. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Seu trabalho gira em torno da ilustração. Como ocorreu sua ligação com essa linguagem?

Dentro da Academia, apesar de ter uma ligação muito forte com a linguagem e questões da ilustração, acabei a convite de professores e explorações pessoais, tentando implicar outros sentidos no meu fazer, menos didáticos e que entregassem menos o que eu estava propondo nas imagens. A partir daí minhas obras se ligaram a abertura de interpretação e ambiguidade que creio que caracterizam meu trabalho nas artes visuais. Embora ainda tenha meu trabalho na ilustração, creio que foram geradas bifurcações que cruzam as diversas pesquisas que tento encaminhar.

Podemos encontrar em Permeio o uso de papéis transparentes e tinta nanquim. Qual a importância dos materiais escolhidos?

Os materiais criam várias possibilidades possíveis de diálogos entre suas partes, permitindo a criação de camadas tanto físicas quanto interpretativas. A tinta gráfica e o nanquim permitem um preto gráfico que me agrada muito nas composições em que uso a linearidade para criar essas corpos ambíguos. Como materiais confortáveis para mim, todos do campo bidimensional, acho que de certa forma o trabalho tenta homenagear essa simplicidade da figuração e dos elementos básicos do desenho.

Questões como a relação entre corpo e espaço, assim como a indistinção entre ambos parecem estar presentes em seu trabalho. Qual a importância do corpo em sua obra?

Desde meus trabalhos iniciais, lido com com o corpo como a “forma possível” e um lugar discursivo do feminismo e do fazer artístico como mulher. Os desdobramentos, tanto literais quanto interpretativos, me agradam muito no diálogo com o espectador, que diversifica ainda mais os sentidos do que está sendo apresentado imageticamente.

Qual seu interesse em possibilitar diferentes montagens através da sobreposição das ilustrações transparentes de Permeio? Você leva em conta a apresentação como geradora de sentido no seu trabalho?

Acredito que tanto em um sentido narrativo quando na possibilidade das sobreposições e rearranjos desses módulos, há muitas coisas a serem construídas, principalmente no sentido da presença física do trabalho. Acredito que a apresentação é um momento importante para o artista em termos de resolução de sentido e qual história ele deseja contar, e acho que Permeio ainda há de ser mais desdobrada em termos de “módulos”.

Em permeio há uma clara relação entre o corpo humano e a pedra, o que nos trás a uma questão temporal. podemos dizer que a passagem do tempo é uma questão importante em sua pesquisa?

Sem dúvidas, a questão do tempo, do que nos precede e da ancestralidade estão muito presentes nesse trabalho. Creio que é algo novo, um caminho possível para trabalhos futuros, e acredito ter sido uma descoberta feliz como artista.

Em outros trabalhos é possível identificar a inexistência de rostos nos corpos representados. Você pode falar um pouco sobre essa questão e seu possível efeito nos espectadores?

Creio que essa falta de “identidade”, do rosto representado, pode abrir muito os sentidos do que apresento. Não há expressões faciais, que ditariam algumas relações que podemos criar com esses corpos, então o leitor da obra pode se implicar mais dentro das obras, espelhar mais suas próprias projeções dentro desse corpo narrativo, que se cruza ou não com outros corpos.

Você poderia falar um pouco sobre seu processo criativo?

Estou em uma constante descoberta sobre meus processos, mas acredito que a ambiguidade no corpo anda me guiando em trabalhos mais recentes. Na minha procura pelo cruzamento linha x desenho x corpo tenho me descoberto como uma artista mais intuitiva do que projetual, sempre baseada no fazer do desenho como base para meus processos. Desse fazer se deriva o discurso, as questões de montagem, e de cruzamentos possíveis entre os trabalhos.

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5 Discos essenciais para entender o Free Jazz

O Free Jazz é um subgênero do Jazz com origens no início da década de1960. É um estilo que procura se libertar das convenções e padrões impostos pelos subgêneros anteriores em termos de seqüências e mudanças melódicas, harmônicas e rítmicas, dentro das quais a improvisação do aspectos essenciais do Jazz, ocorre.

Dissonância, atonalidade, disposição de estruturas harmônicas regulares e aumento de mudanças rítmicas prevalecem no estilo. O movimento tomaria o nome do álbum de Ornette Coleman em 1961, chamado “Free Jazz”, creditado por servir como base de gravações posteriores de uma natureza mais “livre” associada ao gênero.

Uma pequena lista de músicos do Free Jazz inclui Coleman, Sun Ra, Cecil Taylor, Don Cherry, Albert Ayler, Anthony Braxton, Andrew Hill, Noah Howard, Sony Sharrock, Julius Hemphill, Archie Sheep, Sam Rivers, Roscoe Mitchell, John Surman. Na Europa, alguns músicos foram imporantes para a difusão do subgênero, entre eles Peter Brötzmann, Manfred Schoof, Alexander Von Slippenbach, Tomasz Stanko.

O Free Jazz seria influente no desenvolvimento da Improvisação Livre,com a qual o gênero compartilharia certos laços, mas que acabaria se expandindo para além do impulso rítmico, do vocabulário, da estética e da instrumentação do Jazz.

John Coltrane – Ascension [1966]


The Ornette Coleman Double Quartet – Free Jazz [1961]


Pharoah Sanders – Black Unity [1972]


The Peter Brozmann Octet – Machine Gun [1968]


Don Cherry – Eternal Now [1974]

Entrevista Gonçalves

Gonçalvez marca presença na Lida_005 com sua série Gif. Confira abaixo a entrevista que fizemos com o artista.

Seu trabalho tem na loop a base da experiência. Desde pelo menos do minimalismo e da pop, até a música eletrônica inúmeros artistas vêm usando o procedimento da repetição para trazer novas formas de percepção da realidade e das materialidades que nos cercam. Qual a importância da repetição e do loop em seu processo de criação e como essa estética se relaciona com a percepção dos espectadores?

Comparto da visao do pensador Byung-Chul Han de que a linearidade do tempo esta se atomizando em nossa época, vivemos uma sociedade do instante, o GIF seria a expressão caracteristica desta época, virtualizada e rápida ainda assim ha afirmações de Hito Steyerl a favor de uma pauperização da imagem, onde ja nao haveria um encantamento pela alta definição mas pela baixa, que permite uma maior distribuição pela internet devido ao tamanho de seus arquivos. Desse modo teriamos acesso a imagens em baixa resolucao e isso redefine a nossa estética.

Como disse anteriormente, o loop (e a repetição) faz parte do mundo globalizado e mediatizado em que vivemos, presente em nossas atividades cotidianas. Os temas de seus gifs também representam atividades corriqueiras. Podemos dizer que existe uma conexão entre observar a repetição das cenas representadas dos gifs e das cenas presentes em nossa realidade?

Parte de um olhar sobre o atual, mas divididos em séries cujas temáticas possuem uma pequena variação dialógico – animações realizadas a partir de registros cotidianos; extase do instante –  tentativa de sublimar o instante através do giro, seja em danças típicas, seja em cultos religiosos brincadeiras de roda – brinquedos que rodam dão o tom das criações prevendo a produção de um curta metragem sobre a repetição na vida cotidiana; memitologia da repetição – a partir de elementos da mitologia grega, repensar os castigos atraves de memes famosos da internet.

Em todos os gifs existe uma preocupação com uma espécie de mise en scéne que remete a um pensamento cinematográfico. Você poderia falar da relação de seu trabalho com direção de cinema na realização com os gifs, levando em conta a construção cênica e a relação com o tempo e movimento?

Nas primeiras produções me debrucei sobre a problemática da narratividade contemporânea. Numa época onde há um fim da narrativa (com a instantaneidade do momento) como construir uma obra que se desenvolva, não caindo no tédio? Varios pensadores (Crary, Gaudreaut, Gunning) vêem desde os anos 80 denominando de um cinema de atração, principalmente nos primórdios quando os primeiros filmes continham elementos visuais marcantes mas não desenvolviam em uma narrativa. Atualmente eles comparam às cenas de ações em produções mercadológicas, brigas, explosões entre outras coisas que não remetem a narrativa mas funcionam como atrativo visual somente (algo que Eisenstein já previa em sua montagem de atrações). Para a última série Memitologia… utilizao os mitos no título para designar uma pequena narrativa, uma vez que sua história já traça um referente direto com a imagem, e também pelo fato de estarem descoladas de memes de internet, que já possuem uma história própria.

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Entrevista Anabia

Anabia participa da Lida_005 com seu trabalho escapismo. Confira abaixo algumas ideias que fazem parte de seu processo criativo.

Escapismo traz a tona os movimentos de um corpo encarcerado, uma alegoria para a sociedade do controle. Como seu trabalho escapismo se relaciona com essa tensão entre corpo e encarceramento?

Escapismo usa de um signo já explorado nas questões de liberdade e enquadramento das ideias: o passarinho engaiolado. Inquieto, tomado de uma ansiedade e de uma agonia, sentimentos esses somados por uma trilha sonora que os potencializa levando o espectador para outro estado. Estado corporal, incômodo que parte das vísceras, inquietante…

Seu trabalho dialoga com a dança e escapismo é definido com um vídeo dança. Qual a relação entre artes visuais e dança em seu trabalho?

Tenho formação em dança mas meu interesse inicial foi nas artes visuais. Conforme o tempo passou eu fui naturalmente relacionando um e outro das formas que encontrava para tal. A tecnologia do vídeo me deu mais um campo de trânsito e pesquisa para ambas as linguagens. Chamo de videodança pois é um trabalho que transcende as linguagens de vídeo e dança, pois o video se faz como um novo “olhar”, uma nova forma de enxergar dança, a dança percebida para além do corpo humano dançante. Essas características podem ser percebidas em Escapismo pelo controle coreográfico entre os movimentos do pássaro, dos cortes da imagem para/com a música.


O processo de produção de escapismo é beneficiado pelas tecnologias digitais, seja na captação com uma câmera leve, som de banco de dados, etc. Qual é a importância das novas tecnologias na produção de seu trabalho?

Escapismo é fruto de uma urgência, ele foi produzido em um momento que tecnologias muito sofisticadas não estavam ao meu alcance, portanto foi preciso criar soluções que, no final, se mostraram eficazes, provando que é possível sim desenvolver um trabalho com tecnologias acessíveis: uma câmera de celular, aplicativos de edição simples e músicas disponíveis gratuitamente. Com certeza o advento dos smartphones de cada vez mais qualidade é um avanço muito importante pois dá oportunidade para artistas com menos recursos não deixarem de produzir.

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Entrevista Douglas Souza

Douglas Souza participa da Lida_005 com Afundo, trabalho que mescla poesia, performance e vídeo. Confira abaixo algumas questões que permeiam o trabalho.

Poderíamos falar do desejo de uma volta a um estado anterior de existência enquanto  sujeito – extremamente próxima do real – em Afundo?

É sempre muito complicado explicar um poema porque ele é uma espécie de não-coisa, uma  espécie de mundo que se desdobra dentro e fora de si mesmo, porem dentro de algumas  leituras que podemos fazer desse poema, creio que ele surge de uma percepção a respeito da  superficialidade que vivemos, da necessidade de imersão naquilo que alimenta nossas  paixões e também do resgate (e porque não dizer contato) dos elementos fundamentais da nossa existência.

A velocidade da informação, a capitalização de tudo que nos cerca e algumas  outras agressões do cotidiano tem transformado nossas relações com o mundo, com as  pessoas, com a natureza e essa reflexão me parece vital e urgente, para assim -talvez-  entendermos sua importância, principalmente em relação a natureza, e a partir daí, agirmos.

Pra se ter uma ideia, o local onde foi filmado o poema Afundo no inverno de 2018 fica em  Ilhabela – SP, a cidade onde moro há alguns anos, hoje, janeiro de 2019, essa praia está  interditada por causa da poluição, então agora não seria possível fazer esse videopoema lá.  Portanto acredito que há uma certa urgência nesse resgate.


Afundo é um trabalho que relaciona várias linguagens distintas. Como poesia, performance, som e imagem se envolvem em seu processo criativo?

Percebo que há uma interação cada vez maior das linguagens na produção de arte, essa
interação sempre existiu, mas com o acesso as novas tecnologias isso vai ficando cada vez  mais evidente. Acho que no meu caso foi importante alguns contatos que tive com exposições de arte como por exemplo o FILE – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica – que pude  ir desde o começo e descobrir artistas e modos de expressão que eu não conhecia. O poeta  como antena da raça está sempre (ou deve estar) ligado no que está acontecendo e achar as  brechas para dizer o que precisa ser dito. A poesia concreta, que como o próprio Leminski dizia  “é uma espécie de alistamento militar dos poetas, todo poeta no brasil passa por ela” fez isso  com grandeza, a parceria entre Julio Plaza e Augusto de Campos nos Poemobiles, ou os poemas gifs são bons exemplos. Décio Pignatari no livro Comunicação Poética define bem quando diz que o poema é um ser de linguagem. O poeta faz linguagem fazendo poema, está  sempre criando e re-criando a linguagem, que é seu mundo. Minha curiosidade aliada a um  certo autodidatismo e inquietação me levam a procurar maneiras de expressar meu  “sentimento de mundo”, a partir daí produzo colagens digitais que relacionam problemas ambientais, videopoemas, poesia visual, faço trabalhos artesanais e de artes plásticas, mas sempre a poesia como eixo central, como disse Waly Salomão: a poesia é o axial. Inclusive usei essa frase como epigrafe de uma plaquete chamada Cisco Chave que lancei em 2015.

Como você acha que as novas tecnologias de comunicação impactam na produção de poesia contemporânea?

Eu acho que o grande barato do poeta é a vida, é se arriscar nela, é ir fundo e ter curiosidade pra sacar o que está acontecendo e acredito que a poesia surge a partir disso, de uma inquietude associada a paixão pela linguagem. Tem um lance de ação na poesia, poiesis  mesmo e qualquer tecnologia disponível vai ser uma ferramenta útil na mão de quem estiver  antenado. Como fizeram os poetas da geração mimeografo nos anos 70 ou o pessoal que espalha poesia lambe-lambe pelas ruas. As novas tecnologias de comunicação ajudam na produção, divulgação, horizontalidade dos trabalhos, são ferramentas que proporcionam vários modos de criação e acho fundamental usa-las para as manifestações. Em tempos de ascensão do fascismo, perseguição das minorias, ataques aos direitos da população, o risco de extermínio de espécies animais e vegetais e a degradação do meio ambiente é necessário ocupar todos esses espaços. A poesia é uma arma.

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Entrevista Jaíne Muniz

Jaíne Muniz participa da Lida_005 com seu trabalho re vivências, uma performance. Confira abaixo  as ideias compartilhadas pela artista.

Seu trabalho re vivências se relaciona com a teoria das 5 peles de Friedensreich Hundertwasser, que pensa o corpo em diferentes níveis. Você relaciona diretamente a quinta pele (a ecológica) com a segunda pele (a vestimenta) para curar sobretudo a primeira (a epiderme). Esse procedimento estabelece uma conexão entre estas cinco peles. Você pode falar um pouco sobre como seu trabalho se relaciona com essas camadas da existência?

Eu acredito que a teoria das cinco peles de Hudertwasser é exatamente a essência do que nós somos, são as peles que andam conosco o tempo inteiro e que não podemos nos desvencilhar. Eu coloco essas três peles em evidência (ecologia, vestimenta e epiderme) porque elas transmitem bem o motivo e o objetivo da minha performance, mas isso não quer dizer que as outras duas foram esquecidas (casa e identidade). Justamente por ser uma performance, todas essas ações se relacionam e criam diálogos com o espaço ao redor. Escolhi um lugar dentro da minha universidade principalmente porque queria estar em um espaço que tivesse uma grande circulação de pessoas, e também por ser quase minha segunda casa. Esse lugar e o meu contato com as pessoas que por ali passam me define e me molda. A minha casa diz como eu sou. E nossa casa maior, que todos dividimos, é a própria Terra. Por isso apenas ela, e as coisas que vem dela serão capazes de me curar.


O trabalho é apresentado através de registros de uma performance e da construção da vestimenta. Você pode falar um pouco de como foi o processo performático e o contexto em que foi realizado?

Essa performance foi criada como projeto final da disciplina de Plástica do meu curso de Artes Visuais com a proposta de land art. Eu já vinha fazendo estudos sobre vestimenta e identidade social quando meu professor me apresentou a teoria das cinco peles. Não demorou muito e eu comecei a idealizar o projeto. Comecei fazendo moldes de partes do meu corpo com tule, recolhi várias folhas de árvores que encontrava pelo campus da universidade e as costurei nos meus moldes. A performance em si me retrata saindo do concreto qual eu piso para adentrar cada vez mais o espaço da natureza e ir de encontro com as folhas que me rodeavam. Ao final da performance eu já me sentia árvore. Os moldes de folhas me imobilizaram e eu já não conseguia ver nada além de verde e alguns raios de sol. Foi uma experiência reanimadora, que tocou lá dentro e expurgou para fora. Acho que todas as pessoas deveriam fazer sua própria roupa de folhas.


O processo de trabalho envolve a modelagem da vestimenta (construção da segunda pele) a partir de fragmentos da na natureza (da quinta pele). Você atualmente cursa artes visuais, mas tem uma formação em modelagem em vestuários. Quais as possíveis conexões entre sua prática artística e as técnicas e conceitos de modelagem?

Eu não sou uma pessoa que gosta de técnica e de padronagens. Acredito que linhas retas e planificações dos nossos corpos são bizarros e que apenas limitam nossa liberdade de expressão. Entrei no curso de modelagem simplesmente porque eu gostava de roupas, terminei o curso e hoje eu não me importo com uma tabela de medidas ou um passo a passo a risca do que fazer. Isso se traduz na maioria das coisas que eu faço. Depois que descobri que arte é o único caminho para mim eu tento incorporar tudo que eu aprendo aleatoriamente em minhas práticas artísticas. Eu vejo e faço arte de uma forma mais intuitiva e de sentidos. Desse modo eu me aproveito dos meus conhecimentos em modelagem para poder observar camadas, essas que colocamos no nosso corpo diariamente, as camadas da cidade e das pessoas que nos rodeiam.


A apresentação de re vivências é feita em formato de publicação digital com fotografias e design de Hugo Bello. Por que você escolheu esse formatode exposição? Quais potencialidades você enxerga nas publicações digitais?

Como a performance fazia parte de um projeto final, eu tive que apresentá-lo ao meu professor. O Hugo se dispôs a me ajudar e ele que criou esse formato para que eu fizesse minha apresentação. Continuei usando esse formato porque acredito que seja uma boa ferramenta para a apresentação deste trabalho e para enviá-lo a outras pessoas.

Acredito que as publicações digitais, como a Lida, têm um papel muito importante para a visibilidade e a propagação das produções artísticas porque elas viajam através de compartilhamentos e visualizações para milhares pessoas. Assim como nós artistas ganhamos com nosso trabalho sendo divulgado, as pessoas que acessam esses catálogos também ganham com a exposição de diversas linguagens artísticas diferentes.

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