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Entrevista João Zoccoli

João Zoccoli fala sobre o processo criativo de seu ensaio fotográfico O fazer sagrado Fulni-ô, apresentado na sexta edição da lida. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

1 – Como surgiu a ideia e a oportunidade de fazer um ensaio fotográfico com os Fulni-ô?

Bom, eu e minha família temos contato com os Fulni-ô há 18 anos e se construiu além do trabalho uma relação de família. Meu pai que foi professor sempre esteve ligado com essas questões sociais e em função disso acabamos conhecendo esse grupo na FEIARTE no ano de 2000, que era uma feira de artesanatos mundial que acontecia no Parque Barigui. A oportunidade surgiu quando eu aproveitei a vinda deles no mês de abril com o projeto que criamos de levar a cultura nas escolas e espaços culturais públicos e privados da cidade de Curitiba para a produção desse ensaio.

2 – Adentrar a um contexto cultural para realizar representações é uma responsabilidade e tanto. Você poderia contar um pouco sobre o processo de construção das fotografias e quais os cuidados tomados para, digamos assim, fazer um trabalho digno daquela comunidade?

Primeiro de tudo é chegar com respeito e sutileza depois de construir uma certa confiança, que isso vem com muito tempo de convivência ai se colocar num grau de humildade e pedir pra no caso fotografar ou produzir alguma ideia. Interessante também é saber que o tempo da nossa humanidade “branca” e muito diferente do tempo dos “indígenas” e temos que saber respeitar isso. Um acontecimento  que acho importante também é que um dia eu estava com meu pai na aldeia e era criança e eu era muito questionador, ai meu pai dizia índio não pergunta índio observa e isso sempre me acompanha até os dias de hoje quando chego em algum meio social diferente.

Ver também quais são as necessidades daquele meio social também e muito válido para se criar e se trabalhar com algo que aquela comunidade aceite e abrace como prática.

Bem o processo de construção das fotografias é bem livre e intuitivo, você tem que estar esperto para captar as sutilezas do cotidiano.

3 – Suas fotos retratam sobretudo objetos e mãos que trabalham, deixando de lado a feição das pessoas em questão. Você poderia falar um pouco sobre essa escolha e a relação com a composição das imagens?

Eu estava pensando como iria de um modo geral transmitir todo o cuidado, esmero e capricho que os povos indígenas tem com a produção de seus artefatos culturais que erroneamente muitos ainda chamam de artesanato. E ai comecei a clicar e construir dessa forma o ensaio pensando também no carácter de ritmo, musicalidade e equilíbrio de contrastes e na cor preto e branco mostrando a força da etnia.

4 – Qual a influência do trabalho sagrado Fulni-ô no seu trabalho? O que mudou em sua prática após essa experiência de campo?

Esse foi o primeiro ensaio oficial na fotografia, até entrou no evento CLIF de fotografia, através de uma convocatória nacional foi exposto na CINEMATECA  de Curitiba e na AIREZ galeria de artistas independentes. Acho q na minha prática o que mudou foi a questão de trabalhar mais livre e solto sem ficar muito preso as regras  e aquele método tradicional de organização de trabalho ou projeto.

5 – Como você vê a condição das culturas indígenas atualmente no Brasil e qual o papel da arte na manutenção e valorização dessas culturas?

 Hoje não somente hoje, a questão de qualquer sociedade marginalizada pela sociedade e por quem está no poder é uma situação de descaso e falta de conhecimento ainda se tem muito preconceito em relação aos indígenas, quilombolas, negros e LGBT’s. Não podemos negar que a nossa situação se tratando dos indígenas está crítica, é um momento delicado que como seres humanos não podemos deixar que haja qualquer retrocesso em termos culturais, ambientais, e de direitos que conquistamos com muito suor e sangue.

O papel da arte e dos artistas hoje acredito que seja mostrar, esclarecer e descobrir o que não está sendo visto pela população que ainda de certa forma é menos esclarecida em termos de informações reais e verdadeiras a respeito dos direitos humanos que temos e do que está acontecendo fora dos nossos olhos. Além de também sermos mais parceiros e trabalharmos juntos a essas comunidades se fortalecendo e trocando conhecimento.

6 – Você tem uma formação em design. Qual a influência do design na sua prática como artista visual?

Em termos de pensar sempre a cada obra realizada o equilíbrio, uma boa escolha de cores, uma boa composição  e uma mensagem clara.

7 – Você trabalha com fotografia e gravura. Poderia falar um pouco sobre a relação entre as duas técnicas no seu trabalho?

Acho que a gravura tem muito daquele lance do meu 1 ensaio fotográfico. O fazer a mão, do cuidado a cada impressão e cópia, da relação do outro tempo, do tempo do indígena. Acredito que a fotografia é mais uma linguagem e ferramenta onde vou poder explorar a temática do meu trabalho nas artes nessa mesma linha de sentir o outro tempo.

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Entrevista Ina Gouveia

A artista Ina Gouveia, participante da lida_006 fala um pouco sobre seu trabalho “Permeio”, seu processo criativo e as materialidades que envolvem sua pesquisa. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Seu trabalho gira em torno da ilustração. Como ocorreu sua ligação com essa linguagem?

Dentro da Academia, apesar de ter uma ligação muito forte com a linguagem e questões da ilustração, acabei a convite de professores e explorações pessoais, tentando implicar outros sentidos no meu fazer, menos didáticos e que entregassem menos o que eu estava propondo nas imagens. A partir daí minhas obras se ligaram a abertura de interpretação e ambiguidade que creio que caracterizam meu trabalho nas artes visuais. Embora ainda tenha meu trabalho na ilustração, creio que foram geradas bifurcações que cruzam as diversas pesquisas que tento encaminhar.

Podemos encontrar em Permeio o uso de papéis transparentes e tinta nanquim. Qual a importância dos materiais escolhidos?

Os materiais criam várias possibilidades possíveis de diálogos entre suas partes, permitindo a criação de camadas tanto físicas quanto interpretativas. A tinta gráfica e o nanquim permitem um preto gráfico que me agrada muito nas composições em que uso a linearidade para criar essas corpos ambíguos. Como materiais confortáveis para mim, todos do campo bidimensional, acho que de certa forma o trabalho tenta homenagear essa simplicidade da figuração e dos elementos básicos do desenho.

Questões como a relação entre corpo e espaço, assim como a indistinção entre ambos parecem estar presentes em seu trabalho. Qual a importância do corpo em sua obra?

Desde meus trabalhos iniciais, lido com com o corpo como a “forma possível” e um lugar discursivo do feminismo e do fazer artístico como mulher. Os desdobramentos, tanto literais quanto interpretativos, me agradam muito no diálogo com o espectador, que diversifica ainda mais os sentidos do que está sendo apresentado imageticamente.

Qual seu interesse em possibilitar diferentes montagens através da sobreposição das ilustrações transparentes de Permeio? Você leva em conta a apresentação como geradora de sentido no seu trabalho?

Acredito que tanto em um sentido narrativo quando na possibilidade das sobreposições e rearranjos desses módulos, há muitas coisas a serem construídas, principalmente no sentido da presença física do trabalho. Acredito que a apresentação é um momento importante para o artista em termos de resolução de sentido e qual história ele deseja contar, e acho que Permeio ainda há de ser mais desdobrada em termos de “módulos”.

Em permeio há uma clara relação entre o corpo humano e a pedra, o que nos trás a uma questão temporal. podemos dizer que a passagem do tempo é uma questão importante em sua pesquisa?

Sem dúvidas, a questão do tempo, do que nos precede e da ancestralidade estão muito presentes nesse trabalho. Creio que é algo novo, um caminho possível para trabalhos futuros, e acredito ter sido uma descoberta feliz como artista.

Em outros trabalhos é possível identificar a inexistência de rostos nos corpos representados. Você pode falar um pouco sobre essa questão e seu possível efeito nos espectadores?

Creio que essa falta de “identidade”, do rosto representado, pode abrir muito os sentidos do que apresento. Não há expressões faciais, que ditariam algumas relações que podemos criar com esses corpos, então o leitor da obra pode se implicar mais dentro das obras, espelhar mais suas próprias projeções dentro desse corpo narrativo, que se cruza ou não com outros corpos.

Você poderia falar um pouco sobre seu processo criativo?

Estou em uma constante descoberta sobre meus processos, mas acredito que a ambiguidade no corpo anda me guiando em trabalhos mais recentes. Na minha procura pelo cruzamento linha x desenho x corpo tenho me descoberto como uma artista mais intuitiva do que projetual, sempre baseada no fazer do desenho como base para meus processos. Desse fazer se deriva o discurso, as questões de montagem, e de cruzamentos possíveis entre os trabalhos.

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Quer conferir “Permeio”, de Ina Gouveia e outros trabalhos? Assine a lida gratuitamente e receba todas as edições diretamente em seu e-mail.

Entrevista Caroline Valansi

Caroline Valansi participa da quinta edição da Lida com seu trabalho “Corpo Cinético”. Confira abaixo uma entrevista com a artista, que fala um pouco sobre sua pesquisa e processo de trabalho.

A preocupação com o movimento é notável em sua série Corpo Cinético, como o próprio título se refere. O que parece estar em jogo é justamente a energia gerada a partir do movimento de dois corpos, tanto na sexualidade quanto na combinação de imagens distintas contrastando ritmicamente. Qual a importância do corpo em movimento com seu trabalho. Qual a importância do corpo em seu trabalho? Podemos dizer que além da temática essa preocupação está presente na experiência do espectador?

Parto sempre da pergunta de como posso fazer uma imagem 2d/plana virar algo em movimento. Gosto da ideia de ilusão. Como uma mágica, mostrar imagens que confundem os olhos dos espectadores, que estão atentos para determinado ponto, mas que na verdade não percebem a artimanha, o dispositivo ilusório por trás do efeito ótico. Assim, o espectador, sim, está presente na cinesia dinâmica da obra.

Essa série se deu quando achei revistas eróticas, onde mais do que os corpos, a fotografia e a luz me chamavam atenção. Preocupação rara no universo do erótico e pornô, que atentam apenas à exposição dos corpos. Pra mim, corpo é política. Os corpos femininos são sempre expostos de forma a manter uma opressão sobre eles. O sexo, ainda hoje, é cerceado por tabus morais, politizá-lo é uma forma de falar sobre ele, debatê-lo e, assim, construir uma nova linguagem que pode servir de ferramenta de objeção.

Todos nós movimentamos nossos corpos seja andando, cagando, transando… Estar no mundo é ter o corpo em movimento. Gosto do conceito do esbarrão. Esse choque casual do corpo no corpo do outro assim sem querer, seu corpo já não é mais o mesmo e não está no mesmo lugar. Na série Corpo Cinético, a ideia era deformar os corpos, já tão pré- estabelecidos e entendidos. Dar sensação de movimento. De algo infinito.

Qual a relação entre sua formação na área de cinema com suas práticas artísticas – sobretudo as colagens? Estaria na preocupação com o tempo e o movimento?

Acredito que tudo que já fiz, estudei e experimentei está presente em toda minha obra. Como um hd cerebral que a todo momento eu vou lá e abro uma pasta de arquivos antigos.

Não gosto de jogar nada fora. Muitas coisas acontecem a partir de uma ideia ou interesse,

mas percebo que a premissa do movimento em imagens paradas é algo que me segue e instintivamente está presente de alguma forma no meu trabalho.

A sexualidade também está presente em sua prática, na série corpo cinético e em outras séries também. Você poderia falar um pouco sobre como seu trabalho se envolve com a sexualidade (e obviamente com as relações de poder – e seja, sua imbricações política)?

Minha aproximação com a pornografia se deu por um histórico familiar. Venho de uma família que teve uma grande importância na construção das salas de cinemas no Brasil. A maioria delas começou exibindo filmes de arte, clássicos de produção européia, mas nos anos 1980 entraram em decadência, transformando-se em cinemas pornôs.

Em minha pesquisa atual, tenho pensado o papel da mulher dentro do pornô e sua inserção na sociedade contemporânea. Meus trabalhos tratam de sexo, erotismo, feminismos. Minhas últimas obras falam da interação entre as ideias feministas e a visão que se tem da mulher no universo da pornografia, sua objetificação, seu eterno papel de submissão, que não acontece só nas telas.

A proximidade desse universo me levou ao feminismo e aos conceitos de postporn. Essa pornografia além do obsceno me levou a pesquisar os corpos. Como nosso corpo navega pela urbe? Que vetores nos impulsionam e nos censuram? Que corpo e liberdade queremos? Como usar nosso próprio corpo no mundo? Essas são algumas questões que atravessam meu trabalho, partindo da memória afetiva familiar, passando pela memória da cidade, até chegar à memória inscrita nos corpos que habitam esse espaço.

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Para conhecer a série “Corpo Cinético” basta fazer sua assinatura gratuita da Lida e receber diretamente em seu e-mail.

Para acessar outros trabalho e textos de Caroline Valansi, visite: http://carolinevalansi.com.br

Entrevista Meire Martins

Meire Martins, artista que participa da lida_005 com seu trabalho Infusão, comenta seu processo criativo e as questões que envolvem suas práticas artísticas, confira:

Sua série Infusão traz a tona nossa relação com o entorno, contrastando um conhecimento empírico com com um conhecimento enlatado que serve como uma das bases de dominação global. Nossa relação com a natureza é importante para o seu trabalho?

Sim, a natureza é um bem que pertence a todos nós e nos cabe cuidarmos dela, tanto quanto ela nos cuida. Sempre falo que estou na contramão da vida contemporânea de consumo desenfreado e produtos descartáveis. Acredito que com esforços podemos chegar num equilíbrio sustentável entre produção e consumo nos vários setores da sociedade contemporânea e globalizada. Segundo Emilio Moran no livro Nós e a Natureza: uma introdução às relações homem-ambiente, o homem sempre pensou a natureza e seu consumo de forma local, e essa micro relação com o entorno se expande para o macro num efeito cascata, geradores dos problemas ambientais que enfrentamos hoje. Portanto, a nossa relação com a natureza e como a vemos é um ponto que me interessa não só como artista que pensa na representação, na contemplação e na fruição da arte, mas como cidadã. Além disso o homem para se desenvolver quanto sociedade se relaciona intrinsicamente com o meio em que vive, procurando explorar e desenvolver essas regiões como meio de sobrevivência, assim acontecia com civilizações antigas como Egito e Grécia, e assim acontece com a sociedade contemporânea que se desenvolveu e cria meios e serviços para sobreviver.


O uso de técnicas manuais e industriais faz parte do trabalho. Como você relaciona as tecnologias de reprodução e as linguagens das belas artes?

A tecnologia e suas ferramentas transformaram o mundo de tal forma que não nos permite mais viver sem elas, facilitaram sem dúvida a vida moderna. As técnicas de reprodução vem mudando o mundo e a forma que nos relacionamos com ele desde a Idade Média, já que a xilogravura fez com que os livros se multiplicassem, sendo cada época beneficiada pela sua tecnologia. A arte contemporânea é um mixer, desde os anos 60 os artistas vem explorando as linguagens de acordo com o que elas podem te oferecer como meio expressivo de uma ideia, os limites para a criação não existem, o que não anula a pesquisa e a investigação nestes rompimentos de paradigmas. As linguagens tradicionais das belas artes como o desenho e a pintura estão intimamente relacionadas com o desenho e a pintura digital, bem como a fotografia e outras técnicas quando pensamos em composição, organização espacial, profundidade entre outros. Cada técnica com sua estética, mas que se relacionam de forma estrutural. Se a tecnologia mudou a vida cotidiana, nada mais natural que se incorpore a arte e as novas produções.


Os elementos da natureza e da produção humana surgem em forma de contraste. O que te interessa em dialogar com esses elementos?

Me interessava valorizar nesta série o conhecimento popular e a medicina alternativa, em uma crítica a automedicação. Juntar as duas possibilidades estéticas foi parte do processo que primeiro envolvia trabalhar com as bulas que vêm nas caixas de remédio, mas que o papel não me oferecia o resultado esperado, e como sabia que os grandes laboratórios oferecem as bulas para impressão e consulta pela internet, optei então para um papel mais interessante num formato maior no qual eu pudesse fazer as impressões, o que acabou criando uma estética mais interessante, colocando a bula impressa como representação dessa manipulação laboratorial relacionada as tecnologias, e o desenho numa técnica tradicional de ilustração botânica e que representava essa relação intimista e tradicional que é o feito a mão e se aproxima do chazinho da vovó.

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Conheça o trabalho Infusão assinando gratuitamente a Lida_005

Confira também outros trabalhos da artista em seu site: 
meiremartins.com

Entrevista Lucas Alves

O artista Lucas Alves participa da quarta edição da lida. Em entrevista para o blog, comenta sobre seu trabalho, confira abaixo:


Conte-nos um pouco sobre o trabalho ‘Sem título’ e o motivo de te-lo inscrito na lida:

Eu queria retornar à percepção bidimensional dele. Porque esse trabalho é de um momento em que busco reflexões acerca da linguagem do desenho e da escultura, suas inter-relações e transformações na história da arte. Eu desenho uma linha horizontal e moldo o papel. Esse desenho linear percorre caminhos, se desenvolve pelas dobras, e o resultado é uma estrutura vertical que fixo com outra linha, agora tangível, que é a linha de pesca. Então o que estava inserido na bidimensionalidade da folha encontra a tridimensionalidade do espaço real, aí essas imagens são uma espécie de retorno: você vê o desenho de outro jeito, a partir do grupo, não mais circundando as esculturas.


Quais são as suas principais referências/influências em seu trabalho?

Eu nunca sei responder bem essa questão, porque as referências são muitas e cada trabalho carrega suas próprias. Sem falar que nunca sei se as influências a dizer são artistas, trabalhos específicos de artistas, assuntos diversos, percepções. Eu vejo muito do trajeto, do caminhar, e de questões que surgem da própria linguagem artística específica que estou trabalhando. Mas se for o caso de citar algum artista cuja obra admiro muito e que por isso me influencia de alguma forma, mesmo eu não sabendo se tem muito a ver com o que faço, eu diria Tunga. E diria Louise Bourgeois.


A sua relação com o urbano é evidente em seus trabalhos, conte-nos como surgiu a necessidade em usá-la como temática:

Recentemente expus na Galeria Casarão 34 em João Pessoa um trabalho (. Espaço .) que coloco duas peças em cerâmica idênticas, simétricas, em dois extremos do espaço expositivo. Usei o provável trajeto que os visitantes fariam: uma cerâmica era mostrada no início e a outra no final do percurso da exposição, para criar uma situação de algo já visto, de um quase déjà vu.

Eu produzi esse trabalho após um acontecimento interessante: eu estava passando pela avenida Pres. Epitácio Pessoa (João Pessoa) sentido centro e tive a sensação de estar na avenida Eng. Domingos Ferreira em Recife. Essa sensação ficou mexendo comigo, fiquei pensando muito sobre ela. Ai percebi que, nesse caso, isso ocorreu muito pela padronização das coisas na rua. Eu estava transitando por uma sucessão de estabelecimentos comerciais, por imagens que se repetem por causa das grandes lojas, franquias, e que essa sequência aparenta existir em ambas avenidas. Depois eu fiz essas duas peças no ateliê e fiquei muito envolvido com o ato de aplicar exatamente a mesma técnica manual duas vezes para tentar obter dois parecidos. Aí, para padronizar mesmo, apliquei, pós queima, tinta spray preta. Eles precisavam estar espelhados, então enviei um texto para a curadoria chamado Diretrizes Instalacionais para Ativação de Situação de Objeto como metodologia da própria sensação que eu buscava, do objeto como lugar anteriormente visitado, como imagem já vista, como discurso que se repete em outro.

Então acredito que alguns trabalhos surgem como desdobramentos da minha relação com os caminhos na cidade.


Conte-nos sobre seu trabalho “Quadrinho 001” e sua relação com a linguagem das hqs:

É interessante que esse quadrinho 001, que publico de forma independente,  já é o final do meu interesse em produzir HQs. Ele é a primeira reunião de pequenos escritos e é também a junção de experimentações nesse campo. Nessa época eu estava pensando numa produção de quadrinho mais abstrata e experimental, tanto que muitos dos desenhos eram feitos pela utilização de papel carbono e tinta guache. Fiz de tudo um pouco porque me divertia falar daquela forma. Mas acho que produzir nessa linguagem precisa de muito mais seriedade do que eu podia oferecer a ela. Foi com os quadrinhos que comecei a ler de fato. Me interessa ser leitor.

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Para ver mais sobre seu trabalho ou entrar em contato com o artista:
instagram.com/alves.lcs / cargocollective.com/lalves / alveslcontato@gmail.com

Confira também o trabalho “sem título” na lida. Assine gratuitamente e receba sempre as novas edições.

Entrevista Fernando Hermógenes

Fernando Hermógenes, participa da lida_004 com seu trabalho Selfólio e fala um pouco sobre sua pesquisa, prática e influências. Confira a entrevista abaixo.


Conte-nos um pouco sobre você e sua carreira:

Estou caminhando nessa vibe há 11 anos, começando com arte e educação e desembocando na bagunça geral. Estou interessadíssimo no modo de fazer precário, o tosco, o humor e exagero, além da reunião, afetos e diversão – meu trabalho sempre aliançado com estes tópicos, ideias e caminhos que permitem inter-ações diversas quando os acontecimentos acontecem. Gradecido sempre pelas parcerias estabelecidas ao longo desse negócio que a gente chama de carreira, como o La Plataformance-SP, Perpendicular-BH, Corpus Urbis-AP, Gira de Performance-RJ e a galera takadora de fogo em Bangladesh. Sigo apaixonado com a des-aula, a destruição desta escola como temos hoje e com cada aluni que colou comigo e eu com elis nessa jornada. Na escola eu me criei, na escola me arruinei. Falo da minha avó Sueli Saldanha, que desde o início das coisas tem me acompanhado, fotografado e apoiado incondicionalmente, com uma fidelidade irrepetível, uma encorajadora dos processos, uma escape quando a coisa tá difícil e uma vida enorme quando a coisa acontece.


Quais são as suas principais referências/influências em seu trabalho?

Eu sempre fui sou apaixonado pela infância, o Hélio e o Krasinski. Bebo constantemente nas fontes destes três experimentadores incansáveis, dando nisto: um desejo de fazer, inventar, criar, tentar, ver, poder que vai quebrando os ‘não’ tudo. A infância, especialmente, pq ali tudo é muito tranquilo, é só indo mesmo pra ver no que dá. Desde sempre na escola, primeiro como aluno e depois professor, lidar com a criança numa relação de respeito e escuta, trocas e muita ação, fortaleceu minha prática e também atravessou diversas vezes e em diferentes níveis.


Conte-nos sobre o “Selfólio” e o motivo de ter inscrito este trabalho na lida:

Inicialmente, criei o Selfólio pra brincar com a ideia de foto bonita e foto feia. Sempre me divertiu ver as pessoas fazendo muitas selfies, mesmas poses e lugares, repetindo até que uma fique bonita. Decidi postar todas as selfies que tenho – daquelas que se enquadram no feio, no bonito e também no indefinido. Pra tanto, criei (mais) um blog e passei a postar todas as selfies que eu tinha de determinado momento, como uma viagem ou evento ou comida ou bebida. Não encaro o Selfólio como uma novidade, uma proposta inédita; os Selfólios já existem, tá aí o Instagram, Facebook e uma chuva de outras plataformas nas quais as pessoas se divulgam, espalham e takam seus rostinhos pro mundo afora. Mas o meu Selfólio tá por fora (risos), por fora da regra geral e das normas. É selfie? Então bora! Quando acessei uma edição da Lida, pensei que o Selfólio seria incrível pra entrar ali, aquele monte de quadradinho na revista. Pensado e feito, tá bayfârsx!


Recentemente você participou da residência Laboratório Santista (LABxS) conte-nos um pouco sobre o projeto e como foi a sua experiência:

A experiência no Laboratório Santista foi fantástica! Ali realizei o Museu do Objeto Encontrado, entre julho e agosto, e o processo de levantar este museu esteve animado por muitas outras figuras inesquecíveis: os amigos da Colaboradora, dos GTs e outros pontos de ação no Instituto Procomum. Este museu é pra apontar a precariedade da ou na produção do artista, algo que abracei no meu modo de fazer as artes e existir no mundo. O recurso que está disponível: vamo que vamo. O projeto original compreendia a experimentação de alguns textos que escrevi em 2017, porém, os atravessamentos das pessoas conduziu o trabalho por um outro caminho: o museu como lugar de encontro, dança, festa, conversa, confissão, auê, convite. O ambiente do museu era decidido diariamente, pois as obras e as histórias nos mudavam de lugar, de assunto e interesses. Aproximadamente 90 pessoas passaram e/ou ficaram por horas no museu ao longo de 8 dias de Auê Aberto e outros dias ao longo do mês. Recebíamos doação de obras, de comidas e performances também, além da maior DJéia que este país já viu, Mariany Passos Nanne Bonny, ter tocado no museu 2 vezes. Aquele pequeno cômodo com várias instalações, cadeiras e poltronas, se tornou um ambiente de convivência, ficar, pausar, dormir, esvaziar – assim como elevar a energia a níveis incontroláveis, takar fogo literalmente, acender velas, berrar, cansar.


Você possui um extenso trabalho com gifs, fale um pouco sobre a escolha desse formato:

Os gifs surgiram a partir do Google Fotos e passei a colecionar alguns. Em seguida, abri o blog, achando divertido que eu poderia abrir uma página na web a qualquer momento e eu estaria ali me movendo all the time. Fernando Hermógenes Animado. O próximo passo foi começar a montar os assuntos e ideias pro gif, deixando que o Fotos fizesse o resto. A coleção continua. Os gifs hermogenianos foram expostos nas edições do GIFFORMANCE, organizado pela queridíssima bayfârsx artista Marcela Antunes, do Rio de Janeiro.

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Acesse Selfólio e outros trabalhos na lida_004. Basta fazer sua assinatura gratuita.

Como se figura a ideia de nação ou afinal o que nos representa

A influência imagética oriunda das artes, figura ao longo do tempo fatos históricos importantes, tornando-se ícone na memória de determinado acontecimento. Assim como a identidade nacional, estabelecida por meios plásticos pode, com facilidade, consolidar uma ideia de nação. Construída com base em representações imaginárias, fazem com que um grupo de indivíduos se identifiquem como membros de uma organização social específica, influenciando seu comportamento.


Partindo do pressuposto de que todas as identidades são inventadas, por meio de valores simbólicos e culturais é possível avaliar a ideia de nação por meio dos costumes e das artes que a expressam. Deste modo, as imagens formam um importante meio de elaboração de uma memória coletiva, capaz de criar uma imaginário social. A ideia de nação no Brasil, por exemplo, foi construída no imaginário coletivo com a vinda da família real e a necessidade em estabelecer hábitos distintos da dos colonizadores. Muitas imagens pictóricas e iconográficas contribuíram diretamente para moldar a ideia de nação brasileira.


No século XIX a produção artística local era mantida e disseminada em grande parte por estrangeiros, que buscavam materializar e firmar no imaginário social a  características de exotismo e tropicalidade da nova nação. A Primeira missa no Brasil (1861), de Vitor Meirelles, exemplifica como os artistas se empenharam em moldar a visão dos brasileiros sobre sua própria história, presumindo a representação plástica destes acontecimentos.

A Primeira missa no Brasil (1861), de Vitor Meirelles

Existem muitas contestações às representações deste período, pois demonstram a ideia de nação brasileira fundada a partir da ação civilizatória, onde a hierarquia social expõe os brancos em primeiro plano, e os negros e índios em planos mais afastados, como um ato pacífico e glorioso. 


O passado colonial brasileiro pode ser revisto com o fim do império, assim como a visualidade da nacionalidade local. O regime republicano, instalado sem a participação daqueles que deveriam ver-se como cidadãos exigia símbolos que os unificasse em torno de um projeto nacional. Neste período, indivíduos como Tiradentes perderam o caráter subversivo e ganharam conotação de herói nacional.

Tiradentes esquartejado (1893), de Pedro Américo

A fisionomia e a identidade nacional foram redefinidas com base nos interesses dos intelectuais das primeiras décadas republicanas e suas referências estrangeiras. O movimento modernista resultou das mudanças sócio-econômicas derivadas da expansão cafeeira, da industrialização e urbanização das cidades brasileiras. 


Os artistas passaram então a representar plasticamente as novas experiências sociais, mesmo mantendo a influência dos estilos europeus, as imagens ganharam novos conteúdos, visando figurar as marcas mais eloquentes do jeito brasileiro. Apresentada na emblemática Semana de Arte Moderna de 1922, a arte desta época não só restabeleceu a representação local, como também, efetivou parâmetros não contestados de identidade propriamente nacionais.


Na década de sessenta a série “Bichos” de Lygia Clark, apontam inúmeros impasses que os artistas eram obrigados a driblar para atuar efetivamente na construção e renovação do indivíduo e consequentemente da sociedade. Problematizando diretamente a noção de subjetividade e desta forma a concepção do sujeito e sua identificação enquanto pertencente a uma coletividade.

Bicho em sí (1964), de Lygia Clarck

Atualmente a ideia de nação traz pouca identificação, mesmo com a grande demanda de ações simbólicas que buscam nos unificar em algo maior. Porém, se os atos são facilmente convertidos em símbolos e partilhados, esperar que os limites nacionalistas nos conduzam ou representem enquanto sujeitos livres, abre margem para identificações que verdadeiramente não nos dizem respeito.