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Entrevista Guilherme Bergamini

Guilherme Bergamini participa da lida_006 com a série Contrações.  O artista nos conta um pouco sobre seu processo criativo e algumas questões que permeiam seu trabalho. Confira a entrevista:

1- Como surgiu a ideia de Contrações? Você pode contar um pouco sobre o processo criativo da proposta?

Contrações surgiu em um momento particular de intensa emoção, a proximidade do nascimento de minha filha Malu. Em um período de expectativas e ansiedades comecei a organizar parte de meus arquivos e surgiu a ideia de construir um diálogo entre minha filha e eu. O formato de postais teve como objetivo oficializar sua identidade, pois antes mesmo de nascer, cartões postais foram enviados via correios em seu nome para o endereço de sua avó paterna. Malu nasceu em 29 de junho de 2015 e desde o dia 19 de junho ela já recebia seus postais com o carimbo oficial dos correios informando dia, mês e ano. Utilizei para fazer os postais recortes e colagens de fotografias de fachadas em Havana Velha, produzidas no ano de 2011 em Cuba, e fotografias de estradas que tirei em diversas cidades do Brasil nos últimos 10 anos.

2- Sua pesquisa artística envolve o trabalho com imagem em diferentes níveis, seja utilizando da fotografia direta ou da apropriação e recombinação de imagens. Como você vê a utilização das imagens pela arte em nosso contexto hipermidiático atual?

Acredito que produzir fotografias é externar, organizar e estruturar conceitos e ideais de forma a criarmos sentidos, que nos permitam refletir e agir direta ou indiretamente. Toda imagem é uma ação a partir de um suporte específico. A contemporaneidade cria um novo contexto de produção, divulgação e distribuição dessas imagens, em particular a fotografia. As redes sociais são os grandes mediadores dessa infindável produção imagética. Para cada publicação, um sentido que pode ser de cunho emocional e particular torna-se público nas redes. Ao mesmo tempo que milhões de fotografias são publicadas, sua “vida útil” torna-se imediata, “perecível” até que uma nova fotografia a substitua, o que às vezes acontece em questão de segundos. Nessa intensa produção e divulgação de imagens, em certo ponto cria-se um ruído de forma a “consumirmos” imagens de maneira pouco ou não reflexiva.

3- Seu trabalho Contrações vai além da fotografia e se apresenta como uma proposição artística. Qual seu interesse em propostas que ocorram ao longo do tempo?

Minha linha de trabalho está relacionada à construção de narrativas visuais, séries fotográficas onde uma temática é formulada e conceitualizada, possibilitando uma potência visual expressiva. Acredito que o tempo, nesse processo, permite pesquisa, erros e acertos, nos possibilita amadurecer e realizar um bom trabalho, que necessita passar por um processo de maturação. Consequentemente favorece a construção de uma narrativa consistente.

4- Qual sua expectativa para a conclusão da proposta? Você tem alguma ideia para quando esse dia chegar?

Os cartões postais foram concluídos no dia 10 de julho de 2015 quando postei o último da série. A intenção é torná-lo público, divulgá-lo a partir de oportunidade como essa na edição 6 da revista Mandrana. Ano passado a série foi exposta no Festival Obscura na Malásia. Quando Malu for alfabetizada, irei entregá-los dentro de uma caixa contendo jornais e revistas nacionais publicadas no dia 29 de junho de 2015, dia de seu nascimento em nossa casa às 8:35 da manhã. A força do trabalho é sintetizar um momento ímpar, a cena mais maravilhosa que pude presenciar em minha vida, que fora seu nascimento.

5- Sua pesquisa se relaciona com a política (relações de poder) de inúmeras formas. Você diria que essa é uma questão importante para você? Como?

A arte é uma ação política. Fazer arte é fazer política. Vejo a fotografia como suporte, força e expressão política. Meu trabalho é crítico mesmo quando realizo projetos mais ligados a questões emocionais e privadas, como o Contrações. Me deparo sempre com um denominador comum, que é essa força política expressiva.

6- Fale um pouco sobre suas influências artísticas em seu processo de trabalho.

Falar de influências artísticas é bem complexo pois posso enumerar diversos artistas ou movimentos que admiro e chegarei a muitos caracteres.

Pesquiso sobre a produção contemporânea, mas ainda não opino qual autor ou autora me agrada mais, pois são tantas possibilidades e representantes que em cada período me vejo direcionando para uma linha de trabalho que sofrera ou não influência de determinado(a) artista.

Tenho uma certa compulsão por livros e revistas e me vejo em um período lendo sobre a fotografia oitocentista e no outro analisando revistas estrangeiras, nacionais, sites contemporâneos etc.

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Entrevista Victor Honda

Victor Honda, artista que participa da lida_006 com o trabalho 47 minutos sobre grama fala um pouco sobre seu processo criativo. Confira abaixo a entrevista:

1. Sua pesquisa parece fazer um percurso que vai da construção de imagens ao uso do corpo no espaço em proposições artísticas. Você pode comentar essa transição? O que levou a explorar essas possibilidades da performance?

Acredito que isso tenha acontecido de maneira muito natural. Estamos sempre criando imagens e expectativas sobre a realização de um trabalho e mesmo nos trabalhos onde a performance se apresenta como “produto final a ser entregue” a construção de imagens ocorre de outras formas, nos esboços e nos primeiros passos da construção até a forma com que os elementos escolhidos e o próprio corpo irão compor a situação e o ambiente, muitas vezes de forma totalmente imagética.

A utilização do corpo nas proposições não estanca a construção de imagens, mas a modifica, passamos a ter que trabalhar com a experiência da ação e do tempo de forma mais direta passando a ter que lidar com essas possibilidades, limitações e potências de maneira muito diferente.

2. Seus trabalho 47 minutos sobre grama utiliza do corpo e do espaço para se constituir. Você pode comentar sobre a importância desses elementos em sua pesquisa artística?

É muito difícil pensar na atuação de um corpo sem visualizar o espaço no qual isso ocorre, é sempre uma conversa entre as possibilidades que cada um apresenta, um local específico onde esses diálogos ocorrem nos mostra não apenas onde, mas com que elementos matéricos e espaciais estamos lidando. Os ambientes e os corpos podem convidar ou repelir nossa presentificação e atuação nos espaços, valorizando ou negligenciando o momento em que se dá essa comunicação. Cada corpo e cada espaço carrega consigo inúmeras informações e nos apresentam diversos símbolos, eles podem não ser as questões principais nos trabalhos, mas são elementos que não podem ser ignorados durante o fazer artístico.

3. 47 minutos sobre grama é um trabalho que ocorre no tempo, e embora possamos falar das questões que a proposta envolve, é na experiência que a coisa acontece. O mesmo vale para seu trabalho Os campos estão brancos para colheita. Qual a importância do tempo nessa proposta?

É possível observar o tempo como um dos principais elementos que permeiam a obra, seja no título “47 minutos sobre grama”, que faz referência ao tempo médio gasto diariamente com a proposta, seja no desenvolvimento das plantas ou nos próprios registros que contêm datas, horários, e a própria passagem do tempo muitas vezes sendo descrita.

De certa forma o que eu queria observar nesta proposição (47 minutos sobre grama) era como todos os outros elementos (corpo, mente, energia, o repouso, a repetição, o local, as plantas…) se manifestavam e interagiam, e para isso uma performance diária e de maior duração juntamente com os registros escritos e fotográficos foram mais que necessários para a experiência como um todo, e para a análise e reflexão posterior.

Não consigo ver isso sendo feito de outra forma, acredito que , poucas respostas aparecem de maneira rápida e prefiro não confiar muito nelas, apesar de sempre carregá-las e observar suas transformações e derivações, são em ações prolongadas que se garante o tempo para que o corpo se estabeleça com o ambiente para então se manter disposto as afetividades e para que seja melhor valorizado o momento em que essas conexões acontecem.

4. Em 47 minutos sobre grama, o que percebemos é a proposição de uma experiência corporal através do contato com elementos naturais. Ao seu ver, qual a importância deste contato em nossa sensibilidade?

A busca pela interação com elementos naturais foi a princípio em relação ao movimento da vida e de que forma ela se apresentava diante da situação proposta, de como esse movimento na experiência me afetava no cotidiano, e de como o movimento do cotidiano afetava minha experiência enquanto estivesse deitado na grama ou cuidando das plantas em volta.

No entanto trabalhar com a natureza requer uma escuta muito maior, as plantas em geral demonstram esse movimento de maneira muito sutil com mudanças que requerem uma atenção redobrada, e que não envolve a percepção através apenas do olhar, é preciso sentir a natureza de outras formas, e por isso o deitar na grama, que envolve o contato direto com ela, com a terra, com a água e a umidade que se acumula. A natureza se expressa de diferentes maneiras mas é preciso aprender a escutá-la, ela nos força a trabalhar nossa sensibilidade de modo muito simples e genuíno.

5. A energia vital parece ser uma preocupação em seus trabalhos, sobretudo em Os campos estão brancos para colheita e 47 minutos sobre grama. Você poderia comentar um pouco sobre essa questão e a relação dela com sua proposições/performances/instalações?

Cada um entende isso de uma maneira bem diferente e utiliza diferentes nomes mas talvez seja algo que se entenda através da prática e da repetição. Diria que essa preocupação não seria por uma energia exclusivamente vital, mas sobre uma energia que de modo mais amplo abriga toda e qualquer coisa seja ela material ou imaterial, e sobre os fluxos de informação que essas energias nos apresentam, e como ela afeta a forma de como habitamos e interagimos com o mundo, no entanto acredito que é através da vida que isso se manifeste de maneira mais clara para a nossa percepção, mas é algo que pode ser explorado de diferentes formas nos mais diversos elementos e situações.

7. Você pode comentar um pouco sobre suas influências Artísticas?

Não sei ao certo até que ponto os nomes que citarei aqui são grandes influências artísticas ou se apenas aprecio suas criações, mas gosto bastante das instalações e projetos do Mark Dion, Elmgreen & Dragset, Hector Zamora e Willian Forsythe, as performances, happenings e proposições do grupo Gutai, Francis Alys, Andrea Fraser, Allan Kaprow, Berna Reale, Grupo EmpreZa. Gosto também além das obras, da forma com que alguns artistas como: Joseph Beuys, Abramovic, Lygia Clark e Yoko Ono observam (ou observavam) a arte e o mundo.

8. Como funciona seu processo de trabalho?

Na maioria das vezes identifico muito bem os objetos de trabalhos com os quais pretendo lidar, observando a que resultados eles podem me levar a partir de alguns testes, mas não a ponto de esgotá-los de alguma forma,mesmo sempre pensando onde quero chegar não penso em reduzir imprevistos mas procuro saber como lidar com eles. Durante os processos os próprios materiais, os lugares e os outros elementos dizem muito sobre eles mesmos, e podem mudar completamente o resultado final almejado, sendo sempre um diálogo entre essas expectativas visualizadas e as possibilidades do momento.

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Entrevista João Pereira

João Pereira fala sobre seu trabalho “Banco na Quelha”, um ensaio fotográfico com a participação do artista Jajá Rolim que faz parte da sexta edição da Lida. Confira a entrevista abaixo:

1 – O corpo e o espaço periférico são elementos integrantes de Banco na Quelha. Qual a importância desses elementos para a construção do trabalho?

 Ao ver os registros, esses são elementos que nos dão o retorno para a realidade. O visual estético que nos trás lados por muitas vezes não vistos e ignorados; esses que, no trabalho, se sobrepõe de uma forma performática que atravessa o sentido do olhar e percebe-se que se trata de algo além, o pertencer, em sua localidade como espaço e em sociedade quanto ao corpo, se auto revelando como arte e resistência.  

2 – O banco é um elemento que representa uma parte da cultura da periferia, utilizado para o bate papo da vizinhança, hábito comum em um ambiente com opções restritas de lazer (pelo menos de onde venho). Como surgiu a ideia da utilização desse elemento no ensaio?

O banco, banquinho, não veio de uma ideia específica e sim de uma mera utilização de adereços para os registros; digo que, o banco veio depois para a construção do trabalho de uma forma inusitada, em primeira ocasião como apoio ou até mesmo assento para o artista Jajá Rolim, onde ele se apropriando do objeto momentos depois nos revelou formas e ângulos novos, pensamentos e reflexões sobre sua performance. O banco no entanto agregou ao trabalho como fator de ocupação, de um lugar de fala, de estar presente.

3 – A frente das casas são lugares habitados constantemente nas periferias. A utilização desse espaço nos ensaios tem uma relação com essa rotina dos moradores? É possível fazer essa relação no trabalho?  

Essa relação vem a partir de quando pensamos que a frente da casa, ao olhar de dentro para fora, que ali existe movimento, algo para se ver. A ocupação desses espaços, seja a calçada ou a rua pelos moradores/transeuntes na periferia é mais constante, é algo que atrai olhares. No trabalho isso vem como a busca para esses olhares estranhos, olhares por muitas vezes conservadores,  que ao ver um corpo gay “bicha” pobre afeminado não-binário se sintam intrigados e que consigam perceber que ali é um espaço para todos, a rua como lugar de pluralidade.

4 – O trabalho nasce de uma conexão entre fotógrafo e performer. Fale um pouco sobre o processo de criação.

O processo veio de forma experimental, na minha perspectiva, pois a minha relação com a fotografia era muito nova e tinha desenvolvido apenas um outro trabalho (acadêmico) que não envolvia performance. Como amigos, morando juntos em um lugar totalmente novo para os dois, em Recife-PE, a busca em me desenvolver artisticamente me levou a conversas profundas com Jajá, despertando ideias novas com as quais nunca tinha trabalhado. Em uma tarde, estávamos em casa com outro amigo fotógrafo, Brunno Kawagoe, onde surgiu a ideia de um ensaio; descemos para a rua e começamos os registros e a refletir sobre o que estava acontecendo, dali veio olhares. Jajá em sua grande sabedoria corporal e intelectual me deu possibilidades de enxergar o corpo como eu nunca tinha visto ou apreciado pelas minhas lentes, me deu a oportunidade de fotografá-lo e de trazer/levar esse momento através dos meus trabalhos; ali me revelei artista com ajuda de grandes amigos.

5 – Banco na quelha é um trabalho que demonstra uma condição interessante da relação entre arte e periferia: um momento onde a representação da marginalidade pode ser feita por seus próprios integrantes, ou seja, não é mais necessário que terceiros se desloquem de uma posição central para as periferias para então gerar visibilidade. Ao meu ver isso é importante pelo fato que de a periferia pode então se representar de maneira legítima. Como você enxerga esse processo que foi facilitado pelas tecnologias de comunicação? É importante esse deslocamento?

Acredito que a periferia é um lugar independente, dali nos desenvolvemos e nos conectamos, surgem ideias, ali a gente se vira como pode. A tecnologia facilita os meios de comunicação e de distribuição, onde que, hoje encontramos vários projetos dentro de cidades periféricas aproximando os próprios moradores para questões vividas dentro da comunidade; seja por segurança, meio ambiente ou arte. Facilitar o acesso às informações através da tecnologia, algo que está em todo lugar, é dar visibilidade a quem não é visto pela sociedade, trazendo questões de reflexão e indagação. O deslocamento é interessante ao ponto em que se agrega e traz benefícios a localidade e as pessoas que ali moram, do centro a periferia, para ser algo visto e não esquecido.

6 – Quais as influências na concepção de seus trabalhos?

Bom, digo que essas influências vem de momentos e pessoas próximas, seja uma esquina ou um amigo. A maior parte vem de uma visão poética relacionada ao Turismo, curso que sou graduando na Universidade de Brasília. Em minhas viagens prezo pela descoberta, enxergar algo novo e registrar esse momento. Levo isso de uma forma íntima para que o público possa sentir talvez o que eu estava sentindo. Através da fotografia e vídeos, vou explorando novas técnicas e novas propostas; sou um artista novo ainda, acredito que seja difícil me encontrar de uma certa maneira, então sempre estou disposto a procurar novas formas de me desenvolver e de me expressar artisticamente.

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Entrevista João Zoccoli

João Zoccoli fala sobre o processo criativo de seu ensaio fotográfico O fazer sagrado Fulni-ô, apresentado na sexta edição da lida. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

1 – Como surgiu a ideia e a oportunidade de fazer um ensaio fotográfico com os Fulni-ô?

Bom, eu e minha família temos contato com os Fulni-ô há 18 anos e se construiu além do trabalho uma relação de família. Meu pai que foi professor sempre esteve ligado com essas questões sociais e em função disso acabamos conhecendo esse grupo na FEIARTE no ano de 2000, que era uma feira de artesanatos mundial que acontecia no Parque Barigui. A oportunidade surgiu quando eu aproveitei a vinda deles no mês de abril com o projeto que criamos de levar a cultura nas escolas e espaços culturais públicos e privados da cidade de Curitiba para a produção desse ensaio.

2 – Adentrar a um contexto cultural para realizar representações é uma responsabilidade e tanto. Você poderia contar um pouco sobre o processo de construção das fotografias e quais os cuidados tomados para, digamos assim, fazer um trabalho digno daquela comunidade?

Primeiro de tudo é chegar com respeito e sutileza depois de construir uma certa confiança, que isso vem com muito tempo de convivência ai se colocar num grau de humildade e pedir pra no caso fotografar ou produzir alguma ideia. Interessante também é saber que o tempo da nossa humanidade “branca” e muito diferente do tempo dos “indígenas” e temos que saber respeitar isso. Um acontecimento  que acho importante também é que um dia eu estava com meu pai na aldeia e era criança e eu era muito questionador, ai meu pai dizia índio não pergunta índio observa e isso sempre me acompanha até os dias de hoje quando chego em algum meio social diferente.

Ver também quais são as necessidades daquele meio social também e muito válido para se criar e se trabalhar com algo que aquela comunidade aceite e abrace como prática.

Bem o processo de construção das fotografias é bem livre e intuitivo, você tem que estar esperto para captar as sutilezas do cotidiano.

3 – Suas fotos retratam sobretudo objetos e mãos que trabalham, deixando de lado a feição das pessoas em questão. Você poderia falar um pouco sobre essa escolha e a relação com a composição das imagens?

Eu estava pensando como iria de um modo geral transmitir todo o cuidado, esmero e capricho que os povos indígenas tem com a produção de seus artefatos culturais que erroneamente muitos ainda chamam de artesanato. E ai comecei a clicar e construir dessa forma o ensaio pensando também no carácter de ritmo, musicalidade e equilíbrio de contrastes e na cor preto e branco mostrando a força da etnia.

4 – Qual a influência do trabalho sagrado Fulni-ô no seu trabalho? O que mudou em sua prática após essa experiência de campo?

Esse foi o primeiro ensaio oficial na fotografia, até entrou no evento CLIF de fotografia, através de uma convocatória nacional foi exposto na CINEMATECA  de Curitiba e na AIREZ galeria de artistas independentes. Acho q na minha prática o que mudou foi a questão de trabalhar mais livre e solto sem ficar muito preso as regras  e aquele método tradicional de organização de trabalho ou projeto.

5 – Como você vê a condição das culturas indígenas atualmente no Brasil e qual o papel da arte na manutenção e valorização dessas culturas?

 Hoje não somente hoje, a questão de qualquer sociedade marginalizada pela sociedade e por quem está no poder é uma situação de descaso e falta de conhecimento ainda se tem muito preconceito em relação aos indígenas, quilombolas, negros e LGBT’s. Não podemos negar que a nossa situação se tratando dos indígenas está crítica, é um momento delicado que como seres humanos não podemos deixar que haja qualquer retrocesso em termos culturais, ambientais, e de direitos que conquistamos com muito suor e sangue.

O papel da arte e dos artistas hoje acredito que seja mostrar, esclarecer e descobrir o que não está sendo visto pela população que ainda de certa forma é menos esclarecida em termos de informações reais e verdadeiras a respeito dos direitos humanos que temos e do que está acontecendo fora dos nossos olhos. Além de também sermos mais parceiros e trabalharmos juntos a essas comunidades se fortalecendo e trocando conhecimento.

6 – Você tem uma formação em design. Qual a influência do design na sua prática como artista visual?

Em termos de pensar sempre a cada obra realizada o equilíbrio, uma boa escolha de cores, uma boa composição  e uma mensagem clara.

7 – Você trabalha com fotografia e gravura. Poderia falar um pouco sobre a relação entre as duas técnicas no seu trabalho?

Acho que a gravura tem muito daquele lance do meu 1 ensaio fotográfico. O fazer a mão, do cuidado a cada impressão e cópia, da relação do outro tempo, do tempo do indígena. Acredito que a fotografia é mais uma linguagem e ferramenta onde vou poder explorar a temática do meu trabalho nas artes nessa mesma linha de sentir o outro tempo.

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Entrevista Ina Gouveia

A artista Ina Gouveia, participante da lida_006 fala um pouco sobre seu trabalho “Permeio”, seu processo criativo e as materialidades que envolvem sua pesquisa. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Seu trabalho gira em torno da ilustração. Como ocorreu sua ligação com essa linguagem?

Dentro da Academia, apesar de ter uma ligação muito forte com a linguagem e questões da ilustração, acabei a convite de professores e explorações pessoais, tentando implicar outros sentidos no meu fazer, menos didáticos e que entregassem menos o que eu estava propondo nas imagens. A partir daí minhas obras se ligaram a abertura de interpretação e ambiguidade que creio que caracterizam meu trabalho nas artes visuais. Embora ainda tenha meu trabalho na ilustração, creio que foram geradas bifurcações que cruzam as diversas pesquisas que tento encaminhar.

Podemos encontrar em Permeio o uso de papéis transparentes e tinta nanquim. Qual a importância dos materiais escolhidos?

Os materiais criam várias possibilidades possíveis de diálogos entre suas partes, permitindo a criação de camadas tanto físicas quanto interpretativas. A tinta gráfica e o nanquim permitem um preto gráfico que me agrada muito nas composições em que uso a linearidade para criar essas corpos ambíguos. Como materiais confortáveis para mim, todos do campo bidimensional, acho que de certa forma o trabalho tenta homenagear essa simplicidade da figuração e dos elementos básicos do desenho.

Questões como a relação entre corpo e espaço, assim como a indistinção entre ambos parecem estar presentes em seu trabalho. Qual a importância do corpo em sua obra?

Desde meus trabalhos iniciais, lido com com o corpo como a “forma possível” e um lugar discursivo do feminismo e do fazer artístico como mulher. Os desdobramentos, tanto literais quanto interpretativos, me agradam muito no diálogo com o espectador, que diversifica ainda mais os sentidos do que está sendo apresentado imageticamente.

Qual seu interesse em possibilitar diferentes montagens através da sobreposição das ilustrações transparentes de Permeio? Você leva em conta a apresentação como geradora de sentido no seu trabalho?

Acredito que tanto em um sentido narrativo quando na possibilidade das sobreposições e rearranjos desses módulos, há muitas coisas a serem construídas, principalmente no sentido da presença física do trabalho. Acredito que a apresentação é um momento importante para o artista em termos de resolução de sentido e qual história ele deseja contar, e acho que Permeio ainda há de ser mais desdobrada em termos de “módulos”.

Em permeio há uma clara relação entre o corpo humano e a pedra, o que nos trás a uma questão temporal. podemos dizer que a passagem do tempo é uma questão importante em sua pesquisa?

Sem dúvidas, a questão do tempo, do que nos precede e da ancestralidade estão muito presentes nesse trabalho. Creio que é algo novo, um caminho possível para trabalhos futuros, e acredito ter sido uma descoberta feliz como artista.

Em outros trabalhos é possível identificar a inexistência de rostos nos corpos representados. Você pode falar um pouco sobre essa questão e seu possível efeito nos espectadores?

Creio que essa falta de “identidade”, do rosto representado, pode abrir muito os sentidos do que apresento. Não há expressões faciais, que ditariam algumas relações que podemos criar com esses corpos, então o leitor da obra pode se implicar mais dentro das obras, espelhar mais suas próprias projeções dentro desse corpo narrativo, que se cruza ou não com outros corpos.

Você poderia falar um pouco sobre seu processo criativo?

Estou em uma constante descoberta sobre meus processos, mas acredito que a ambiguidade no corpo anda me guiando em trabalhos mais recentes. Na minha procura pelo cruzamento linha x desenho x corpo tenho me descoberto como uma artista mais intuitiva do que projetual, sempre baseada no fazer do desenho como base para meus processos. Desse fazer se deriva o discurso, as questões de montagem, e de cruzamentos possíveis entre os trabalhos.

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Entrevista Caio Brandão

Caio Brandão é poeta e participa da quinta edição da lida com A-MAR, leia a seguir a entrevista em que comenta sobre seu processo de escrita e motivações.

Você poderia falar um pouco sobre sua trajetória enquanto poeta independente?

Tudo se inicia com trocas de cartas entre um neto interessado por seu avô artista. Um sujeito sofrido com várias fabulações oriundas de uma língua mãe doce e romântica pela vida. O avô que logo não resistiu e caiu em desejos e admirações pelo seu então futuro aprendiz de escritor e neto…costumava dizer “Leiam sempre, sempre ou sempre!!!” nos sumários de livros que destinava. Quando faleceu em 2009, eu tinha meus 16 anos. Embora já trocava cartas e mostrava um pouco do meu anseio intrínseco de pertencer na família como ovelha estranha, quando se foi senti uma enorme responsabilidade como que um chamado a continuar seu legado de “escrevinhador de fim de semana”. Gosto demais de esquecer de mim mesmo, e escrever me alivia nisso. O avô? Um homem simples, curioso e sensível. Meu avô foi pai de minhas palavras, um grande mestre que quase não tive contato na vida, mas que viveu muito e vive ainda em minha imaginação. Escrevia para ele, depois escrevi para mim, e hoje simplesmente escrevo, apenas. Não devo questionar o fruto, apenas morder e partilhar. Essa é a minha missão: Repassar de maneira limpa para fins de sossego em dignidade pelo cumprimento do ofício confiado.

Como é o processo de construção de suas poesias? Exige muito tempo de cálculo e planejamento, ou é algo espontâneo?

Poesia não é ciência exata, embora hajam tantas tentativas frágeis de sistematizar a subjetividade humana. Creio (Fé, logo suponho) que o processo aqui é bem intuitivo. Não sei bem como ele funciona…Apenas tento ser o menos vaidoso possível e não me perder em mim mesmo. Gosto de inventar melodias, sonhar, transar, respirar, morrer, nas palavras. Isso desde pequeno, vai entender. Meu jeito de esquecer do mundo.

Podemos identificar um crescimento no número de poetas que utilizam a internet como meio de apresentação de seu trabalho, seja através da performance ou pela publicação de textos em diferentes plataformas. Como você entende o status da poesia atualmente?

Atualmente a poesia assim como qualquer outra manifestação humana está inserida no contexto da suposta “era da comunicação ampliada”, portanto isto aparentemente é um ganho no que diz a disseminação como especie de contágio abrangente. Mas, sinceramente, sinto que a palavra vive um momento de banalidade. Para tanto, eu prefiro até assistir filmes mudos. Entretanto, a vitrine é vasta não adianta mas o público não tem se mostrado participativo. Veja, brasileiro é um bicho que não gosta de ler, pensar, exercitar o ato político. Isso é um desmame anormal e burro. Vivemos na sombra de outros/outras e não valorizamos os artistas como representantes de uma revelação (revelar; pôr luz sobre algo) da identidade e do pertencimento. O escritor assim como qualquer artista é marginal, discriminado, não respeitado, mal pago, e ainda sofre de uma especie de capa de invisibilidade. Enquanto não somos vistos, não somos lembrados, mas somos vistos de maneira trágica pelos então “difusores” da cultura. Compreendeu? Meu ponto é: O artista está inserido em um contexto defasado – brasileiro. Escrever, assim como qualquer arte, é a expressão humana que visa a experimentação de um ponto de vista, uma percepção, que nem todos estão afim de exercitar. Assim existe o artista brasileiro, resiste, melhor dizendo. Ele depende de uma cadeia corrupta que em vez de difundir igualitariamente, apenas segmenta e edifica muros altos, conduz de forma a supervalorizar alguns, desvalorizando os demais. O escritor, por exemplo, depende de seres detentores de status social e político para ter sua obra como que posta em evidência, mas então você me diz, e a internet? Não é uma ferramenta democrática? Talvez, mas se eu criar um blog sem patrocínio vai me gerar renda? Vou conseguir pagar a conta de luz? não. Existe alguma política em minha região que incentive a produção literária? Qual a representatividade da literatura em meu entorno? Isso são perguntas básicas que todo artista deve fazer…para começar a agir com racionalidade! E perceber, claro, que isto é um hobby. Agora se der pra viver financeiramente com esse hobby, então isto é um milagre, falando de Brasil. A literatura vive em uma estrutura frágil portanto, e eu me pergunto sempre e estudo meios de compreender caminhos para a seguinte questão: Como atinjo não somente a parcela que aprecia simplesmente por prazer e conhecimento, o que é raro, e sim a plateia doravante e desapercebida que tanto anseio tocar?

Veja, o que eu quero é oferecer um caminho, e estou estudando o melhor jeito de isso acontecer de maneira universal. Não quero ganhar dinheiro com meus livros, quero fazer com que isso seja de domínio público, no mínimo. Se puder ganhar dinheiro, melhor pra mim não acha? Ou dá pra se viver nesse mundo sem dinheiro? Bom, eu não anseio coisas materiais, sou um homem simples e não tenho coragem de adotar a política do facão para conseguir as coisas…Mas como, como é que eu ser anônimo vou competir com um produto importado, posto como relevante, e acomodado/amparado financeiramente sabe Deus por quem? O problema é a competição desigual, e a competição por si só. Não tenho que competir com ninguém, muito menos com o(a) cara/ do tom de cinza, mas estar tão somente ao lado de maneira justa. Status? O status é aquilo que se adquiri quando evidenciado relevante. Quem evidencia tem poder, é visto como uma referência na sua escolha, e então o produto está qualificado. Mas bicho, me pergunto, literatura é pra vender ou pra morrer? Não tenho um puto pra imprimir meu livro. Chego na secretaria de Cultura, dedico a obra para o secretário da cultura, e faço um adendo: Me ajuda a publicar. Mas posso colocar de graça no facebook? posso e faço, parcialmente. Isto porque sou romântico e acho muito mais bonito a capa de um livro, o próprio livro, e a espécie leitor que lê o que se existe. Então, o livro está lá…Agora é torcer…

Você acredita que as novas mídias podem fazer com que exista um interesse mais amplo do público com a poesia?

Acredito que o poder de abrangência é facultativo, pois ainda que escravos das redes sociais, dependemos de veículos que empurrem o nosso trabalho, pois o que pretendo como poeta é atingir o maior número de pessoas, ou seja, colocar em evidência o que escrevo para despertar esse interesse de maneira mais contundente tanto no ato do apreço como do fazimento. O público que gostaria que tivesse acesso ao que escrevo é o mundo inteiro mesmo. Mas, isto pode ser feito em uma plataforma virtual ou terráquea. O marketing e os grandes veículos de comunicação, bem como o poder público são o oráculo principal, e o visto vetor capaz de evidenciar esta ou aquela obra para que se conquiste novos leitores ou não leitores. Com o produto em evidência (seja através da publicação e distribuição amparada por uma editora, ou mesmo tidos os honorários “selos de qualidade”), que, atribuem aquele ou este status, as prateleiras mais democráticas com as obras de autores até então anônimos, e o farol direcionado afim de difusão meramente do ato e não o vago pensamento comercial das vendas das obras, penso que desse modo talvez elas vão se encaixando na possibilidade de expansão. Mas para isto acontecer é preciso APOIO. Como o escritor apenas escreve, e não detêm de grandiosas ferramentas de impressão, muito menos espaços que difundam sua existência, dependemos de uma cadeia que funcione em generosa atenção e espírito de coletividade. E a internet? Isto é outro fator estranho, pois é ta aí né. Não consegui passar do meu círculo de amigos até agora, e do meu círculo de amigos que eu conheço 10% eu acho, enfim, não saiu daqui para o japonês, sacou? Os editores, as distribuidoras, o poder público, os festivais, a mídia, e tudo aquilo que puder alavancar e evidenciar o consumo consciente/crítico, ou a confecção de uma  LINGUAGEM LITERÁRIA regional, possui sua esfera de contribuição na cadeia de abrangência e expansão humana.

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Entrevista David Botelho

Em Deriva, trabalho que integra a quinta edição da Lida, David Botelho relaciona vídeo e dança, enfatizando a cultura hip-hop. Confira a entrevista em que o artista comenta seu trabalho:

Seu trabalho deriva busca refletir sobre o corpo em situação de rua – um corpo marginalizado, mas que encontra na dança sua forma de resistência em uma realidade caótica. Você poderia falar um pouco sobre as motivações para a realização de deriva? 

A pesquisa veio através da história da dança de rua, precisamente no Brooklyn em Nova York. Foi um estilo que surge nos guetos por jovens da periferia como um meio de expressão, este estilo de dança é caracterizado pela agressividade. Praticada com força, o bailarino busca vincular sua realidade com os movimentos de dança, como o corpo marginalizado a mercê dos perigos urbanos, necessita se defender. No video a dança torna-se o canal de comunicação entre o morador de rua e a cidade.

Qual a relação entre seu trabalho com dança e a produção audiovisual, entre performance e vídeo? Você poderia falar um pouco sobre isso?

Comecei em 2013 a praticar dança de rua, mas foi no estilo Breaking que encontrei a forma de me apresentar tanto como bailarino quanto como pessoa. Este estilo precisa se posicionar e apresentar atitude. Com o passar do tempo vi a necessidade de registrar a dança, tentei utilizar a fotografia porém não atingia todo o potencial. Por envolver diferentes passos e planos na forma de usar o corpo, o video resolveu essa questão. Muitas vezes já tenho um rascunho em mente dos ângulos e enquadramentos para os videos, mas experimentações e improvisos são ótimos desdobramentos no momento de registrar.

Você é um pesquisador da cultura hip-hop. Como você entende esse movimento hoje após mais e menos quarenta anos de sua existência, hoje com alcance global?

O hip-hop possui 4 fundamentos: Rap, Dj, Graffiti e o Breaking. Mesmo com quarenta anos a cultura permanece com os mesmo ideais, propagar a paz, a diversão e os valores comunitários. Porém temos que entender que o hip-hop conquistou o mercado, tornou-se um produto de consumo, desvinculando seus reais valores. Muitas musicas de rap não tomam posições de denuncia e afronte as injustiças sociais, tomando posicionamentos contrários a cultura. Temos que saber filtrar o que é dito como hip-hop para não cair no esteriótipo negativo. O hip-hop transforma vidas se for transmitido de forma certa.

Como você compreende que a dança pode ser beneficiada pelo uso das novas tecnologias de comunicação?

Quando o hip-hop chega no Brasil na década de 80, era muito dificil o acesso as informações. Muitos participantes buscavam material fora do país ou muitas vezes por conversas e matérias que saiam nos jornais. Em tempos atuais tudo se tornou mais perto, conseguimos ver como o Breaking é dançado no outro lado do mundo. Assim vemos a evolução da dança, novos movimentos são criados e são divulgados pela internet. Aprender a dançar tornou-se facil, as informações e tutoriais estão cheios pelas plataformas de compartilhamento, atingindo cada vez mais pessoas. Mas muitas vezes é esquecido o valor histórico da cultura hip-hop tornando-se produto de consumo.

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Confira o trabalho deriva assinando gratuitamente a Lida.

Entrevista Mateus Francisco

Mateus Francisco participa da lida_004 com seu trabalho Rua dos bobos, confira a entrevista feita com o artista:


Conte-nos um pouco sobre você e sua carreira:

Meu nome é Mateus, tenho 24 anos e sou estudante antes de qualquer coisa. Eu sou natural de Bragança Paulista onde ainda moro com a minha família, vivo no bairro da Vila Motta onde crescí jogando bola na rua Santo Antônio e pixando muros do “rio bosteiro” no Lavapés.

Entendendo a palavra carreira como caminho ao invés de entende-la como inserção num mercado específico eu acredito que meu interesse pela imagem, por arte ou algo nesse sentido começa com o Pixo propriamente. O mistério que envolvia aqueles nomes, lugares e os fantasmas de seus autores me encantava profundamente, portanto foi isso que fui fazer inicialmente, passando depois pros “bomb’s” e grapixos, sempre referenciando e acompanhado de um bando que começou a se unir em amizade na rua Santo Antônio e que entre o final da infância e fim da adolescência foi pra mim de grande importância e, no meio deles foi que decidi por estudar arte. Paralelo e depois disso trabalhei em oficina auto-elétrica, em fábrica do setor alimentício como terceirizado e até recentemente eu trabalhava como motoboy. Trabalhos que estranhamente também me influenciaram a estudar arte.  

Entrei na universidade pública, Unesp-Bauru, um tempinho curto na UFMG e atualmente to de volta a Unesp mas agora no instituto de artes de São Paulo, sempre no curso de Artes Visuais. Também sou militante da Frente de Esquerda Bragantina e voluntário numa ONG que é a Comunidade Sorriso em reconstrução no bairro do Cruzeiro.


Quais são as suas principais referências/influências em seu trabalho?

Minha principal referência é do lugar mesmo onde eu vivo, da arquitetura bruta dos subúrbios, tijolo, concreto e massa corrida, essas construções feitas completamente por pedreiros e não por arquitetos. Acho que há uma potência aí, uma potência estética a ser explorada, resgatada e emergida da utilização prática do dia-a-dia.  


Conte-nos um pouco sobre o trabalho Rua dos bobos e o motivo de ter inscrito este trabalho na lida:

Rua dos bobos é uma série de desenhos coloridos digitalmente onde eu exploro com o traço variações construtivas em perspectiva de linhas paralelas, essas construções tem sua raiz na observação de padrões, irregularidades e singularidades da construção civil suburbana. O título “Rua dos bobos” faz referência a música “A casa” de Vinícius de Moraes, que em primeira instância se relaciona com a própria série de construções isoladas que podem ser organizadas uma ao lado da outra ou uma depois da outra como numa rua de bairro, e segundo com a própria estrutura dos desenhos que não são mais do que linhas num espaço bidimensional. Também devo dizer que o paradoxo colocado nesta música foi de grande valor para o inicio dos desenhos que desembocaram nesta série. Outra coisa é q os 3 desenhos publicados na revista são uma seleção da série que tem mais de 20 desenhos. O motivo de querer pública-los é experimentar plataformas diversas de exposição que a série permite, além da Lida, esta série já foi organizada em zine e exposta na Galeria Alcindo do Instituto de Artes da Unesp.        


Estando cursando faculdade de Artes Visuais no momento, quais linguagens mais te surpreenderam e quais você não teve contato ainda, mas gostaria de poder ter acesso?

A pintura e o desenho se tornaram surpreendentemente importantes pra mim, o processo de me apropriar dessas duas linguagens foi um grande aprendizado e devo isso ao ambiente propício da minha escola, que apesar das dificuldades ainda é um ótimo lugar pra se estudar arte.

Eu pretendo me aproximar mais da construção civil, dos seus materiais básicos e sua técnicas, em geral do que trata o ofício do pedreiro e se possível entender ou desenvolver uma especie de linguagem artística que parta daí.      


Qual é a sua perspectiva profissional, considerando o cenário artístico atual brasileiro?

Me parece que hoje está em emergência o aspecto fetichista da mercadoria artística, que baseando-se num assentamento do desenvolvimento e rupturas estéticas da arte, tem ao seu dispor uma variedade infindável de produtos artísticos, todos eles considerados com valores intrínsecos de conquistas libertadoras, mesmo aqueles que reproduzem a operação duchampiana de questionamento do valor e estatuto do objeto artístico, pois esta operação não parece ter questionado ou rompido com este aspecto do mercado de arte, na real aparentemente o fortaleceu. Neste sentido parece haver duas vias possíveis de atuação: uma é tentar inserir o que eu faço neste cenário, no mercado de arte propriamente. A outra é inventar estratégias ou me inserir em projetos que visem a experiência artística não-mercadológica, e uma consciência de classe me faz desejar verdadeiramente esta última opção.

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Para acessar esse e outros trabalhos,  assine gratuitamente a lida.

Entrevista BlinDJ

BlinDJ é um projeto de música eletrônica e está presente na lida_004. Anderson Farias, seu idealizador, fala sobre a carreira e influências.


Conte-nos um pouco sobre você e sua carreira:

Nasci com deficiência visual em 1978, tive baixa visão até mais ou menos uns 8 anos. Meu ensino fundamental (primeiro grau) foi realizado em uma escola exclusiva para cegos, e lá, entre outras habilidades, comecei a me interessar por música. Já em 1995 participei pela primeira vez de um campeonato para DJs.


Quais são as suas principais referências/influências em seu trabalho:

Minhas referências são todas das antigas quando falarmos exclusivamente em relação aos DJs: Ricardo Guedes, DJ Marky, Memê, Deep-Lick… Do novo cenário eu citaria KVSH, Make U Sweat, Bruno Martini…


Conte-nos sobre o “Clipe Deficiências” e o motivo de ter inscrito este trabalho na lida:

O clip tem realmente a intenção de evidenciar o potencial das pessoas com deficiências. Quando conheci, o poema “deficiências”, há mais de 15 anos, gostei muito e fiquei com a certeza que ali tinha algo diferente pra passar para os outros. De 2014 para cá minha esposa e eu começamos a pensar em produzir nossas próprias músicas. Em 2017, fui atrás da autora do texto, consegui a autorização pra musicá-lo e aí está. Pensamos em vários formatos pra colocar a ideia em prática, mas a falta de patrocínio nos permitiu ter uma produção bem simples, mas a essência foi mostrada: pessoas correndo atrás do sonho de produzir seu próprio som.

Quando li sobre a LIDA em um grupo de Facebook, achei que poderia ser uma ótima oportunidade pra mostrar o trabalho pra mais gente.


Como surgiu a idéia e o que motivou o início do projeto BlinDJ?

BlinDJ é uma brincadeira com as palavras Blind (cego em inglês) e DJ. Hoje todos os DJs possuem nomes artísticos bem fortes, a profissão está muito popular, não dá pra ficar só com o seu nome / sobrenome de batismo, então, juntamos as palavras e ficou bacana.


Quais foram as principais dificuldades em viabilizar o projeto?

Para produzir o clip a dificuldade foi conseguir financiamento e portanto ele está bem longe da ideia inicial passada no diálogo que Camilla e eu temos no início dele.


Como vocês observam o mercado atual dos djs no brasil?

Não só no Brasil mas no mundo o conceito de DJ mudou; hoje em dia se você não produzir seu próprio material (músicas), fica complicado atingir uma grande massa. O DJ é muito mais do que um simples tocador de músicas previamente selecionadas, ele realmente produz outros artistas, cantores, bandas e é nesse mercado que desejamos estar um dia.

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Confira mais sobre o projeto e assista o clipe Deficiências na quarta edição da lidaAssine  agora, é gratuito!

Entrevista Lucas Gervilla

Lucas Gervilla  participa da lida_004 com dois trabalhos, Postais Soviéticos (individual) e Ruínas|Ruídos – De Detroit a Moscou (em parceria com Mônica Toledo), confira abaixo a entrevista em que o artista fala sobre as propostas apresentadas e sua trajetória.


Conte-nos um pouco sobre você e sua carreira:

Comecei a trabalhar com audiovisual ainda em 2005, quando ainda estava no curso de Comunicação em Multimeios, na PUC-SP. De lá pra cá, nunca parei. Trabalhei em diversas áreas, desde a criação de vídeos para cenários de shows musicais, institucionais, ficção, documentários sobre os mais variados temas, vídeo performance, live cinema, enfim, um pouco de tudo. Mas sempre com imagens em movimento, seja nos meus próprios trabalhos ou colaborando com outros artistas. Atualmente, sou mestrando no Instituto de Artes da UNESP.


Em 2017 você  participou de uma residência em moscou, conte- nos como foi essa experiência e os trabalhos que nasceram desta viagem:

A ideia de ir para Moscou já era antiga, mas só se concretizou no ano passado. A residência só foi possível graças ao Prince Claus Fund, da Holanda, que patrocinou os custos da viagem. O principal objetivo foi realizar as gravações e intervenções para um trabalho meu chamado “Abandonamento”, uma série de intervenções temporárias realizadas através de projeções de vídeo em lugares abandonados. Esse trabalho surgiu originalmente em 2013, estou desenvolvendo uma nova etapa dele para o mestrado, onde combino intervenções em lugares abandonados na Rússia e no Brasil.

A experiência lá foi única! A Rússia é muita coisa para um país só. Mesmo tendo feito um curso de alfabetização em cirílico e aprendido algumas expressões básica, me senti como um analfabeto em várias situações. Mas isso não impediu o bom andamento das coisas, o tempo todo tinha que fazer adaptações no que tinha planejado, o que, na maioria das vezes, trouxe resultados bem interessantes. A residência aconteceu junto ao CCI Fabrika, um centro cultural de Moscou. Toda a equipe foi solícita e ajudou bastante na realização do trabalho.

Fiquei lá um mês. Nesse período produzi muito material em vídeo e fotos, não só para o “Abandonamento”. Uma parte desse material foi o que deu origem aos meus trabalhos apresentados nessa edição da Lida. Ainda tenho muitas outras coisas que deverão ser incorporadas a trabalhos futuros.


Nesta edição da LIDA podemos encontrar dois trabalhos seus, o Cartões-postais | Monumentos Soviéticos, e o Ruínas|Ruídos – De Detroit a Moscou, que é uma parceria com Mônica Toledo. Conte-nos sobre ambos, nos postais quem são os personagens que foram retratados?  e no Ruínas, como foi a busca por estes locais abandonados ?

Andando por Moscou é muito fácil se deparar com grandes monumentos e estátuas: nas estações de metrô, praças, parques, avenidas…em todo canto tem um. Em geral, eles tem um ar de imponência e são feitos para serem admirados de baixo para cima. Uma boa parte desses monumentos retratam conquistas  da União Soviética e também valores importantes à filosofia socialista.

Um dos monumentos retratos nos postais é o monumento “Operário e Mulher Kolkhoz” (ou kolkosiana, dependendo da tradução para o português), uma obra colossal criada em 1937 pela artista Vera Mukhina. O trabalho mostra um homem segurando um martelo – representando os operários urbanos – e uma mulher com uma foice – representando os camponeses. Juntos, os dois formam o símbolo do socialismo além de representarem a igualdade de gênero. A importância dessa obra transcende as questões políticas. Trata-se da primeira estátua do mundo a ser feita em metal soldado. Esse trabalho também definiu o padrão do Realismo Socialista na arte monumental, retratando pessoas comuns com um caráter heróico.  

O fato da URSS ter enviado para o espaço o primeiro satélite artificial – o Sputnik, em 1957 – e o primeiro ser humano – Yuri Gagarin, em 1961- são lembrados com orgulho até hoje. Em um dos postais retrato o “Monumento aos Conquistadores do Cosmos”, construído em 1964, em homenagem aos avanços do programa espacial soviético. Outro postal mostra uma estátua chamada “Sputnik”: um operário segurando imponentemente uma réplica do satélite homônimo, representando que a conquista não foi apenas dos cientistas, mas de todo o povo; mais um ótimo exemplo do Realismo Socialista nas artes.

O quarto postal mostra uma das muitas estátuas de Vladimir Lennin que ainda estão em Moscou. Muito pode se discutir sobre a política comunista, mas a importância histórica de Lennin é inquestionável, ele foi um os responsáveis por uma das maiores revoluções da história.

Por conta da realização e “Abandonamento”, visitei vários lugares abandonados na região de Moscou e em Nizhny Novgorod. A Monica Toledo tem um trabalho muito bacana sobre o resgate de memórias através de ruínas e vestígios e, já há algum tempo, vínhamos conversando sobre criarmos um trabalho juntando nossas pesquisas. No ano passado, ela foi para Detroit, daí tivemos a seguinte ideia: juntar em um trabalho Detroit – a cidade que foi símbolo do capitalismo industrial estadunidense e hoje está em decadência) e Moscou – a antiga capital da União Soviética e que até hoje parece estar em transição – para mostrar que ninguém está imune ao abandono e esquecimento.


Coincidentemente nesta edição da LIDA temos um trabalho que dialoga com seu documentário Orquestra do som cego. Conte-nos sobre o projeto, como foi a estadia na Alemanha:

Foi uma experiência inesquecível. Na época (2008) eu trabalhava junto com o músico Livio Tragtenberg nesse projeto musical “Orquestra do Som Cego” e o grupo foi convidado para se apresentar em Berlim. O Livio viajou antes e, quando percebi, estava fazendo minha primeira viagem para fora do Brasil e sendo responsável por acompanhar dois músicos cegos. Então acabou sendo uma experiência nova para todos nós, cada um foi percebendo as coisas do seu jeito.

Eu já vinha gravando os ensaios e apresentações do grupo aqui no Brasil e gravei também todas as etapas da viagem à  Alemanha. Esse processo resultou no documentário “Orquestra do Som Cego”.


No mês de setembro, você estará estreando o filme Edmur e o Caminhão  onde você e seu pai, caminhoneiro aposentado, viajam em busca de um dos primeiros caminhões dele. Conte-nos sobre o projeto, quanto tempo durou a viagem:

Essa viagem parece ter durado a vida toda rsrs. Eu tinha a ideia de fazer esse filme há quase dez anos. Comecei a gravar algumas coisas mas sem previsão de ter o filme pronto. No inicio do ano, o projeto foi comissionado pelo Canal Futura para fazer parte do Doc Futura, uma série de documentários curta-metragem. Logo depois começamos as filmagens pra valer.

No filme, acontecem duas buscas em paralelo: uma pelo caminhão e outra por memórias. Ao mesmo tempo que procuramos outros proprietários do caminhão também fomos atrás de lembranças familiares que envolviam o caminhão e o universo rodoviário. A filme ainda está no primeiro corte, mas estou bem satisfeito com o resultado. Envolver a própria família em um filme não é tão simples quanto parece.

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O acesso a lida é gratuito. Assine e confira na quarta edição a a série Postais Soviéticos e os vídeos Ruínas|Ruídos – De Detroit a Moscou.