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Entrevista Ina Gouveia

A artista Ina Gouveia, participante da lida_006 fala um pouco sobre seu trabalho “Permeio”, seu processo criativo e as materialidades que envolvem sua pesquisa. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Seu trabalho gira em torno da ilustração. Como ocorreu sua ligação com essa linguagem?

Dentro da Academia, apesar de ter uma ligação muito forte com a linguagem e questões da ilustração, acabei a convite de professores e explorações pessoais, tentando implicar outros sentidos no meu fazer, menos didáticos e que entregassem menos o que eu estava propondo nas imagens. A partir daí minhas obras se ligaram a abertura de interpretação e ambiguidade que creio que caracterizam meu trabalho nas artes visuais. Embora ainda tenha meu trabalho na ilustração, creio que foram geradas bifurcações que cruzam as diversas pesquisas que tento encaminhar.

Podemos encontrar em Permeio o uso de papéis transparentes e tinta nanquim. Qual a importância dos materiais escolhidos?

Os materiais criam várias possibilidades possíveis de diálogos entre suas partes, permitindo a criação de camadas tanto físicas quanto interpretativas. A tinta gráfica e o nanquim permitem um preto gráfico que me agrada muito nas composições em que uso a linearidade para criar essas corpos ambíguos. Como materiais confortáveis para mim, todos do campo bidimensional, acho que de certa forma o trabalho tenta homenagear essa simplicidade da figuração e dos elementos básicos do desenho.

Questões como a relação entre corpo e espaço, assim como a indistinção entre ambos parecem estar presentes em seu trabalho. Qual a importância do corpo em sua obra?

Desde meus trabalhos iniciais, lido com com o corpo como a “forma possível” e um lugar discursivo do feminismo e do fazer artístico como mulher. Os desdobramentos, tanto literais quanto interpretativos, me agradam muito no diálogo com o espectador, que diversifica ainda mais os sentidos do que está sendo apresentado imageticamente.

Qual seu interesse em possibilitar diferentes montagens através da sobreposição das ilustrações transparentes de Permeio? Você leva em conta a apresentação como geradora de sentido no seu trabalho?

Acredito que tanto em um sentido narrativo quando na possibilidade das sobreposições e rearranjos desses módulos, há muitas coisas a serem construídas, principalmente no sentido da presença física do trabalho. Acredito que a apresentação é um momento importante para o artista em termos de resolução de sentido e qual história ele deseja contar, e acho que Permeio ainda há de ser mais desdobrada em termos de “módulos”.

Em permeio há uma clara relação entre o corpo humano e a pedra, o que nos trás a uma questão temporal. podemos dizer que a passagem do tempo é uma questão importante em sua pesquisa?

Sem dúvidas, a questão do tempo, do que nos precede e da ancestralidade estão muito presentes nesse trabalho. Creio que é algo novo, um caminho possível para trabalhos futuros, e acredito ter sido uma descoberta feliz como artista.

Em outros trabalhos é possível identificar a inexistência de rostos nos corpos representados. Você pode falar um pouco sobre essa questão e seu possível efeito nos espectadores?

Creio que essa falta de “identidade”, do rosto representado, pode abrir muito os sentidos do que apresento. Não há expressões faciais, que ditariam algumas relações que podemos criar com esses corpos, então o leitor da obra pode se implicar mais dentro das obras, espelhar mais suas próprias projeções dentro desse corpo narrativo, que se cruza ou não com outros corpos.

Você poderia falar um pouco sobre seu processo criativo?

Estou em uma constante descoberta sobre meus processos, mas acredito que a ambiguidade no corpo anda me guiando em trabalhos mais recentes. Na minha procura pelo cruzamento linha x desenho x corpo tenho me descoberto como uma artista mais intuitiva do que projetual, sempre baseada no fazer do desenho como base para meus processos. Desse fazer se deriva o discurso, as questões de montagem, e de cruzamentos possíveis entre os trabalhos.

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Entrevista Gonçalves

Gonçalvez marca presença na Lida_005 com sua série Gif. Confira abaixo a entrevista que fizemos com o artista.

Seu trabalho tem na loop a base da experiência. Desde pelo menos do minimalismo e da pop, até a música eletrônica inúmeros artistas vêm usando o procedimento da repetição para trazer novas formas de percepção da realidade e das materialidades que nos cercam. Qual a importância da repetição e do loop em seu processo de criação e como essa estética se relaciona com a percepção dos espectadores?

Comparto da visao do pensador Byung-Chul Han de que a linearidade do tempo esta se atomizando em nossa época, vivemos uma sociedade do instante, o GIF seria a expressão caracteristica desta época, virtualizada e rápida ainda assim ha afirmações de Hito Steyerl a favor de uma pauperização da imagem, onde ja nao haveria um encantamento pela alta definição mas pela baixa, que permite uma maior distribuição pela internet devido ao tamanho de seus arquivos. Desse modo teriamos acesso a imagens em baixa resolucao e isso redefine a nossa estética.

Como disse anteriormente, o loop (e a repetição) faz parte do mundo globalizado e mediatizado em que vivemos, presente em nossas atividades cotidianas. Os temas de seus gifs também representam atividades corriqueiras. Podemos dizer que existe uma conexão entre observar a repetição das cenas representadas dos gifs e das cenas presentes em nossa realidade?

Parte de um olhar sobre o atual, mas divididos em séries cujas temáticas possuem uma pequena variação dialógico – animações realizadas a partir de registros cotidianos; extase do instante –  tentativa de sublimar o instante através do giro, seja em danças típicas, seja em cultos religiosos brincadeiras de roda – brinquedos que rodam dão o tom das criações prevendo a produção de um curta metragem sobre a repetição na vida cotidiana; memitologia da repetição – a partir de elementos da mitologia grega, repensar os castigos atraves de memes famosos da internet.

Em todos os gifs existe uma preocupação com uma espécie de mise en scéne que remete a um pensamento cinematográfico. Você poderia falar da relação de seu trabalho com direção de cinema na realização com os gifs, levando em conta a construção cênica e a relação com o tempo e movimento?

Nas primeiras produções me debrucei sobre a problemática da narratividade contemporânea. Numa época onde há um fim da narrativa (com a instantaneidade do momento) como construir uma obra que se desenvolva, não caindo no tédio? Varios pensadores (Crary, Gaudreaut, Gunning) vêem desde os anos 80 denominando de um cinema de atração, principalmente nos primórdios quando os primeiros filmes continham elementos visuais marcantes mas não desenvolviam em uma narrativa. Atualmente eles comparam às cenas de ações em produções mercadológicas, brigas, explosões entre outras coisas que não remetem a narrativa mas funcionam como atrativo visual somente (algo que Eisenstein já previa em sua montagem de atrações). Para a última série Memitologia… utilizao os mitos no título para designar uma pequena narrativa, uma vez que sua história já traça um referente direto com a imagem, e também pelo fato de estarem descoladas de memes de internet, que já possuem uma história própria.

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Entrevista Anabia

Anabia participa da Lida_005 com seu trabalho escapismo. Confira abaixo algumas ideias que fazem parte de seu processo criativo.

Escapismo traz a tona os movimentos de um corpo encarcerado, uma alegoria para a sociedade do controle. Como seu trabalho escapismo se relaciona com essa tensão entre corpo e encarceramento?

Escapismo usa de um signo já explorado nas questões de liberdade e enquadramento das ideias: o passarinho engaiolado. Inquieto, tomado de uma ansiedade e de uma agonia, sentimentos esses somados por uma trilha sonora que os potencializa levando o espectador para outro estado. Estado corporal, incômodo que parte das vísceras, inquietante…

Seu trabalho dialoga com a dança e escapismo é definido com um vídeo dança. Qual a relação entre artes visuais e dança em seu trabalho?

Tenho formação em dança mas meu interesse inicial foi nas artes visuais. Conforme o tempo passou eu fui naturalmente relacionando um e outro das formas que encontrava para tal. A tecnologia do vídeo me deu mais um campo de trânsito e pesquisa para ambas as linguagens. Chamo de videodança pois é um trabalho que transcende as linguagens de vídeo e dança, pois o video se faz como um novo “olhar”, uma nova forma de enxergar dança, a dança percebida para além do corpo humano dançante. Essas características podem ser percebidas em Escapismo pelo controle coreográfico entre os movimentos do pássaro, dos cortes da imagem para/com a música.


O processo de produção de escapismo é beneficiado pelas tecnologias digitais, seja na captação com uma câmera leve, som de banco de dados, etc. Qual é a importância das novas tecnologias na produção de seu trabalho?

Escapismo é fruto de uma urgência, ele foi produzido em um momento que tecnologias muito sofisticadas não estavam ao meu alcance, portanto foi preciso criar soluções que, no final, se mostraram eficazes, provando que é possível sim desenvolver um trabalho com tecnologias acessíveis: uma câmera de celular, aplicativos de edição simples e músicas disponíveis gratuitamente. Com certeza o advento dos smartphones de cada vez mais qualidade é um avanço muito importante pois dá oportunidade para artistas com menos recursos não deixarem de produzir.

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Acesse Escapismo assinando gratuitamente a Lida.

Entrevista Douglas Souza

Douglas Souza participa da Lida_005 com Afundo, trabalho que mescla poesia, performance e vídeo. Confira abaixo algumas questões que permeiam o trabalho.

Poderíamos falar do desejo de uma volta a um estado anterior de existência enquanto  sujeito – extremamente próxima do real – em Afundo?

É sempre muito complicado explicar um poema porque ele é uma espécie de não-coisa, uma  espécie de mundo que se desdobra dentro e fora de si mesmo, porem dentro de algumas  leituras que podemos fazer desse poema, creio que ele surge de uma percepção a respeito da  superficialidade que vivemos, da necessidade de imersão naquilo que alimenta nossas  paixões e também do resgate (e porque não dizer contato) dos elementos fundamentais da nossa existência.

A velocidade da informação, a capitalização de tudo que nos cerca e algumas  outras agressões do cotidiano tem transformado nossas relações com o mundo, com as  pessoas, com a natureza e essa reflexão me parece vital e urgente, para assim -talvez-  entendermos sua importância, principalmente em relação a natureza, e a partir daí, agirmos.

Pra se ter uma ideia, o local onde foi filmado o poema Afundo no inverno de 2018 fica em  Ilhabela – SP, a cidade onde moro há alguns anos, hoje, janeiro de 2019, essa praia está  interditada por causa da poluição, então agora não seria possível fazer esse videopoema lá.  Portanto acredito que há uma certa urgência nesse resgate.


Afundo é um trabalho que relaciona várias linguagens distintas. Como poesia, performance, som e imagem se envolvem em seu processo criativo?

Percebo que há uma interação cada vez maior das linguagens na produção de arte, essa
interação sempre existiu, mas com o acesso as novas tecnologias isso vai ficando cada vez  mais evidente. Acho que no meu caso foi importante alguns contatos que tive com exposições de arte como por exemplo o FILE – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica – que pude  ir desde o começo e descobrir artistas e modos de expressão que eu não conhecia. O poeta  como antena da raça está sempre (ou deve estar) ligado no que está acontecendo e achar as  brechas para dizer o que precisa ser dito. A poesia concreta, que como o próprio Leminski dizia  “é uma espécie de alistamento militar dos poetas, todo poeta no brasil passa por ela” fez isso  com grandeza, a parceria entre Julio Plaza e Augusto de Campos nos Poemobiles, ou os poemas gifs são bons exemplos. Décio Pignatari no livro Comunicação Poética define bem quando diz que o poema é um ser de linguagem. O poeta faz linguagem fazendo poema, está  sempre criando e re-criando a linguagem, que é seu mundo. Minha curiosidade aliada a um  certo autodidatismo e inquietação me levam a procurar maneiras de expressar meu  “sentimento de mundo”, a partir daí produzo colagens digitais que relacionam problemas ambientais, videopoemas, poesia visual, faço trabalhos artesanais e de artes plásticas, mas sempre a poesia como eixo central, como disse Waly Salomão: a poesia é o axial. Inclusive usei essa frase como epigrafe de uma plaquete chamada Cisco Chave que lancei em 2015.

Como você acha que as novas tecnologias de comunicação impactam na produção de poesia contemporânea?

Eu acho que o grande barato do poeta é a vida, é se arriscar nela, é ir fundo e ter curiosidade pra sacar o que está acontecendo e acredito que a poesia surge a partir disso, de uma inquietude associada a paixão pela linguagem. Tem um lance de ação na poesia, poiesis  mesmo e qualquer tecnologia disponível vai ser uma ferramenta útil na mão de quem estiver  antenado. Como fizeram os poetas da geração mimeografo nos anos 70 ou o pessoal que espalha poesia lambe-lambe pelas ruas. As novas tecnologias de comunicação ajudam na produção, divulgação, horizontalidade dos trabalhos, são ferramentas que proporcionam vários modos de criação e acho fundamental usa-las para as manifestações. Em tempos de ascensão do fascismo, perseguição das minorias, ataques aos direitos da população, o risco de extermínio de espécies animais e vegetais e a degradação do meio ambiente é necessário ocupar todos esses espaços. A poesia é uma arma.

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Você pode acessar outros trabalhos do artista em: facebook.com/toxidade/

Entrevista Jaíne Muniz

Jaíne Muniz participa da Lida_005 com seu trabalho re vivências, uma performance. Confira abaixo  as ideias compartilhadas pela artista.

Seu trabalho re vivências se relaciona com a teoria das 5 peles de Friedensreich Hundertwasser, que pensa o corpo em diferentes níveis. Você relaciona diretamente a quinta pele (a ecológica) com a segunda pele (a vestimenta) para curar sobretudo a primeira (a epiderme). Esse procedimento estabelece uma conexão entre estas cinco peles. Você pode falar um pouco sobre como seu trabalho se relaciona com essas camadas da existência?

Eu acredito que a teoria das cinco peles de Hudertwasser é exatamente a essência do que nós somos, são as peles que andam conosco o tempo inteiro e que não podemos nos desvencilhar. Eu coloco essas três peles em evidência (ecologia, vestimenta e epiderme) porque elas transmitem bem o motivo e o objetivo da minha performance, mas isso não quer dizer que as outras duas foram esquecidas (casa e identidade). Justamente por ser uma performance, todas essas ações se relacionam e criam diálogos com o espaço ao redor. Escolhi um lugar dentro da minha universidade principalmente porque queria estar em um espaço que tivesse uma grande circulação de pessoas, e também por ser quase minha segunda casa. Esse lugar e o meu contato com as pessoas que por ali passam me define e me molda. A minha casa diz como eu sou. E nossa casa maior, que todos dividimos, é a própria Terra. Por isso apenas ela, e as coisas que vem dela serão capazes de me curar.


O trabalho é apresentado através de registros de uma performance e da construção da vestimenta. Você pode falar um pouco de como foi o processo performático e o contexto em que foi realizado?

Essa performance foi criada como projeto final da disciplina de Plástica do meu curso de Artes Visuais com a proposta de land art. Eu já vinha fazendo estudos sobre vestimenta e identidade social quando meu professor me apresentou a teoria das cinco peles. Não demorou muito e eu comecei a idealizar o projeto. Comecei fazendo moldes de partes do meu corpo com tule, recolhi várias folhas de árvores que encontrava pelo campus da universidade e as costurei nos meus moldes. A performance em si me retrata saindo do concreto qual eu piso para adentrar cada vez mais o espaço da natureza e ir de encontro com as folhas que me rodeavam. Ao final da performance eu já me sentia árvore. Os moldes de folhas me imobilizaram e eu já não conseguia ver nada além de verde e alguns raios de sol. Foi uma experiência reanimadora, que tocou lá dentro e expurgou para fora. Acho que todas as pessoas deveriam fazer sua própria roupa de folhas.


O processo de trabalho envolve a modelagem da vestimenta (construção da segunda pele) a partir de fragmentos da na natureza (da quinta pele). Você atualmente cursa artes visuais, mas tem uma formação em modelagem em vestuários. Quais as possíveis conexões entre sua prática artística e as técnicas e conceitos de modelagem?

Eu não sou uma pessoa que gosta de técnica e de padronagens. Acredito que linhas retas e planificações dos nossos corpos são bizarros e que apenas limitam nossa liberdade de expressão. Entrei no curso de modelagem simplesmente porque eu gostava de roupas, terminei o curso e hoje eu não me importo com uma tabela de medidas ou um passo a passo a risca do que fazer. Isso se traduz na maioria das coisas que eu faço. Depois que descobri que arte é o único caminho para mim eu tento incorporar tudo que eu aprendo aleatoriamente em minhas práticas artísticas. Eu vejo e faço arte de uma forma mais intuitiva e de sentidos. Desse modo eu me aproveito dos meus conhecimentos em modelagem para poder observar camadas, essas que colocamos no nosso corpo diariamente, as camadas da cidade e das pessoas que nos rodeiam.


A apresentação de re vivências é feita em formato de publicação digital com fotografias e design de Hugo Bello. Por que você escolheu esse formatode exposição? Quais potencialidades você enxerga nas publicações digitais?

Como a performance fazia parte de um projeto final, eu tive que apresentá-lo ao meu professor. O Hugo se dispôs a me ajudar e ele que criou esse formato para que eu fizesse minha apresentação. Continuei usando esse formato porque acredito que seja uma boa ferramenta para a apresentação deste trabalho e para enviá-lo a outras pessoas.

Acredito que as publicações digitais, como a Lida, têm um papel muito importante para a visibilidade e a propagação das produções artísticas porque elas viajam através de compartilhamentos e visualizações para milhares pessoas. Assim como nós artistas ganhamos com nosso trabalho sendo divulgado, as pessoas que acessam esses catálogos também ganham com a exposição de diversas linguagens artísticas diferentes.

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Para acessar o trabalho re vivências basta assinar a Lida gratuitamente e receber em seu e-mail.

Entrevista Caroline Valansi

Caroline Valansi participa da quinta edição da Lida com seu trabalho “Corpo Cinético”. Confira abaixo uma entrevista com a artista, que fala um pouco sobre sua pesquisa e processo de trabalho.

A preocupação com o movimento é notável em sua série Corpo Cinético, como o próprio título se refere. O que parece estar em jogo é justamente a energia gerada a partir do movimento de dois corpos, tanto na sexualidade quanto na combinação de imagens distintas contrastando ritmicamente. Qual a importância do corpo em movimento com seu trabalho. Qual a importância do corpo em seu trabalho? Podemos dizer que além da temática essa preocupação está presente na experiência do espectador?

Parto sempre da pergunta de como posso fazer uma imagem 2d/plana virar algo em movimento. Gosto da ideia de ilusão. Como uma mágica, mostrar imagens que confundem os olhos dos espectadores, que estão atentos para determinado ponto, mas que na verdade não percebem a artimanha, o dispositivo ilusório por trás do efeito ótico. Assim, o espectador, sim, está presente na cinesia dinâmica da obra.

Essa série se deu quando achei revistas eróticas, onde mais do que os corpos, a fotografia e a luz me chamavam atenção. Preocupação rara no universo do erótico e pornô, que atentam apenas à exposição dos corpos. Pra mim, corpo é política. Os corpos femininos são sempre expostos de forma a manter uma opressão sobre eles. O sexo, ainda hoje, é cerceado por tabus morais, politizá-lo é uma forma de falar sobre ele, debatê-lo e, assim, construir uma nova linguagem que pode servir de ferramenta de objeção.

Todos nós movimentamos nossos corpos seja andando, cagando, transando… Estar no mundo é ter o corpo em movimento. Gosto do conceito do esbarrão. Esse choque casual do corpo no corpo do outro assim sem querer, seu corpo já não é mais o mesmo e não está no mesmo lugar. Na série Corpo Cinético, a ideia era deformar os corpos, já tão pré- estabelecidos e entendidos. Dar sensação de movimento. De algo infinito.

Qual a relação entre sua formação na área de cinema com suas práticas artísticas – sobretudo as colagens? Estaria na preocupação com o tempo e o movimento?

Acredito que tudo que já fiz, estudei e experimentei está presente em toda minha obra. Como um hd cerebral que a todo momento eu vou lá e abro uma pasta de arquivos antigos.

Não gosto de jogar nada fora. Muitas coisas acontecem a partir de uma ideia ou interesse,

mas percebo que a premissa do movimento em imagens paradas é algo que me segue e instintivamente está presente de alguma forma no meu trabalho.

A sexualidade também está presente em sua prática, na série corpo cinético e em outras séries também. Você poderia falar um pouco sobre como seu trabalho se envolve com a sexualidade (e obviamente com as relações de poder – e seja, sua imbricações política)?

Minha aproximação com a pornografia se deu por um histórico familiar. Venho de uma família que teve uma grande importância na construção das salas de cinemas no Brasil. A maioria delas começou exibindo filmes de arte, clássicos de produção européia, mas nos anos 1980 entraram em decadência, transformando-se em cinemas pornôs.

Em minha pesquisa atual, tenho pensado o papel da mulher dentro do pornô e sua inserção na sociedade contemporânea. Meus trabalhos tratam de sexo, erotismo, feminismos. Minhas últimas obras falam da interação entre as ideias feministas e a visão que se tem da mulher no universo da pornografia, sua objetificação, seu eterno papel de submissão, que não acontece só nas telas.

A proximidade desse universo me levou ao feminismo e aos conceitos de postporn. Essa pornografia além do obsceno me levou a pesquisar os corpos. Como nosso corpo navega pela urbe? Que vetores nos impulsionam e nos censuram? Que corpo e liberdade queremos? Como usar nosso próprio corpo no mundo? Essas são algumas questões que atravessam meu trabalho, partindo da memória afetiva familiar, passando pela memória da cidade, até chegar à memória inscrita nos corpos que habitam esse espaço.

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Para conhecer a série “Corpo Cinético” basta fazer sua assinatura gratuita da Lida e receber diretamente em seu e-mail.

Para acessar outros trabalho e textos de Caroline Valansi, visite: http://carolinevalansi.com.br

Entrevista Caio Brandão

Caio Brandão é poeta e participa da quinta edição da lida com A-MAR, leia a seguir a entrevista em que comenta sobre seu processo de escrita e motivações.

Você poderia falar um pouco sobre sua trajetória enquanto poeta independente?

Tudo se inicia com trocas de cartas entre um neto interessado por seu avô artista. Um sujeito sofrido com várias fabulações oriundas de uma língua mãe doce e romântica pela vida. O avô que logo não resistiu e caiu em desejos e admirações pelo seu então futuro aprendiz de escritor e neto…costumava dizer “Leiam sempre, sempre ou sempre!!!” nos sumários de livros que destinava. Quando faleceu em 2009, eu tinha meus 16 anos. Embora já trocava cartas e mostrava um pouco do meu anseio intrínseco de pertencer na família como ovelha estranha, quando se foi senti uma enorme responsabilidade como que um chamado a continuar seu legado de “escrevinhador de fim de semana”. Gosto demais de esquecer de mim mesmo, e escrever me alivia nisso. O avô? Um homem simples, curioso e sensível. Meu avô foi pai de minhas palavras, um grande mestre que quase não tive contato na vida, mas que viveu muito e vive ainda em minha imaginação. Escrevia para ele, depois escrevi para mim, e hoje simplesmente escrevo, apenas. Não devo questionar o fruto, apenas morder e partilhar. Essa é a minha missão: Repassar de maneira limpa para fins de sossego em dignidade pelo cumprimento do ofício confiado.

Como é o processo de construção de suas poesias? Exige muito tempo de cálculo e planejamento, ou é algo espontâneo?

Poesia não é ciência exata, embora hajam tantas tentativas frágeis de sistematizar a subjetividade humana. Creio (Fé, logo suponho) que o processo aqui é bem intuitivo. Não sei bem como ele funciona…Apenas tento ser o menos vaidoso possível e não me perder em mim mesmo. Gosto de inventar melodias, sonhar, transar, respirar, morrer, nas palavras. Isso desde pequeno, vai entender. Meu jeito de esquecer do mundo.

Podemos identificar um crescimento no número de poetas que utilizam a internet como meio de apresentação de seu trabalho, seja através da performance ou pela publicação de textos em diferentes plataformas. Como você entende o status da poesia atualmente?

Atualmente a poesia assim como qualquer outra manifestação humana está inserida no contexto da suposta “era da comunicação ampliada”, portanto isto aparentemente é um ganho no que diz a disseminação como especie de contágio abrangente. Mas, sinceramente, sinto que a palavra vive um momento de banalidade. Para tanto, eu prefiro até assistir filmes mudos. Entretanto, a vitrine é vasta não adianta mas o público não tem se mostrado participativo. Veja, brasileiro é um bicho que não gosta de ler, pensar, exercitar o ato político. Isso é um desmame anormal e burro. Vivemos na sombra de outros/outras e não valorizamos os artistas como representantes de uma revelação (revelar; pôr luz sobre algo) da identidade e do pertencimento. O escritor assim como qualquer artista é marginal, discriminado, não respeitado, mal pago, e ainda sofre de uma especie de capa de invisibilidade. Enquanto não somos vistos, não somos lembrados, mas somos vistos de maneira trágica pelos então “difusores” da cultura. Compreendeu? Meu ponto é: O artista está inserido em um contexto defasado – brasileiro. Escrever, assim como qualquer arte, é a expressão humana que visa a experimentação de um ponto de vista, uma percepção, que nem todos estão afim de exercitar. Assim existe o artista brasileiro, resiste, melhor dizendo. Ele depende de uma cadeia corrupta que em vez de difundir igualitariamente, apenas segmenta e edifica muros altos, conduz de forma a supervalorizar alguns, desvalorizando os demais. O escritor, por exemplo, depende de seres detentores de status social e político para ter sua obra como que posta em evidência, mas então você me diz, e a internet? Não é uma ferramenta democrática? Talvez, mas se eu criar um blog sem patrocínio vai me gerar renda? Vou conseguir pagar a conta de luz? não. Existe alguma política em minha região que incentive a produção literária? Qual a representatividade da literatura em meu entorno? Isso são perguntas básicas que todo artista deve fazer…para começar a agir com racionalidade! E perceber, claro, que isto é um hobby. Agora se der pra viver financeiramente com esse hobby, então isto é um milagre, falando de Brasil. A literatura vive em uma estrutura frágil portanto, e eu me pergunto sempre e estudo meios de compreender caminhos para a seguinte questão: Como atinjo não somente a parcela que aprecia simplesmente por prazer e conhecimento, o que é raro, e sim a plateia doravante e desapercebida que tanto anseio tocar?

Veja, o que eu quero é oferecer um caminho, e estou estudando o melhor jeito de isso acontecer de maneira universal. Não quero ganhar dinheiro com meus livros, quero fazer com que isso seja de domínio público, no mínimo. Se puder ganhar dinheiro, melhor pra mim não acha? Ou dá pra se viver nesse mundo sem dinheiro? Bom, eu não anseio coisas materiais, sou um homem simples e não tenho coragem de adotar a política do facão para conseguir as coisas…Mas como, como é que eu ser anônimo vou competir com um produto importado, posto como relevante, e acomodado/amparado financeiramente sabe Deus por quem? O problema é a competição desigual, e a competição por si só. Não tenho que competir com ninguém, muito menos com o(a) cara/ do tom de cinza, mas estar tão somente ao lado de maneira justa. Status? O status é aquilo que se adquiri quando evidenciado relevante. Quem evidencia tem poder, é visto como uma referência na sua escolha, e então o produto está qualificado. Mas bicho, me pergunto, literatura é pra vender ou pra morrer? Não tenho um puto pra imprimir meu livro. Chego na secretaria de Cultura, dedico a obra para o secretário da cultura, e faço um adendo: Me ajuda a publicar. Mas posso colocar de graça no facebook? posso e faço, parcialmente. Isto porque sou romântico e acho muito mais bonito a capa de um livro, o próprio livro, e a espécie leitor que lê o que se existe. Então, o livro está lá…Agora é torcer…

Você acredita que as novas mídias podem fazer com que exista um interesse mais amplo do público com a poesia?

Acredito que o poder de abrangência é facultativo, pois ainda que escravos das redes sociais, dependemos de veículos que empurrem o nosso trabalho, pois o que pretendo como poeta é atingir o maior número de pessoas, ou seja, colocar em evidência o que escrevo para despertar esse interesse de maneira mais contundente tanto no ato do apreço como do fazimento. O público que gostaria que tivesse acesso ao que escrevo é o mundo inteiro mesmo. Mas, isto pode ser feito em uma plataforma virtual ou terráquea. O marketing e os grandes veículos de comunicação, bem como o poder público são o oráculo principal, e o visto vetor capaz de evidenciar esta ou aquela obra para que se conquiste novos leitores ou não leitores. Com o produto em evidência (seja através da publicação e distribuição amparada por uma editora, ou mesmo tidos os honorários “selos de qualidade”), que, atribuem aquele ou este status, as prateleiras mais democráticas com as obras de autores até então anônimos, e o farol direcionado afim de difusão meramente do ato e não o vago pensamento comercial das vendas das obras, penso que desse modo talvez elas vão se encaixando na possibilidade de expansão. Mas para isto acontecer é preciso APOIO. Como o escritor apenas escreve, e não detêm de grandiosas ferramentas de impressão, muito menos espaços que difundam sua existência, dependemos de uma cadeia que funcione em generosa atenção e espírito de coletividade. E a internet? Isto é outro fator estranho, pois é ta aí né. Não consegui passar do meu círculo de amigos até agora, e do meu círculo de amigos que eu conheço 10% eu acho, enfim, não saiu daqui para o japonês, sacou? Os editores, as distribuidoras, o poder público, os festivais, a mídia, e tudo aquilo que puder alavancar e evidenciar o consumo consciente/crítico, ou a confecção de uma  LINGUAGEM LITERÁRIA regional, possui sua esfera de contribuição na cadeia de abrangência e expansão humana.

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Entrevista David Botelho

Em Deriva, trabalho que integra a quinta edição da Lida, David Botelho relaciona vídeo e dança, enfatizando a cultura hip-hop. Confira a entrevista em que o artista comenta seu trabalho:

Seu trabalho deriva busca refletir sobre o corpo em situação de rua – um corpo marginalizado, mas que encontra na dança sua forma de resistência em uma realidade caótica. Você poderia falar um pouco sobre as motivações para a realização de deriva? 

A pesquisa veio através da história da dança de rua, precisamente no Brooklyn em Nova York. Foi um estilo que surge nos guetos por jovens da periferia como um meio de expressão, este estilo de dança é caracterizado pela agressividade. Praticada com força, o bailarino busca vincular sua realidade com os movimentos de dança, como o corpo marginalizado a mercê dos perigos urbanos, necessita se defender. No video a dança torna-se o canal de comunicação entre o morador de rua e a cidade.

Qual a relação entre seu trabalho com dança e a produção audiovisual, entre performance e vídeo? Você poderia falar um pouco sobre isso?

Comecei em 2013 a praticar dança de rua, mas foi no estilo Breaking que encontrei a forma de me apresentar tanto como bailarino quanto como pessoa. Este estilo precisa se posicionar e apresentar atitude. Com o passar do tempo vi a necessidade de registrar a dança, tentei utilizar a fotografia porém não atingia todo o potencial. Por envolver diferentes passos e planos na forma de usar o corpo, o video resolveu essa questão. Muitas vezes já tenho um rascunho em mente dos ângulos e enquadramentos para os videos, mas experimentações e improvisos são ótimos desdobramentos no momento de registrar.

Você é um pesquisador da cultura hip-hop. Como você entende esse movimento hoje após mais e menos quarenta anos de sua existência, hoje com alcance global?

O hip-hop possui 4 fundamentos: Rap, Dj, Graffiti e o Breaking. Mesmo com quarenta anos a cultura permanece com os mesmo ideais, propagar a paz, a diversão e os valores comunitários. Porém temos que entender que o hip-hop conquistou o mercado, tornou-se um produto de consumo, desvinculando seus reais valores. Muitas musicas de rap não tomam posições de denuncia e afronte as injustiças sociais, tomando posicionamentos contrários a cultura. Temos que saber filtrar o que é dito como hip-hop para não cair no esteriótipo negativo. O hip-hop transforma vidas se for transmitido de forma certa.

Como você compreende que a dança pode ser beneficiada pelo uso das novas tecnologias de comunicação?

Quando o hip-hop chega no Brasil na década de 80, era muito dificil o acesso as informações. Muitos participantes buscavam material fora do país ou muitas vezes por conversas e matérias que saiam nos jornais. Em tempos atuais tudo se tornou mais perto, conseguimos ver como o Breaking é dançado no outro lado do mundo. Assim vemos a evolução da dança, novos movimentos são criados e são divulgados pela internet. Aprender a dançar tornou-se facil, as informações e tutoriais estão cheios pelas plataformas de compartilhamento, atingindo cada vez mais pessoas. Mas muitas vezes é esquecido o valor histórico da cultura hip-hop tornando-se produto de consumo.

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Confira o trabalho deriva assinando gratuitamente a Lida.

Entrevista Meire Martins

Meire Martins, artista que participa da lida_005 com seu trabalho Infusão, comenta seu processo criativo e as questões que envolvem suas práticas artísticas, confira:

Sua série Infusão traz a tona nossa relação com o entorno, contrastando um conhecimento empírico com com um conhecimento enlatado que serve como uma das bases de dominação global. Nossa relação com a natureza é importante para o seu trabalho?

Sim, a natureza é um bem que pertence a todos nós e nos cabe cuidarmos dela, tanto quanto ela nos cuida. Sempre falo que estou na contramão da vida contemporânea de consumo desenfreado e produtos descartáveis. Acredito que com esforços podemos chegar num equilíbrio sustentável entre produção e consumo nos vários setores da sociedade contemporânea e globalizada. Segundo Emilio Moran no livro Nós e a Natureza: uma introdução às relações homem-ambiente, o homem sempre pensou a natureza e seu consumo de forma local, e essa micro relação com o entorno se expande para o macro num efeito cascata, geradores dos problemas ambientais que enfrentamos hoje. Portanto, a nossa relação com a natureza e como a vemos é um ponto que me interessa não só como artista que pensa na representação, na contemplação e na fruição da arte, mas como cidadã. Além disso o homem para se desenvolver quanto sociedade se relaciona intrinsicamente com o meio em que vive, procurando explorar e desenvolver essas regiões como meio de sobrevivência, assim acontecia com civilizações antigas como Egito e Grécia, e assim acontece com a sociedade contemporânea que se desenvolveu e cria meios e serviços para sobreviver.


O uso de técnicas manuais e industriais faz parte do trabalho. Como você relaciona as tecnologias de reprodução e as linguagens das belas artes?

A tecnologia e suas ferramentas transformaram o mundo de tal forma que não nos permite mais viver sem elas, facilitaram sem dúvida a vida moderna. As técnicas de reprodução vem mudando o mundo e a forma que nos relacionamos com ele desde a Idade Média, já que a xilogravura fez com que os livros se multiplicassem, sendo cada época beneficiada pela sua tecnologia. A arte contemporânea é um mixer, desde os anos 60 os artistas vem explorando as linguagens de acordo com o que elas podem te oferecer como meio expressivo de uma ideia, os limites para a criação não existem, o que não anula a pesquisa e a investigação nestes rompimentos de paradigmas. As linguagens tradicionais das belas artes como o desenho e a pintura estão intimamente relacionadas com o desenho e a pintura digital, bem como a fotografia e outras técnicas quando pensamos em composição, organização espacial, profundidade entre outros. Cada técnica com sua estética, mas que se relacionam de forma estrutural. Se a tecnologia mudou a vida cotidiana, nada mais natural que se incorpore a arte e as novas produções.


Os elementos da natureza e da produção humana surgem em forma de contraste. O que te interessa em dialogar com esses elementos?

Me interessava valorizar nesta série o conhecimento popular e a medicina alternativa, em uma crítica a automedicação. Juntar as duas possibilidades estéticas foi parte do processo que primeiro envolvia trabalhar com as bulas que vêm nas caixas de remédio, mas que o papel não me oferecia o resultado esperado, e como sabia que os grandes laboratórios oferecem as bulas para impressão e consulta pela internet, optei então para um papel mais interessante num formato maior no qual eu pudesse fazer as impressões, o que acabou criando uma estética mais interessante, colocando a bula impressa como representação dessa manipulação laboratorial relacionada as tecnologias, e o desenho numa técnica tradicional de ilustração botânica e que representava essa relação intimista e tradicional que é o feito a mão e se aproxima do chazinho da vovó.

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Conheça o trabalho Infusão assinando gratuitamente a Lida_005

Confira também outros trabalhos da artista em seu site: 
meiremartins.com

O cinema contemporâneo de Tsai Ming-Liang em Journey to the West

O que é cinema contemporâneo? Essa questão não é fácil de de responder: primeiro pela idade do cinema que é relativamente pequena se comparada com a história da arte, literatura ou música, que não nos permite classificar com exatidão os filmes através de uma divisão cronológica, já que muitos procedimentos distintos ocorreram simultaneamente; e segundo pelo próprio tempo em que vivemos se apresentar de forma conturbada.

Dessa forma, podemos recorrer a Giorgio Agamben e Tsai Ming-Liang para pensarmos uma prática contemporânea no cinema. Em seu livro O que é contemporâneo? e outros ensaios Agamben esclarece que a contemporaneidade pode ser definida como uma posição de distanciamento em relação ao próprio tempo, uma espécie de inadequação com o presente que permite vê-lo de forma mais clara. Para o filósofo, aqueles que estão em plena conformidade com seu tempo não podem, de fato, percebê-lo.

Esta dissociação com o tempo presente pode ser percebida nos filmes de Tsai Ming-Liang, sobretudo em Journey to the West, de 2014. Nesta pequena peça de pouco menos de uma hora presenciamos uma imagem conflitante, onde um monge (interpretado por Kang-sheng Lee – o ator de todos os filmes do cineasta) que se movimenta de forma extremamente lenta contrasta com o espaço ao seu redor.

Em meio à pessoas, imagens e objetos, encontramos Lee sequenciando um pequeno movimento por vez; como um ponto vermelho no horizonte, através de espelhos e janelas ou então contra o fluxo populacional, que por sua vez parece não entender as ações do monge.

Somos convidados, através da longa duração dos planos, enquadramento calculado e mise en scène perspicaz, a investigar uma imagem que se apresenta de forma bruta. O contraste entre os lentos movimentos de Lee e o frenético ritmo da cidade nos permite  perceber o nosso tempo, a nossa contemporaneidade, possibilitando uma leitura mais crítica das imagens que nos rodeiam e de nossas atitudes enquanto seres humanos.

Ao pensarmos em Journey to the West através das colocações de Agamben, veremos a presença de uma dupla contemporaneidade: a primeira reside no olhar do diretor, que demonstra uma postura lúcida em relação ao seu tempo, e a segunda no próprio personagem, que apresenta uma dissociação com o presente (através de suas ações) que nos permite, como espectadores, enxergar o nosso próprio tempo na medida que investigamos os contrastes presentes em cada plano.

Através desta breve relação entre o filme de Tsai Ming-Liang e as ideias propostas por Agamben, podemos especular que nem todos os filmes produzidos recentemente podem provocar esse tipo de percepção, justamente por se adequarem demais ao seu próprio tempo. Poderíamos considerar um filme contemporâneo aquele que leva em consideração não apenas o “tema”, mas também a forma.

Cinema contemporâneo não é apenas aquele que questiona seu próprio tempo, é aquele que leva o espectador a questioná-lo. Essa é uma característica do cinema de Tsai Ming-Liang desde seus primeiros trabalhos até suas produções mais recentes. Certamente um dos cineastas como o olhar mais aguçado de nosso tempo.

Assista o filme na íntegra!

REFERÊNCIAS

AGAMBEN, Giorgio. O que é contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009. Obter